sábado, 8 de fevereiro de 2014

Sevilha, a "capital do Atlântico"

Sevilha vista do alto da Torre del Oro. 
Ao fundo, à esquerda, a Catedral de la Giralda
"Diversas coisas se alinham na memória/ numa prateleira com o rótulo: Sevilha." As palavras do poeta João Cabral de Melo Neto brincavam de roda em minha cabeça enquanto um aviãozinho a hélice, pouco mais possante que um teco-teco, me levava de Lisboa à capital andaluza, atravessando nuvens de meter medo. Finalmente, eu estava a caminho de Sevilha.

Há lugares dos quais carregamos tantas referências que já não é possível imaginá-los como cenários. Eles viram personagens centrais de tramas fortes, cheias de paixão e aventura. No caso de Sevilha, com um elenco de apoio de dar inveja a qualquer arrasa-quarteirão — você talvez tenha pensado na cigana Carmem e no sedutor Don Juan, porque a ficção também tinha todos os motivos para ser generosa com a cidade.

A Praça del Triunfo e a Catedral de La Giralda

Na vida real, houve aquela passeata de civilizações que citei no post anterior. Os comerciantes fenícios e gregos deram lugar aos conquistadores cartagineses, romanos, vândalos e visigodos. Depois vieram os mouros, para cobrir Sevilha de belezas.

Quando Isabel de Castela e Fernando de Aragão, os Reis Católicos, acomodaram aqui a sua corte e converteram a cidade em quartel general da cruzada contra os reinos muçulmanos (na Década de 80 do Século 14), não devem ter provocado nenhum deslumbramento nesta esquina do mundo — para quem pariu um imperador do calibre do romano Adriano, um rei e uma rainha não fazem nem um par na mesa de jogo.

Durante o domínio mouro, a Torre del Oro fazia parte das defesas
 da cidade. Quando Sevilha passou a controlar o comércio com as colônias, ela passou a ser usada como posto de controle de entrada de mercadorias  
Mas aquela curva do Rio Guadalquivir ainda não tinha visto de tudo. Escolhida como porto exclusivo para o desembarque das riquezas trazidas da América, em 1503, a cidade, que já era um espetáculo, tornou-se um dos centros do mundo.

Durante 200 anos, a coroa espanhola viveria o esplendor e Sevilha seria alçada ao posto de “capital do mar oceano”, o Atlântico (palavras de outro escritor, Arturo Pérez-Reverte), convertendo-se em uma das maiores cidades da Europa do Século 16, com cerca de 150 mil habitantes. 

Paseo de Cristobal Colón, às margens do Guadalquivir, 
e o bairro de Triana, na outra margem
Hospital de La Santa Caridad, do Século 17, legado da prosperidade construída no comércio com a América 
(Hoje pode parecer estranho que uma cidade chegue à condição de rainha dessa fronteira com o Novo Mundo quando sequer está à beira-mar. Mas havia razões estratégicas para isso: limitar os desembarques ao Guadalquivir garantia mais segurança contra os piratas do Atlântico e do Mediterrâneo e também maior controle contra a tentação de trapacear o pagamento da parte devida à Coroa).

O Pátio de los Naranjos visto na subida da torre de la Giralda

Aqueles 200 anos de esplendor ainda estão muito bem documentados nas fachadas, altares e entalhes do barroco sevilhano. Comecei meu passeio na cidade exatamente buscando essa capital do Atlântico. A Torre del Oro era o local de desembarque das mercadorias trazidas do Novo Mundo, a aduana que controlava a entrada de riquezas e cobrava os quintos do rei (20% de todo o ingresso de ouro e prata).

A construção, do Século 13, foi uma torre de vigia no tempo dos mouros, integrada às muralhas que defendiam a cidade - partes delas ainda podem ser vistas na área do Alcázar e da Judería.

O Guadalquivir e o bairro de Triana vistos do alto da torre, que mantém detalhes decorativos mouriscos
Figuras de proa de navios no museu da Torre del Oro
Hoje, a Torre del Oro a abriga um modesto, mas simpático, Museu Naval. Lá do alto, das ameias, a vista é maravilhosa: o Guadalquivir, o bairro do Arenal (antiga área portuária) e o Paseo de Cristobal Colón, sombreado pelas palmeiras e laranjeiras. Do outro lado do rio está Triana, hoje muito menos misteriosa do que quando era um bairro onde viviam os deserdados, em geral, e os ciganos, em particular.


O Arquivo das Índias abriga um tesouro em
 documentos sobre a conquista e a colonização da América


No caminho entre a Torre del Oro e a Catedral de La Giralda, vale uma parada no Hospital de la Santa Caridad, do Século 17, fundado por Miguel de Mañara, um farrista épico que teria inspirado o personagem de Don Juan Tenório e que, arrependido da vida de pecados, converteu-se num penitente dedicado aos pobres.

O lugar ainda funciona como lar para idosos carentes e sua igreja é um belíssimo exemplar do barroco que floresceu na cidade em seus tempos mais pujantes.

O Postigo del Aceite era uma das entradas da cidade amuralhada e liga o bairro do Arenal, que ficava fora das defesas, à área da Catedral
A Catedral começou a ser erguida em 1401 sobre uma antiga mesquita almóada (um das dinastias mouras que dominaram a cidade entre os séculos 8 e 13). A obra levou cerca de 100 anos para ser concluída, bem a tempo de coincidir a inauguração com o início da Era de Ouro de Sevilha.

Até a construção da Basílica de São Pedro, no Vaticano (concluída em 1626), e de Saint Paul, em Londres (1677), foi o maior templo cristão do planeta. Apesar de seu interior absolutamente arrebatador, ela deve aos mouros seus aspectos mais notáveis, o Pátio de los Naranjos e a Torre de La Giralda, o antigo minarete da mesquita. (A Catedral ganhou um post todinho sobre ela, confira aqui).

Salão do Alcázar onde funcionou a Casa de Contratación
O monumento a Colombo, nos Jardins de Murillo, um parque muito agradável, ao lado das muralhas do Alcázar
A Plaza del Triunfo, onde fica a Catedral, é uma espécie de “resumo histórico” de Sevilha, reunindo os três edifícios mais emblemáticos da cidade. Além de La Giralda, lá também está o Alcázar (que também ganhou um post exclusivo), muito mais antigo que a Era de Ouro sevilhana — o complexo de palácios fortificados foi herdado dos mouros e elevado ao esplendor atual após a reconquista, por encomenda do rei Pedro I, que mandou cobri-lo de belezas em estilo mudéjar, a estética árabe sob o domínio cristão na Península Ibérica. 

Os salões do Alcázar abrigaram a corte dos Reis Católicos e a Casa de Contratación, onde eram negociadas e expedidas as concessões reais aos armadores que pretendiam explorar o Novo Mundo.

Fachadas barrocas no Bairro de Santa Cruz
A Igreja de Santa Cruz e o que resta das muralhas de Sevilha, na Judería
O terceiro edifício emblemático da Plaza del Triunfo é o Archivo General de Índias, que abriga apenas 7 quilômetros de prateleiras abarrotadas de documentos e exposições temporárias sobre a história colonial espanhola — em janeiro a mostra era "Pacífico, a Espanha e a aventura dos Mares do Sul" e eu adorei as cartas náuticas expostas lá. No acervo do Archivo de Índias estão peças históricas essenciais, como uma cópia do Tratado de Tordesilhas.

Pesquisadores do mundo inteiro encontram naquelas prateleiras farta documentação sobre as expedições de Colombo (que viveu em Sevilha e passou dez anos tomando chá de espera nos corredores do Alcázar, tentando o apoio de Isabel I a sua viagem às Índias), sobre a primeira viagem de circum-navegação (sim, Fernão de Magalhães, apesar de português, trabalhava para a Coroa Espanhola e partiu de Sevilha para contornar o globo) e sobre as primeiras aventuras de exploração das Américas. 

A Plaza del Triunfo vista do alto da Torre de La Giralda: no primeiro plano, a cúpula da Catedral. Ao centro, o Alcázar e, à direita, atrás das agulhas góticas, o Archivo de Índias
Mas o mais curioso dos documentos talvez seja a carta de Miguel de Cervantes, veterano de guerra, ferido na Batalha de Lepanto, implorando autorização para ir buscar a vida no Novo Mundo. O pedido foi negado por um burocrata de coração duro. Cervantes ficou na Espanha, pobre e endividado. E escreveu o Dom Quixote.

O Palácio Arquiepiscopal, em frente a uma das entradas da Giralda. A praça vive lotada de charretes que levam os turistas para passeios pelo Centro Histórico da cidade
O arquivo foi criado no Século 18, mas o edifício é mais antigo, inaugurado em 1646 como sede da Lonja de Mercaderes, concentrando toda a atividade relativa ao comércio marítimo para evitar que os armadores e comerciantes continuassem a fazer negócios nas dependências da Catedral (a expulsão dos vendilhões do templo à moda sevilhana).

O prédio, porém, durou pouco como o todo poderoso espaço de negócios, já que em 1717 o monopólio do comércio com as Américas foi transferido para Cádiz, devido ao crescente assoreamento do Rio Guadalquivir.

Nos próximos posts eu conto mais sobre a deliciosa exploração dessa “prateleira da memória” chamada Sevilha.

Dicas práticas


A Torre do Ouro
Archivo General de Índias 
(entrada pela Avenida de la Constitución). De segunda a sábado, das de 9:30h às 17h. Domingos e feriados, das 10h às 14h. A entrada é gratuita, mas as exposições temporárias podem ter ingresso pago. Consulte o site para ver a programação.

Torre del Oro
Paseo de Cristobal Colón, de segunda a sexta, das 9:30h às 18:45h. Sábados e domingos, das 10:30h às 18:45h. Entrada, com direito a audioguia, custa €3. 

Real Alcázar
Plaza del Triunfo, aberto diariamente das 9:30h às 19h, de abril a setembro. No horário de inverno (outubro a março), fecha às 17h. Entrada €9,50

Catedral La Giralda
Horário de inverno: segunda a sábado das 11h às 17 horas e domingos e feriados das 14:30h às 18. De abril a setembro, de segunda a sábado das 09:30h às 16:30h e domingos e feriados das 14:30h. às 18.30h.

Duas belezas sevilhanas: as igrejas do Amparo (esq) e San José, uma preciosidade barroca escondida numa transversal da Calle de Sierpes, tradicional via de comércio
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A Espanha na Fragata Surprise

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14 comentários:

  1. Muito bem descrito, sem dúvida! Também ontem escrevi no meu blog sobre Fernão de Magalhães. Beijinhos.

    www.viajarso.blogspot.com

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  2. Oi, Cynthia. Tubo bem? :)

    Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Natalie - Boia

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  3. Boas tardes,
    Adoro os seus posts apaixonados sobre as suas visitas e como não podia deixar de ser este sobre Sevilha está fantástico, consegue transmitir toda a aura e sentimento daquela cidade. Também amei a cidade e espero regressar muito em breve e conhecer o que ficou por visitar. Também tou fazendo uns post sobre a cidade no meu blog e acredite que os seus são sempre uma inspiração

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    1. Obrigada, Luffi. Às vezes eu fico meio desanimada com a Fragata, pensando em desistir. Toda vez que isso acontecer, vou reler esse seu comentário e continuar navegando. Grande abraço :)

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  4. Adorei ler o post e lembrar de Sevilha e da Andaluzia!!!!

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    1. Terra maravilhosa, né, Fernanda? Obrigada pelas dicas, antes da viagem. Beijo

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  5. Muito bom Cyntia. Realmente uma descrição belíssima da cidade descrevendo a cultura, história e pontos turísticos do lugar. Parecia até que estava fazendo um city tour por Sevilha. Hehe. Obrigado por compartilhar as dicas da sua viagem.

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    1. Thiago, Sevilha é apaixonante. Eu já tinha lido um bocado sobre a cidade, antes de viajar, então foi muito emocionante ver todos aqueles lugares ao vivo.
      Abs

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  6. Muito bem Cyntia..voce sempre nos brindando com informacoes preciosas...adoro registros historicos e adoro a Espanha. Aprendo muito com seu blog. Consulta obrigatoria antes de qualquer viagem...rrr

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    1. Legal, Márcia, obrigada pelo carinho com a Fragatinha. Bj

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  7. Gracias pelo seu blog. Acabo de retornar de uma viagem a Andaluzia e as suas informações foram de muito valor. Estivemos em Sevilha, Cordoba e Granada numa viagem inesquecivel.

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    1. Eu é que fico super feliz de saber que a Fragata ajudou, Jacy. Abs

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