quarta-feira, 13 de julho de 2005

Danúbio:
O coração do Leão e a curva do rio

Castelo de Schönbühel, na Wachau

Música deste post: O Barquinho, Nara Leão

Cerca de 80 quilômetros a oeste de Viena, o Danúbio começa a fazer uma curva para o norte e se estreita, para correr entre penhascos e colinas sobre os quais, ao longo dos séculos, foram sendo plantados castelos, mosteiros e vinhedos. Esse vale, que se estende por 40 quilômetros, é a Wachau, uma das paisagens mais bonitas da Áustria. Em cada uma de suas extremidades, uma pérola: Melk, a sudoeste, e Krems, a nordeste.

E, entre as duas, numa curva acentuada do rio, está uma cidade que planejei conhecer desde criancinha, a pequenina Dürnstein, com apenas 900 habitantes. Não é que eu fosse assim tão boa em geografia. Encasquetei com Dürnstein muito antes de saber onde ela ficava ou como se chamava. Para mim, ela era apenas o lugar da masmorra onde Ricardo Coração de Leão foi trancafiado, na volta da Terceira Cruzada.

Zarpando de Melk: a primeira visão da Abadia
Saí cedinho de Viena, mas havia uma interrupção na linha férrea, o que me obrigou a fazer uma baldeação em ônibus. Só consegui chegar a Melk perto do meio dia, morrendo de medo de perder o barco para Dürnstein. Felizmente, tinha trancado a mochila no locker da estação de Sankt Pölten, onde fiz conexão para a Wachau. Com a bagagem levinha, disparei ladeira abaixo, até o ancoradouro, e consegui pular no barco bem na horinha de partir.

A Abadia de Melk

Dizem que Umberto Eco usou a Abadia de Melk
 como inspiração (locação e quase personagem)
 para criar a abadia de seu romance
 O Nome da Rosa
Há dois anos, indo de trem de Viena para Salzburgo, fiquei muda de encanto ao ver a famosa Abadia de Melk pairando sobre a paisagem, na beira de um penhasco. Agora ela estava pertinho, sobre o rio, enquanto o barco zarpava devagarzinho. É simplesmente linda. Tem quase mil anos de idade, embora sua aparência atual, barroca,  tenha sido dada por reformas do Século XVII.

A abadia de Göttweig (à esquerda) e as cidades desfilando
 pelas margens do Danúbio

Os barcos têm uma ampla área aberta
pra a gente sentar e se deleitar com a paisagem
Logo depois de Melk, numa escarpa à beira do Danúbio, está o  Schloß Schönbühel, outra das visões espetaculares desse passeio pelo Danúbio. Apesar do dia não estar dos mais bonitos, a paisagem compensa com sobras o céu nublado: são montanhas, ruínas de castelos, vilarejos, aldeias, as cúpulas em formato de cebola nas torres as igrejinhas... E muitos vinhedos, cuja visão começou a me inspirar planos diabólicos para a hora do jantar, rsss.

Depois de passar por Aggstein, Spitz e Weißenkirche, começamos a entrar nos domínios da terrível família Kürnriger, que, segundo dizem, foram uns tremendos tranca-rua, na Idade Média, aprisionando os viajantes em suas fortalezas e, no caso de recusa do pagamento do resgate, atirando-os dos  penhascos, sem dó.

O Castelo Kuenringer dá calafrios até hoje
O castelo onde Ricardo Coração de Leão ficou prisioneiro fica mais adiante, pairando sobre Dürnstein. A fortaleza pertencia ao Duque Leopold V von Babenberg, com quem Ricardo aprontou uma gracinha na Terra Santa. Leopold vingou-se capturando o rei inglês que voltava da Terra Santa e recebendo uma fortuna como resgate. O  Castelo de Dürnstein, foi a primeira visão que tive da cidade, ainda encoberta pela curva fechada do Danúbio. Talvez em homenagem à beleza da cidade, o tempo feio -- tinha chegado a chuviscar -- dissipou-se inteiramente quando o barco contornou o cotovelo de rio.


A chegada a Dürnstein, com destaque para a abadia barroca 
Dürnstein é exatamente o que a gente imagina que seja um vilarejo medieval. Construída no alto da escarpa, a cidade é alcançada, desde o atracadouro, por um túnel escavado na rocha, iluminado por  lampiões. É como um filme da Sessão da Tarde. Lá em cima, meia dúzia de ruas estreitas, uma bela Abadia, a Rathaus (prefeitura) de conto de fadas e a igreja barroca debruçada sobre o rio.

O túnel de acesso à cidade. Na imagem da esquerda, a fumaça
 do meu cigarro deu um tom ainda mais lúgubre à passagem :)
O mais divertido é ver que não sou a única a visitar a cidade por conta de Ricardo Coração de Leão. O grande homenageado é Jean Blondel, o amigo que teria percorrido longas distâncias, cantando sob todas as torres de castelo que encontrou pelo caminho, até localizar o rei prisioneiro aqui em Dürnstein. Blondel dá nome a restaurantes, antiquários, pousadas...

Uma loja de lembrancinhas e uma pousada
que homenageiam o bardo Blondel
Impressionante é a quantidade de ciclistas de passagem pela cidade. As duas margens do Danúbio, aqui na Wachau, são ciclovias muito concorridas, nos fins de semana.

Tão pequena, Dürnstein pode ser vista em um par de horas, mas, se os hotéis não estivessem lotados, eu teria passado a noite na cidade, para ter tempo de explorar melhor os arredores e as ruínas do castelo. Sem opção de acomodação, tive que me conformar em   seguir, três horas depois de chegada, de volta para Melk.

A "muvuca" na principal (e única) rua de Dürnstein
Deu tempo de ver a Abadia, a prefeitura e a Igreja barroca, cuja torre é um dos cartões postais mais famosos da região. Mas bom mesmo foi almoçar  olhando a curva do Danúbio, num sossego indescritível.

O acesso à abadia. À direita, o teto decorado dessa passagem
A igreja da Abadia de Dürnstein
Informações práticas

Como chegar
De Westbanhof, em Viena, partem trens em vários horários para Sankt Pölten, de onde saem conexões regionais para Melk, Krems e Dürnstein. Consulte horários e preços no site da ÖBB, a companhia de trens austríaca.

Os passeios de barco entre Melk e Krems, com paradas em Dürnstein, podem ser feitos diariamente, de abril a setembro. O bilhete de ida e volta custa cerca de 25 Euros. Os horários podem ser consultados nos sites das companhias Brandner e DDSG

Dürnstein não tem como ser mais fofa
A torre e o portão da Rathaus (prefeitura) de Dürnstein
Outra forma bastante popular de ver as belezas da Wachau é pedalando às margens do Danúbio, entre Melk e Krems. As ciclovias nas margens norte e sul do rio cobrem todo o percurso. Muitas pousadas de Melk emprestam ou alugam bicicletas.

A simpática Melk. À direita, detalhe da fachada
 de uma igreja da cidade
Dica de hospedagem
Gasthof Goldener Stern- Sterngasse 17, Melk.  Pertinho do ancoradouro e da Abadia, esta pousada é herdeira de uma estalagem do Século XV e tem um restaurante muito bem reputado-- onde comi um pato inesquecível, acompanhado do vinho da região. Pesquisando para este post, vi que passou por reformas e as acomodações estão mais chiques. Em 2005, eu me senti a própria Cachinhos Dourados invadindo os aposentos dos ursinhos, quando entrei no meu quarto: a janela, emoldurada por uma cortina delicada, debruçava para os telhados antigos e os móveis rústicos eram fofos. Na época, paguei 35 Euros de diária no apartamento single, com banheiro privativo.

Em abril de 2006, eu retomei a trilha de Ricardo Coração de Leão, numa breve visita à Normandia. Um pouquinho dessa história também está contada aqui na Fragata.

O Danúbio em Dürnstein
A Áustria na Fragata Surprise

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