17 de novembro de 2007

Passeios em Nápoles: aventura neo-realista nos Quartieri Spagnoli

Nápoles vista do alto do Vomero
Nápoles vista do alto do Vomero

Música deste post: Santa Lucia - Enrico Caruso

Para além do clichê — a urbe passional, caótica, embandeirada por roupas nos varais e habitada por pessoas que falam todas ao mesmo tempo — Nápoles está cercada por uma paisagem arrebatadora, é movida por uma alma cálida e, assim como seu relevo acidentado, alterna vizinhanças plantadas nas diversas alturas da pirâmide social.

Além de mostrar uma beleza de fazer o coração dar uma paradinha, os passeios em Nápoles vão sempre exibir uma cidade de profundos contrastes — coisa não muito frequente na Europa. 

Inesquecível, por exemplo, foi o roteiro napolitano digno de filme neo-realista italiano, transitando entre a elegância do bairro do Vomero aos tradicionais Quartieri Spagnoli, onde se encontra a “Nápoles profunda”.

Foi um dos meus melhores passeios em Nápoles e recomendo vivamente essa aventura neo-realista.

Veja as dicas desse e de outros excelentes passeios em Nápoles. Você vai descobrir uma cidade apaixonante:
O Castel Sant'Elmo, no Vomero, visto da Piazza del Plebiscito, no Centro Histórico de Nápoles
O Castel Sant'Elmo, no Vomero, visto da Piazza del Plebiscito, no Centro Histórico de Nápoles

Passeios em Nápoles

Do Vomero aos Quartieri Spagnoli
A evocação do Neo-Realismo Italiano desse meu passeio não é mero jogo de palavras. O Cinema Italiano nasceu no Vomero —lá se estabeleceram as primeiras companhias cinematográficas do país, no alvorecer do Século 20. 

Após a II Guerra, o Neo-Realismo de Vittorio de Sicca, Luchino Visconti e Roberto Rosselini encontraria em vizinhanças pobres de diversas cidades, como os Quartieri Spagnolli, a matéria-prima para obras plenas de vida real.

Para ir do tranquilo Borgo Santa Lucia, onde eu estava hospedada, até as alturas do Vomero, a melhor opção é caminhar cerca de 900 metros até a estação Augusteo do Funicular Central e usar o bondinho para escalar a escarpa que leva ao bairro, 200 metros acima da movimentada Via Toledo.

No alto do monte Vomero estão algumas das vizinhanças mais chiques de Nápoles, com lojas elegantes, bons restaurantes e cafés muito charmosos — e algumas das vistas mais belas que já contemplei na vida, com o Vesúvio presidindo a sessão de cinema lá do outro lado da Baía de Nápoles, que se derrama a nossos pés.

Estação do Funicular Central de Nápoles na Piazza Fuga, no Vomero
Além do Funicolare Centrale, mais dois funiculares conectam o Vomero às partes baixas de Nápoles, os Funicolare di Chiaia e Funicolare di Montesanto

A história do Vomero remonta à ocupação grega que deu origem a Nápoles. Hoje suas atrações mais conhecida são o Castel Sant’Elmo, do Século 13, no ponto mais alto do bairro, e a Villa Floridiana, cercada por um vasto parque e sede do Museu Nacional da Cerâmica de Nápoles.

Até o Século 19, o Vomero era uma área rural e refúgio de verão da aristocracia napolitana. Quando o bairro começou a ser urbanizado, já saiu da prancheta seguindo a moda da época, que legou os grandes bulevares a Paris e Viena e o Eixample modernista a Barcelona.

Nápoles vista do Vomero
Outro ângulo de Nápoles visto do Vomero: uma cidade de fortes contrastes 

No Vomero, essa concepção urbana se traduz em belos edifícios residenciais com cara de palazzi —ainda que sejam destinados a várias famílias, ruas muito mais largas do que o labirinto medieval do Centro Storico de Nápoles e dos Quartieri Spagnoli e uma organização quase anti-napolitana 😊.

Quando a gente se afasta das ruas mais largas e movimentadas do Vomero, caminhando na direção da escarpa, começa a encontrar ruazinhas tortuosas, pátios e passagens estreitas.

São ladeiras e escadarias que começam a descer para os Quartieri Spagnoli, área de Nápoles que muita gente vai recomendar que você evite, por questões de segurança.

Casarões dos Quartieri Spagnoli, em Nápoles
Casarões dos Quartieri Spagnoli

Com o movimento do dia, porém, achei perfeitamente possível explorar o bairro mais autêntico de Nápoles sem me sentir ameaçada. E os Quartieri Spagnoli são irresistíveis.

Caminhando por lá, você vai constatar que aquelas cenas de gente gritando com os vizinhos das janelas e varais de roupas nas fachadas não são apenas cena de cinema. E faça o favor de apurar os ouvidos: é nos Quartieri Spagnoli que o som sedutor da língua napolitana pega a gente de vez — que sonoridade mais aliciante tem o idioma de Nápoles...

No labirinto dos Quartieri Spagnoli, até que me esforcei para garimpar os vários pequenos antiquários que vão da preciosidade à quinquilharia, completamente abarrotados, caóticos e fascinantes, mas confesso que o caos visual me deixou tonta.

Também vi muitas lojas especializadas em presépios (embora a rua mais famosa para comprar esse tipo de artigo seja a Via San Gregório Armeno, no Centro Storico, perto da Catedral de San Gennaro).

Os Quartieri Spagnoli (algo como “bairro espanhol”) foram construídos para abrigar os soldados da Espanha dos Áustrias, que era a senhora de Nápoles no Século 17. (Em "Corsários do Levante", sexto livro da série de Arturo Pérez-Reverte, o Capitão Alatriste passa uma temporada de emboscadas e punhaladas alojado na área).

Essa região de Nápoles é considerada uma das vizinhanças mais violentas da Europa Ocidental. Tem ruas muito estreitas (segundo a prefeitura, a maioria sequer tem três metros de largura), espremidas entre prédios de até seis andares. Apesar de todos os alertas, caminhei por lá admirando as fachadas antigas (maltratadas, é verdade) sem ser incomodada.

Se eu já estava apaixonada por Nápoles, depois desse passeio a coisa ficou muito séria. Essa é uma cidade que eu vou carregar comigo pra sempre.

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