sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Salvador: Bonfim, Ribeira e Santo Antônio, três clássicos que não saem de moda

O Largo de Santo Antonio tem uma tremenda vista para a Cidade Baixa. Olha lá a Igreja do Bonfim, com suas três palmeirinhas imperiais
Finalmente, consegui fazer um pouquinho de turismo em Salvador — geralmente, passo por lá só pra ver a família. Gosto muito do astral da minha velha cidade nessa época de festas. Os baianos ficam mais animados, mais disponíveis e meio tomados pela nostalgia. Além de reencontrar os amigos, dá uma vontade enorme de rever os cenários queridos que povoam cartões postais, mas que, para quem é da terra, têm a intimidade e o aconchego de quintal da casa da avó.

E quando os baianos querem turistar em Salvador, eles tem destino certo: a Igreja do Bonfim, o bairro da Ribeira e o Largo de Santo Antonio além do Carmo são passeios que fazemos desde criancinhas, com a família inteira, nas tardes tranquilas dos fins de semana fora de temporada. Pra vocês verem o privilégio que é crescer em Salvador, esses programas clássicos, dignos de qualquer antologia, têm pra nós o gostinho doméstico e, muitas vezes, só vivendo longe da cidade para nos darmos conta de que vale atravessar o país para ver esses lugares.

Santo Antônio
A Baía de Todos os Santos vista do largo, que ainda mantém seu singelo coreto.  No lugar da torre inacabada, na igreja do Século 19, há uma imagem de Santo Antônio

Minha primeira parada, este ano, foi no Largo de Santo Antônio Além do Carmo, com sua placidez de pracinha do interior e uma vista escandalosa para a Baía de Todos os Santos. Esse pedacinho sossegado do Centro Histórico sempre foi o meu preferido.

Muito antes da reforma do Pelourinho, ainda nos anos 80, adorava passear por lá, esticando a caminhada pelo Boqueirão, Carmo e a região da Igreja do Passo (famosa por ter servido de cenário ao filme O Pagador de Promessas). 

Adoro garimpar detalhes nas fachadas do bairro


O Santo Antônio é um pouquinho mais jovem que o Pelourinho, originado em uma povoação do Século 17 que se formou adiante das muralhas da capital colonial  (além do Carmo se refere a essa localização fora do cinturão fortificado, além da Porta do Carmo, acesso à cidade que ficava na altura do Convento e das igrejas do Carmo).

Desde que me entendo por gente, é um bairro simples, de moradores antigos, que cultivam as relações de vizinhança, botam colchas bordadas no peitoril da janela para ver passar o cortejo do Dois de Julho e celebram com devoção o padroeiro local, Santo Antônio (de 12 para 13 de junho, a quermesse animada continua uma delícia).

O tempo passa e eu continuo encantada 
com as fachadas de Santo Antônio


No últimos anos, o Santo Antônio andou vivendo um processo de gentrificação. Chegaram muitos estrangeiros, investidores ou apenas gente que se encantou com o lugar e resolveu ficar e montar um negocio. Foram abertas pousadas charmosas, cafés, restaurantes e lojas.

O preço dos imóveis subiu um bocado, muitas fachadas foram restauradas para recuperar a forma original e a região ficou na moda. No domingo em que estive lá, porém, vi muito pouco desse processo. Quem estava nas mesas dos poucos bares abertos eram os velhos moradores de sempre, em suas conversas animadas.



O que não muda é o prazer de caminhar à sombra daquelas fachadas lindas, com aquela vista estupenda e a sensação de aconchego que a gente tem quando encontra um velho amigo. É um passeio delicioso, que eu recomendo com entusiamo. E não deixe de parar na Cruz do Pascoal para comer uma lambreta ou uma casquinha de siri, no bar que leva o nome do pequeno largo conhecido por seu cruzeiro, abrigado em um nicho recoberto de azulejos. Se você for em dia de semana, vai encontrar abertas as lojinhas e antiquários que ajudam a dar charme ao bairro.

Como chegar
O melhor jeito para quem está de carro, é subir a Ladeira da Água Brusca, que começa na Cidade Baixa, na Avenida Jequitaia. Se for de táxi (o que vai lhe poupar o aperreio do trânsito e de procurar estacionamento), essa também é uma boa rota. Neste caso, a corrida não vai custar mais que R$ 50, para quem vem da região da Pituba. Se você já estiver no Centro de Salvador, o melhor jeito de chegar é descer o Pelourinho subir a pé a Rua do Carmo. Você estará fazendo o meu passeio, só que no sentido inverso.

Forte de Santo Antônio (Forte da Capoeira) e Cruz do Pascoal
O Forte de Santo Antonio já foi uma prisão política. Hoje é um espaço dedicado à Capoeira. À direita, a Cruz do Pascoal e o tradicional boteco homônimo
O Carmo, a Ordem terceira do Carmo e uma porta da Igreja do Boqueirão
O que ver por lá
Além da vista maravilhosa, vale dar uma entrada na igreja, que tem elementos rococós em seu interior. Ainda no Largo, o velho Forte de Santo Antonio, que serviu de cárcere a presos políticos durante o regime militar, é agora um equipamento cultural importante, o Forte da Capoeira, ocupado por academias dedicadas a ensinar e preservar essa luta criada pelos africanos na Bahia. 

Detalhes do interior do Convento do Carmo
O Convento do Carmo agora é um hotel e seu velho museu de arte sacra está fechado, aguardando restauro. Sempre dá, porém para admirar o velho claustro, transformado em jardim. As igrejas do Carmo e da Ordem Terceira do Carmo, assim como as do Boqueirão e do Passo também valem a visita. Pena que os horários de abertura sejam tão curtos e misteriosos. Vale apreciar o exterior dessas lindas construções barrocas. Mas só olhar as fachadas coloridas das casinhas do bairro já vale o passeio.

Na entrada do Convento do Carmo, uma placa assinala a rendição dos holandeses, que tentaram ocupar a Bahia no Século 17. à direita, um altar do Século 18, parte do acervo do convento, hoje convertido em um hotel de luxo

Ribeira


Pôr do sol na Praia do Bogari
Quando me perguntam qual o bairro mais bonito de Salvador, eu não tenho dúvidas: é a Ribeira, claro! Sou ferrenha defensora da tese de que recortes e relevo são os grandes definidores da beleza à beira d'água — taí o Mediterrâneo, que não me deixa mentir.

A Orla Atlântica de Salvador (que começa no Farol da Barra e segue na direção de Itapuã) tem lá seus encantos, mas nem chega perto do escândalo das margens da Baía de Todos os Santos, com suas escarpas debruçadas sobre uma sucessão de enseadas de águas calmas e azuis.

Bebericar à sombra de uma amendoeira enquanto os barquinhos passam pertinho da gente... Do outro lado, está Plataforma, bairro do Subúrbio Ferroviário
E a Ribeira é o lugar para desfrutar integralmente dessa beleza de águas mansas. O bairro, meio fora de mão para os turistas, fica na Península de Itapagipe, na Cidade Baixa. Apesar da distância, recomendo vivamente que você agende uma tarde por lá, de preferência em um dia de semana, quando a muvuca é menor. 

Os baianos da Cidade Alta, em geral, combinam a ida à Ribeira com uma visita à Igreja do Bonfim, uma parada para ver o pôr do sol na ponta do Humaitá e, claro, uma esbórnia de sabores divinos na tradicional Sorveteria da Ribeira, uma veneranda instituição do bairro.

Enseada dos Tainheiros: o calçadão ganhou um banho de loja, 
a marina está mais organizada. O que não muda é a beleza desse lugar


A tradicional sorveteria é uma preciosidade gastronômicas
 de Salvador. E a minha casquinha de cajá e pitanga
Assim como o Santo Antônio, a Ribeira parece não perder sua noção de comunidade. Tenho amigos cujas famílias moram lá desde o tempo dos bisavós. É lugar onde os vizinhos ainda se conhecem e aproveitam o espaço público para se encontrar. No verão, principalmente, em qualquer dia da semana, a beira mar está sempre movimentada com gente que caminha, aproveita a praia e as sombras generosas das árvores para compartilhar uma cerveja e muita conversa.

É muito legal ver o cair da tarde na vizinha Praia do Bogari, onde os bares colocam mesinhas ao ar livre, vendo passar os barquinhos e adivinhar o trem do subúrbio que passa lá do outro lado, pela Estação de Plataforma. Experimente os frutos do mar servidos por lá e depois me conte :)


Igreja do Bonfim
A Igreja do Bonfim, o centro espiritual da Cidade da Bahia
Nada traduz melhor a espiritualidade baiana do que a Igreja do Bonfim. No alto daquela colina se encontram as tradições religiosas que forjaram a alma da terra. O hábito muçulmano de guardar a sexta-feira e vestir-se de branco, herdado dos escravos Malês, reúne-se à devoção a Oxalá dos Yorubás e ao Cristo trazido de Portugal (de Setúbal), no Século 18, pelo capitão Capitão Teodózio, sobrevivente de uma tempestade em alto mar que escapou de uma tempestade no mar.

Independente de sua religião, é impossível não ficar tocada pelo apego do povo da minha terra ao Senhor do Bonfim. É uma devoção feita de proximidade, de camaradagem, mesmo, muito mais do que de reverência. As pessoas vão ao Bonfim nem só para pedir ou agradecer, mas também, e muito, como quem visita um velho amigo. Quando você for, assista ao menos um pedacinho da missa, porque é comovente testemunhar esse apego e carinho dos baianos com seu padroeiro informal (o padroeiro oficial de Salvador é São Francisco Xavier). A última sexta feira de cada mês é o dia mais concorrido. Hoje, primeira sexta-feira do ano, a igreja deve estar lotada de gente vestida de branco.

A sala de ex-votos da Igreja do Bonfim
Quando eu era criança, era de lei ir lá toda primeira sexta-feira do mês, dia que eu aproveitava para mergulhar na fascinante Sala dos Ex-Votos, onde as oferendas contam histórias de curas e milagres.

A imagem mais forte vem das pernas, braços e cabeças, a maioria feita em cera, representando curas pedidas e atendidas pelo Senhor do Bonfim. Mas o que eu amava mesmo eram os quadros, em traços muitas vezes toscos, mas ricos em uma narrativa sôfrega, comovida e grata pelos milagres alcançados contra desastres, naufrágios e sofrimentos. Pra mim, aquela torrente não estava nos marcos da pintura. Cada uma daquelas imagens tinha tal força e dimensão que elas ganhavam movimento, diálogo, trilha sonora e efeitos especiais.


Nunca fui religiosa, não eram os milagres que me encantavam, mas a força daqueles relatos, tão pulsantes e vivos que me acompanhavam por dias, após cada visita. Hoje, as pessoas já não agradecem ao Senhor do Bonfim com quadrinhos ingênuos. Preferem as fotos posadas, as campeãs dos ex-votos atuais. Uma parte do encanto, porém, ainda está lá.

Uma boa notícia sobre o Bonfim: parece que as autoridades andaram dando uma disciplinada na venda de quinquilharias na porta da igreja. Já cheguei psicologicamente preparada para o assédio dos vendedores e tive uma surpresa. O pessoal que está trabalhando lá é educado, oferece as fitinhas, mas não insiste nem chateia, como antigamente, razão pela qual nunca recomendei a visita ao Bonfim aqui no blog. Pois agora, recomendo, sim, e com entusiasmo.

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