quinta-feira, 1 de maio de 2014

Ronda, muito mais que um abismo

O Desfiladeiro do Tajo e a Ponte Nova, 
prodígio de engenharia do Século 18
Desde que comecei a planejar a viagem à Andaluzia, meu roteiro mudou um monte de vezes. Ronda era a única escala inegociável no percurso (e olha que a região tem maravilhas como Sevilha, Granada e Córdoba). Meu fascínio talvez tenha começado com Ernest Hemingway, que, sem citar a cidade, imortalizou-a em uma das cenas mais fortes de Por quem os sinos dobram, um livro que eu adoro. Também pode ter sido “herança” do cineasta Orson Welles, que amou tanto Ronda que fez questão de que suas cinzas fossem levadas para lá, após sua morte, em 1985.

O fato é que de tanto namorar fotografias do célebre Tajo — o desfiladeiro que corta Ronda ao meio, que chega a 100 metros de profundidade — seria impossível abrir mão de ver de perto essa imagem que, há décadas, instigava minha imaginação.

Ronda teve um papel fundamental na definição de um estilo de tauromaquia, mais contido e menos "barroco) e foi berço de de grandes toureiros, como Pedro Romero (Século 18) e Cayetano e Antonio Ordoñez, pai e filho. Esse último foi grande amigo de Hemingway e de Welles, fãs da "virilidade" das touradas. Com todo o respeito pelas tradições andaluzas, eu prefiro ver a Plaza de Toros de Ronda assim, como um playground para crianças
Sempre comento aqui sobre os riscos que a expectativa excessiva acarreta ao prazer de uma viagem. Pois tenho uma grande notícia: quando você for a Ronda, leve um container cheinho de expectativas, que ainda assim você vai se surpreender. Primeiro, porque o Tajo é realmente uma visão arrebatadora, daquelas que a gente quer pra a vida toda. Segundo, porque Ronda é muito, mas muito mais que um abismo — mesmo que esse abismo seja uma das coisas mais bonitas que eu já vi na vida.

Antiga colônia grega e importante praça forte muçulmana, Ronda é um primor arquitetônico de muralhas, palácios, igrejas e ruelas medievais. E ver o sol andaluz mudando a cor daquelas montanhas, ao longo do dia, foi um dos espetáculos mais comoventes de todos os meus maravilhosos 20 dias de viagem na região.

Por tudo isso, eu faço uma enfática sugestão: não vá a Ronda de passagem (sei que muita gente visita a cidade em breves escalas, em roteiros de carro pelos Pueblos Blancos). Reserve no mínimo dois dias inteiros para ver a cidade. 

O que ver em Ronda

A Alameda
A Alameda ao cair da tarde
O horizonte de Ronda é um dos mais espetaculares que eu já vi na vida. Ela está cercada por cinco cadeias de montanhas (entre elas, a Sierra de Grazalema). No passado, essa situação geográfica era a alegria de bandoleiros e contrabandistas que elegeram a região como refúgio, dado o difícil acesso. Os fora da lei se foram, mas as escarpas ferozes dos arredores continuam compondo a moldura exata para a beleza arrebatadora da cidade.

Nem precisa de legenda, né?
A Alameda de Ronda é um jardim construído no Século 19, debruçado sobre o penhasco e com vistas impressionantes para o vale aos pés da cidade, para as serras ao longe e, é claro, para o famoso Tajo. Alguns mirantes se projetam com tanta ousadia sobre o abismo que é quase impossível domar a vertigem, mas a beleza do lugar não deixa a gente recuar, apesar do intenso frio na barriga.

Paseo de Orson Welles homenageia o diretor do Cidadão Kane, que adorava a cidade e cujas cinzas repousam em Ronda
Entre banquinhos, fontes e estátuas, diversos caminhos cortam a Alameda, os paseos, cada um deles dedicado a um artista ligado à história de Ronda — Hemingway e Welles também. Rendem caminhadas gostosas, com um certo tom nostálgico, sempre com uma paisagem deslumbrante. O lugar é lindo a qualquer hora, mas ao cair da tarde é de fazer até um coração de pedra levitar...



A descida da trilha para a base do Tajo  
A trilha que desce até a base do Tajo 
oferece uma vista espetacular para a cidade e o vale
Foi como eu fiz a foto de abertura deste post. A descida é feita por um caminho pavimentado com pedras, nem  sempre muito regular, que parte da Plaza Maria Auxiliadora, um simpático larguinho arborizado, no final da Calle Tenório.

Eu fui só até a metade do caminho, onde um dente de rocha nos coloca cara a cara com o espetáculo do Tajo, mas é possível ir bem mais baixo, onde há algumas ruínas de construções e muros.

O mirante é improvisado e é preciso muita atenção para não escorregar e (toc, toc, toc) cair no abismo, mas o visual vale qualquer risco (e o esforço da subida, na volta). Para pegar o melhor ângulo do sol, deixe para ir a partir do meio da tarde, mas cuidado para não perder a hora, pois a subida no escuro deve ser pra lá de radical.

As antigas muralhas da cidade
A Porta de Almocábar (de “Al-maqabir”, "cemitério" em árabe) era o principal acesso à cidade durante o domínio mouro. Ao fundo, à direita, a Igreja do Espírito Santo
Ronda começou a ser fortificada pelos romanos, no Século 2, logo após a expulsão dos cartagineses da Península Ibérica. Foram os mouros, porém, que melhor aproveitaram o relevo temperamental da cidade e a converteram em um baluarte quase inexpugnável, a partir do Século 8, para guardar a rota que ligava Córdoba a Gibraltar e, de lá, para a África.

Parte dessas fortificações ainda estão de pé, como o trecho de muralhas no bairro do Espírito Santo, onde se destaca a Porta de Almocábar, principal acesso à cidade na época moura. Ela fica na parte baixa da cidade e, se as suas panturrilhas estiverem em forma, experimente começar lá uma caminhada ladeira acima, acompanhando o contorno da muralha. É um passeio delicioso (apesar de muito íngreme), com belos edifícios de um lado e a vista para o vale ficando cada vez mais bonita.

As muralhas e a Porta de la Xijara
Logo no começo da subida está a Igreja do Espírito Santo, do Século 15, uma das mais antigas da cidade. Mais adiante está o Museu do Bandoleiro, dedicado à história e ao mito romântico que envolve esse personagem tão característico das áridas serranias espanholas no Século 18, e o Minarete de San Sebastián, parte de uma mesquita do Século 14, que não existe mais.

A Igreja do Espírito Santo
Na parte alta da cidade, mais fortificações. São as muralhas e a Porta de la Xijara, outro lugar que acelera a pulsação da gente, com uma vista espetacular para o vale que se derrama a Leste da cidade. Pertinho daí está a Porta de Felipe V, do Século 18, que controlava a travessia da mais antiga ponte sobre o Rio Guadalevín, e o acesso ao coração da cidade. Há controvérsias sobre a origem de Puente Viejo ("Ponte Velha" em espanhol): alguns historiadores afirmam que ela teria sido construída pelos romanos. O certo é que foram os mouros quem construíram sua estrutura atual.

Até agora, só citei três razões pra você gostar de Ronda e o post já ficou enorme, por causa das fotos. Então, vamos combinar uma coisa? Comece a se apaixonar pela cidade e eu volto rapidinho com mais informações, tá? Nos encontramos nos próximos posts :)

A Catedral de la Giralda
O Real Alcázar
A Casa de Pilatos, um autêntico palácio andaluz
Cádiz
Fortes e bastiões, um lindo passeio pela história da cidade
Mais de três mil anos de história na cidade que acredita ter sido fundada por Hércules
Córdoba
Uma visão inesquecível: a Mesquita de Córdoba
Muito além da Mesquita: 6 motivos para amar Córdoba
Granada

A Espanha na Fragata Surprise

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8 comentários:

  1. Puxa! Que lacuna na minha ronda por Andaluzia... Mas é um bom motivo para voltar. Rose Spina

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    1. Rose, tem coisa melhor do que ter uma desculpa para voltar à Andaluzia? A minha é que eu não fui a Málaga, nem fiz a Rota dos Pueblos Blancos (só passei de ônibus, entre Cádis e Ronda). Beijo

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  2. Oi, Cyntia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Natalie - Boia

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  3. Olá!!!

    Tenho visto muitas coisas legais no seu site!!!

    Vou fazer Espanha & Portugal de carro com minha Esposa, Tio e Tia, em Maio/Junho.

    Pura Surprise! :-)

    Parabéns e Obrigado,
    Vladimir.

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    1. Obrigada a você, Vladimir. E aproveite muito a sua viagem. Portugal e Espanha são dois países encantadores.
      Abs

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  4. Oi Cyntia, como experimentado navegante desta fragata, nestes últimos dias passamos a adotá-la como bússola. É que em agosto, sol escaldante, dedicaremos nove dias a Andaluzia. No roteiro, três dias em Sevilha; um bate-volta a Córdoba, desde Sevilha. Daí em diante, motorizados, serão dois dias entre Arcos, Serra da Grazalema e Ronda, dois em Marbella, a pedido da patroa, e fechando o périplo com Alhambra, de Granada. Beijo grande. Adriano Corrêa

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    1. Nossa, Adriano, queria ir junto. Morro de vontade de voltar à Andaluzia. Aproveite muito a viagem e não esqueça de passar por aqui para contar como foi:). Fico feliz de saber que a Fragata está sendo útil no seu planejamento.

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