quinta-feira, 31 de março de 2011

Girona, uma preciosidade catalã

À beira do Rio Onyar, o casario substituiu as muralhas medievais
Música deste post: Milonga del Moro Judío, Jorge Drexler

Uma cidade cheia de vida, abrigo de um patrimônio histórico encantador e povoada por gente que embarca no transporte público cumprimentando afetuosamente o motorista com tapinhas nas costas e distribuindo sorrisos para os desconhecidos. Esta é Girona ("Gerona", em castelhano), a 90 quilômetros ao norte de Barcelona, no caminho para os Pirineus.

Com cerca de 100 mil habitantes — que parecem estar em permanente bom humor — Girona é o lugar perfeito para quem quer uma pausa no burburinho de Barcelona sem abrir mão da vibrante alegria catalã. Mas não se engane: nada aqui lembra a vidinha de aldeia. Cinemas de última geração, concertos e lojas de grifes badaladas convivem com o belíssimo e bem preservado patrimônio medieval.

A torre de San Feliú vista do adro da Catedral
Chegamos na hora do almoço, depois de duas conexões de trem (Narbonne e Figueres), vindas de Carcassonne — com direito a repetir o chatíssimo sobe-e-desce escadas com as malas, trocando de plataformas nas estações.

O que chama atenção, desde que pisamos na cidade, é a solicitude dos gironeses. Do taxista aos recepcionistas do hotel, dos transeuntes ao motorista do ônibus que nos levou ao centro, todos tem um festival de dicas sobre "visitas obrigatórias" na cidade.

As escadarias e passagens de El Call:
é um prazer se perder por aqui

Meu principal interesse era ver El Call, antigo bairro judeu, considerado o gueto medieval mais preservado de toda Europa. A pequena Girona, porém, tem muito mais história para contar, desde que sua povoação original pelos ausetanos (ibéricos). Dizem que as muralhas da cidade enfrentaram 25 cercos, até serem parcialmente destruídas na invasão napoleônica, em 1809.

Os romanos, visigodos e mouros deixaram sua marca aqui, mas é o imperador franco Carlos Magno, que pôs fim ao domínio muçulmano sobre a cidade, no Século VIII, que reina como uma espécie de "pai" e padroeiro — já de seu longínquo sucessor, Napoleão, Girona não guarda a menor saudade.

A Catedral de Santa Maria, uma visita indispensável
O claustro da Catedral
A lenda do retorno do imperador franco está por toda parte. Na Catedral de Santa Maria — de dar nó na garganta, de tão linda!— um dos destaques é o “trono de Carlos Magno”, atrás do altar principal, à espera do legítimo dono que, diz a lenda, retornará um dia à cidade.

O trecho das das muralhas que sobreviveu ao cerco francês é hoje  o Passeig Arqueòlogic, programa vivamente recomendado aos turistas pelos gironeses.

Apesar da fúria do bombardeio das topas bonapartistas,
parte das fortificações medievais de Girona ainda está de pé 
Já a parte destruída no Século XIX, às margens do Rio Onyar, deu lugar a um amontoado de prédios que lembram a simpática desordem de Ponte Vecchio, em Florença — a luz, aqui, também tem algo de Toscana.

Dois ângulos e duas luzes: de manhãzinha, o Rio Onyar e seu casario, com a torre de San Feliu a o fundo. À direita, a catedral pairando sobre o carario 
Parece que a cidade inteira é feita de passagens secretas
Café L'Arc:
uma taça que Cava,
que ninguém é de ferro :)
Nas ruas de Girona ouve-se pouco castelhano. O cartão de visitas do orgulho catalão vem logo na simpática correção que eles fazem da nossa pronúncia do nome da cidade: "Djiróna", nos fazem repetir, esconjurando para sempre o G aspirado espanhol.

Como estamos na Catalunha, o passeio por El Call só poderia terminar com uma taça de cava e tapas deliciosas — pulpitos (polvinhos minúsculos), croquetas (croquetes) e uma porção de butifarras (linguiças) — devidamente devoradas na mesinha do pequeno café L'arc (Carrer Força nº 9, El Call).

Ao cair da noite, os gironeses desafiavam o frio nas mesas dos bares e cafés da Rambla de la Libertat — hapyy hour de sexta-feira pra lá de animada.

O vai e vem fazia tremer a estrutura metálica da Pont de les Peixateries, obra de Gustave Eiffel, atrapalhando nossas tentativas de fotografar a vista matadora: a torre iluminada da Catedral e o contorno das construções antigas que derramam seu reflexo suave sobre o rio. As fotos ficaram tremidas, mas a memória está perfeita: Girona é uma preciosidade Catalã.

Girona: preciosa também nos detalhes
Dicas práticas

Como chegar


A estação de trens de Girona
Girona está 90 quilômetros ao norte de Barcelona, de onde é farta a oferta de trens até lá, desde os regionais pinga-pinga até o TGV. Os horários e preços podem ser consultados no site da Renfe, a companhia de trens do Estado Espanhol. Os ônibus da Alsa também ligam Barcelona a Girona, com saídas em diversos horários.

Onde ficar
Hotel Sol Melià Girona- Carrer de Barcelona n° 112

Simone, minha irmã, fez
 a única foto do hotel.
Apesar da bagunça,
acho que dá pra ver
que o lugar é legal :)
Esse foi, disparado o melhor hotel de toda a viagem. Pelo venere.com, conseguimos uma promoção tipo last-minute, com a diária no apartamento duplo por 60 Euros, senhora pechincha.

Bem que a gente estava precisando do conforto, depois das opções mais mochileiras de Barcelona e Carcassonne. 

Quarto grande, camas confortáveis, travesseiros fofinhos, banheiro enorme e todos os mimos que andavam fazendo falta: máquina de café, TV de LCD com dezenas de canais de notícias (foi assim que ficamos sabendo do terremoto no Japão) e janelas à prova de ruídos.

Fica ao lado de uma gigantesca loja do El Corte Inglés (que dá 10% de desconto aos hóspedes do hotel) e bem pertinho da estação ferroviária.
O que fazer e como circular



Na Carrer de Barcelona param os ônibus da Linha 2 (1,30 Euro) que levam até o Centro Histórico de Girona (parada Correos). Pena que a chuva do sábado encurtou nossa estada na cidade, mas recomendo fortemente a visita à maravilhosa Catedral, uma batida de pernas pelas ruas estreitas de El Call e um passeio pelas margens do Rio Onyar, cortado pelas belas Pont de Pedra e Pont de les Peixateries.

Catedral de Girona (Plaza de la Catedral, s/n) data do Século 11, mas resta pouco da construção original, em estilo românico. Por trás da fachada barroca, do Século 18, o que prevalece são as reformas góticas feitas no Século 13, uma ousada obra que dotou o templo de uma larga nave, sem colunas (a segunda mais larga da Europa, depois da Basílica de São Pedro, no Vaticano).


As diversas capelas que circundam a nave, o comovente Claustro, do Século 12, e as magníficas peças expostas no Tesouro da Catedral não preparam você para a visão arrebatadora de El Tapiz de la Creació, bordado do Século XI que "conta" a história da criação, reproduzindo as cenas do Gênesis. Sou capaz de atravessar o Atlântico a nado para ver essa maravilha outra vez.

A entrada para a Catedral custa 5 Euros, com direito ao áudio-guia. É proibido fotografar o interior da igreja.

A Espanha na Fragata Surprise
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