domingo, 7 de novembro de 2010

Altiplano Boliviano:
Cenário perfeito para uma road trip

Cenário de road movie: o belo Altiplano Boliviano

Música deste post: Trem das Cores, Caetano Veloso

Vasto, dourado, hipnótico: a beleza do Altiplano Boliviano seria de tirar o fôlego — caso a altitude tivesse me deixado algum. Hoje, atravessamos cerca de 70 quilômetros deste quase-deserto majestoso, pela Ruta Nacional 3, rumo à antiga capital de um império cujos vestígios podem ser encontrados do Equador à Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul.

Até recentemente, a Cultura Tiwanaku, que floresceu no Altiplano entre o Século 3 e o Século 12, era relegada à condição de mais um entre os muitos "ensaios" ao poderio Inca. Pesquisas realizadas nas duas últimas décadas, porém, têm sido decisivas para desvendar a verdadeira importância desta civilização, a grande senhora do Altiplano, 1.000 anos antes dos Incas.


Eu estava ansiosa para ver Tiwanaku. Junto com o Titicaca, as ruínas eram o meu principal foco de interesse nesta visita aos Andes — até porque eu já havia estado em Cusco e Machu Picchu duas vezes. A jornada até a velha capital do Altiplano superou minhas expectativas.

O micro-ônibus da Stop Tours nos apanhou no hotel, por volta das 8h30. Entre os passageiros, gente do mundo inteiro, todos na linha “mochileiros com um pouquinho mais de grana”. Pessoas interessantes: a jovem chilena moradora de Perúgia, Itália, e sua amiga de Siena. Patrick, o americano que estava encerrando uma temporada de 14 meses em Porto Alegre, o casal alemão, já na casa dos 60, o grupo de franceses cinquentões.

O trânsito caótico em El Alto
Todo mundo tentava falar espanhol, para “uniformizar” a comunicação, mas o dialeto do ônibus era mesmo uma mistura hilária de idiomas. Às vezes, quatro na mesma frase.

Já na saída de La Paz, o deslumbramento: a subida serpenteante até El Alto, contornando toda a borda da “panela” em cujo fundo se assenta a capital boliviana — na verdade, “a capital boliviana” é Sucre, La Paz é apenas a sede do Executivo, mas não deixe os paceños saberem que você sabe disso...

É impossível ver La Paz, assim, do alto, e não ficar perdidamente apaixonada pela cidade, tingida de dourado pelo sol do Altiplano.

El Alto: construções desordenadas...

...e vista para a Cordilheira
No pedágio, nosso micro-ônibus morreu e teve que ser empurrado pela multidão de pedestres, gente que fica fazendo não sei o quê em torno das cabines de cobrança. O motorista segurou a flâmula da Virgem de Copacabana pendurada no retrovisor e o motor voltou a roncar.

E foi aí que começou a odisseia: a travessia de El Alto. A 4.000 metros de altitude, a cidade de 1,2 milhão de habitantes brotou de uma favela e agigantou-se em apenas 25 anos de existência. O trânsito é inacreditável, especialmente porque é domingo, dia de feira, e a infinidade de carros, digna da Marginal Pinheiros na hora do rush, não consegue atravessar a massa compacta de gente que caminha pelo meio da avenida, sem a menor cerimônia.

Domingo, dia de feira, todo mundo na rua...
É por causa do trânsito em El Alto que as estimativas mais otimistas sempre calculam duas horas e meia para o trajeto de 70 quilômetros entre La Paz e Tiwanaku.

A cidade é muito pobre, marcada pelas construções desordenadas. As casas têm sempre a mesma aparência inacabada — na verdade, jamais são consideradas concluídas por seus moradores, eternamente batendo lajes e fazendo puxadinhos para filhos crescidos e até netos. Uma tradição local, explicam-me os bolivianos.

A paisagem do Altiplano Boliviano


Outra característica da paisagem urbana são as torres de cerca de 60 igrejas, construídas aqui por iniciativa dos católicos da Baviera, para fazer frente ao avanço das confissões evangélicas pentecostais. Os patrocinadores dos templos deixaram sua assinatura, uma esquisitice na paisagem do Altiplano: os campanários em forma de cebola, típicos do Sul da Alemanha — alguém avisou que eles estão na cordilheira errada?

Mas é em El Alto que começa o espetáculo: vamos viajar com vista premium para a Cordilheira Real. Os picos nevados nos acompanham, lá longe, no horizonte, do lado direito do ônibus, destacando-se na paisagem plana e árida.

A estrada passa por Laja, primeira capital da Bolívia, abandonada após um motim de colonos contra a Coroa Espanhola, no Século XVI. A região também é pontilhada por assentamentos agrícolas, com suas casinhas de adobito e plantações, mais filhas da teimosia que da razão.

Mirador Lloco Lloco: o Altiplano e a Cordilheira Real
 A paradinha estratégica no Mirador Lloco Lloco, a 4.028 metros de altitude, é de rasgar a roupa: um camarote diante do Illampu, do Wayna Potosi e do Illimani, perfilados, em seus postos de destaque na Cordilheira Real.

Olhando para a majestade desses nevados, é perfeitamente possível entender e quase partilhar a crença nos Apus (os espíritos ancestrais encarnados nas montanhas). Tanta beleza e grandiosidade devem mesmo emanar de divindades.



A Bolívia na Fragata Surprise
Os quatro espetáculos da Ilha do Sol
Copacabana, princesinha do Lago Titicaca

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