sábado, 6 de novembro de 2010

La Paz: dicas para aproveitar
uma cidade surpreendente

As neves eternas do Illimani, 
onipresentes na paisagem de La Paz
Você já foi a La Paz? Não? Então vá. Paisagem espetacular, tesouros arqueológicos a poucas horas de distância, gente simples e acolhedora e muitas, muitas cores nas ruas, realçadas por uma luz dourada, arrebatadora.

Meu amigo Paulo Lipp, que conheci na capital boliviana, disse tudo: "Chegar à Bolívia não é só um deslocamento no espaço. É uma viagem no tempo, também". La Paz é surpreendente, fascinante, petinho do Brasil e muito barata. O que mais eu preciso dizer pra lhe convencer?


O campanário de São Francisco tenta competir
com as montanhas que cercam a cidade 

O olhar dos aymaras parece dizer
"esses europeizados são uns neuróticos"
Os conquistadores espanhóis vieram e já foram, como os Incas, antes deles. E os Aymaras continuam lá, do seu jeito, no seu ritmo e com sua ética peculiar, simples e exata: "Não minta. Não roube. Não seja preguiçoso". O povo dos Três Mandamentos faz o decálogo de Moisés parecer prolixo — na verdade, é o Ocidente inteiro que resulta excessivo, no cenário do Altiplano.

O olhar Aymara parece mirar as dinâmicas vertiginosas e a acumulação compulsiva do "mundo de cá" com uma condescendência muda, mas eloquente.

"Mercearia" na Calle Llampu, no Centro de La Paz
Em meio ao trânsito caótico e às construções desordenadas de metrópole, La Paz guarda um risinho no canto da boca para as ansiedades que vieram do outro lado do Atlântico e tomaram conta de (quase) toda a América.

Pode ser efeito do nome, mas a cidade pede e oferece serenidade, em pleno frenesi de gente, buzinas e calçadas tomadas por tabuleiros, onde se vende de tudo e os gorros de lã "de pura alpaca" fazem companhia aos I-Pods.


Aqui, é preciso desacelerar. Não bastassem o soroche (o mal da altitude) e as ladeiras íngremes, há um ritmo nas ruas que pede aquela calma típica de quem já viu de tudo. Passar apressado por La Paz é deixar de perceber a cidade exuberante escondida sob as fachadas mal cuidadas, as ruas apinhadas, carros velhos, lixo e o eterno emaranhado de fios elétricos de poste em poste.

O relevo dramático, o esplendor das montanhas, o tom dourado da secura do altiplano, a profusão de cores nas polleras (saias) das mulheres nativas... A cidade é uma festa para os olhos. Mas, por baixo desta beleza escancarada, há um encantamento mais sutil, talvez resultante da luz absolutamente peculiar que banha a cidade.


Há belezas instantâneas. Inapeláveis, não importam a origem, preferências ou referências de quem as contempla: Rio de Janeiro, Paris, Veneza. Minhas belezas definitivas, porém, são aquelas que nos obrigam a aclimatar o olhar: Roma. La Paz é um pouco assim. Uma cidade arrebatadora — mas aos pouquinhos.

Os Andes estão repletos de maravilhas — e vi inúmeras delas, em 12 dias de viagem. Mas La Paz é uma surpresa que não se esconde e tampouco se anuncia. Sem alarde e sem véus, é um dos segredos bem guardados do nosso lindo continente.


Dicas práticas


Plaza Murillo, sede do governo boliviano
Como chegar
Esqueça o velho trem: diversas companhias aéreas voam para La Paz e os preços dos bilhetes são convidativos. Por R$ 1.009,00 (isso mesmo: um mil e nove Reais), comprei um bilhete Guarulhos-La Paz, na peruana Taca Airlines, com conexão em Lima, e retorno por Cusco até Guarulhos, também com conexão na capital do Peru.

São as vantagens da antecedência: comprei o bilhete em julho, para viajar em novembro.

Se a ideia for ir só para a Bolívia, é mais vantajoso pesquisar na boliviana Aerosur, que tem vôos diretos saindo de Guarulhos.

O intrincado entalhe da fachada da Igreja de San Francisco, uma das igrejas coloniais mais lindas que já vi

Onde ficar
Eva Palace Hotel
Calle Sagarnaga 173, Centro


Nosso quarto bagunçadíssimo (minha cama, que não aparece na foto, estava na mais perfeita ordem 😉)
Depois de muita pesquisa na internet, escolhi o Eva Palace Hotel, na Calle Sagarnaga (o point da turistada). A diária no apartamento triplo custou US$ 48.

Apesar da fachada feia, este hotel, administrado por uma simpática família paceña, é um achado: atendimento caloroso e competente, quartos espaçosos, limpos e confortáveis — com vista para a torre e os telhados da espetacular Igreja de San Francisco —, ótima localização e café da manhã bem bonzinho.

A Calle Sagárnaga concentra uma série de hotéis simples e muito populares entre os turistas mais econômicos
Um hotel de mochileiros acima da média. O único defeito é o boxe do chuveiro, que transborda e molha o banheiro inteirinho, não importa quão pouco tempo se gaste no banho. Mas, considerando as vantagens, recomendo vivamente o Eva Palace. Mas aviso que não tem um pingo de luxo!

Como sobreviver à altitude


Plaza Murillo
O soroche não é folclore. O mal da altitude é uma dura realidade para quem sai do nível do mar e vai se encarapitar nos 3.500 metros de altitude de La Paz. O relevo da cidade também não ajuda: são intermináveis ladeiras, que, com certeza seriam penosas até em altitudes menos impressionantes.

Pra enfrentar isso, é fundamental pegar leve, especialmente no primeiro dia, não comer comidas pesadas e tirar um cochilo quando o bicho pegar.


O mate de coca (que não dá onda nenhuma) é fundamental à sobrevivência: metade do mal estar tem origem digestiva e ele é um santo remédio.

O resto, a gente driblou com comprimidos de Soroche Pill, medicamento super-popular na Bolívia, vendido em qualquer farmácia, sem necessidade de receita médica. Uma cápsula de oito em oito horas dá conta do recado.

Onde comer - e o que comer
Sempre ouvi falar muito mal da comida da Bolívia. As críticas, porém, são muito injustas. As trutas do Titicaca são estupendas, servidas geralmente fritas ou grelhadas.

O hábito boliviano de começar as refeições com sopa (mesmo o almoço) pode parecer esquisito, mas, no frio, cai à perfeição. Fiquei viciada na sopa de quínua, sempre deliciosa, leve e reconfortante.

Almoçando trutas do Titicaca 
com Simone (à esquerda) e Marúsia (à direita)
Um bom bifinho de lhama também tem seu lugar. A carne é saborosa, nada gordurosa, e geralmente preparada num molhinho ferrugem que lembra bife de panela de casa de avó.

Para beliscar, experimente as empanadas. O mais comum é que tenham recheio de charque, mas as de queijo e as vegetarianas também estão na moda. As famosas salteñas são o tradicional lanche do meio da manhã. Fora desse horário, não é fácil encontrá-las.

Restaurante Angelo Colonial
Calle Linares, 992, Centro


Comi uma truta ao molho de limão simplesmente deliciosa lá. O lugar é uma mistura de restaurante, hostel e antiquário — o pátio interno do casarão colonial é um pouco tumultuado com a profusão de objetos antigos. O atendimento é simpático e os preços são ótimos: pagamos 190 Bolivianos (US$ 27) por um almoço para três pessoas, com bebidas.

Café Blueberry’s 
Avenida 20 de Octubre 2475, Plaza Avaroa, Sopocachi


Marusia e Simone no Blueberry's
No bairro elegante de Sopocachi, em plena Plaza Avaroa, esse simpático café é o lugar perfeito para uma taça de vinho, um chocolate quente ou uma xícara de mate de coca. A panqueca da casa leva mirtilos (os blueberrys) na massa e é coberta por morangos e banana: simplesmente perfeita (especialmente com a dose certa de maple syrup).

O que beber
As cervejas Paceña e Huari são as marcas mais comuns. Não sou bebedora de cerveja, mas minha irmã Simone, uma especialista, gostou mais da Huari, mais forte e encorpada. A Paceña, segundo ela, é mais levinha. Eu adorei foi o Singani, bebida forte, semelhante à grappa italiana, ótima como aperitivo ou como digestivo.


Dinheiro - preços e moeda
La Paz é uma cidade barata. O Dólar está cotado a 7 bolivianos. É possível comer por menos de R$ 20 em restaurantes de padrão razoável. Os táxis dificilmente custarão mais que 10 Bolivianos para as corridas mais longas (do Centro a Sopocachi, por exemplo).

Do aeroporto, que fica na cidade vizinha de El Alto, até o nosso hotel, no Centro de La Paz, pagamos US$ 10 por uma corrida de táxi, no meio da madrugada. E minha amiga Marúsia deixou o celular cair no carro: o motorista o devolveu, no dia seguinte...

Os cartões de crédito não são muito populares fora dos grandes hotéis e do comércio mais chique. A região da Calle Sagárnaga tem algumas casas de câmbio. Não tentamos trocar reais, apenas dólares.

A Bolívia na Fragata Surprise
Os quatro espetáculos da Ilha do Sol
Copacabana, princesinha do Lago Titicaca

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3 comentários:

  1. Oi Cyntia
    Já estou aqui bisbilhotando tudo para a Bolívia, mas pelo que já li e vi, vc tem toda razaão, merece mais que 4 dias.
    Beijos

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  2. Cyntia, tudo bem?
    Quantos dias você recomenda para conhecer La Paz? Estou começando a planejar uma viagem para lá no ano que vem e ainda bastante desorientado, não é um destino tão comum.
    Obrigado!

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    Respostas
    1. Daniel, pra fazer o turismo mais convencional, eu acredito que bastariam dois dias em La Paz e mais um para ir a Tiwanaku.

      Digo "bastariam" porque isso depende de como você vai reagir à altitude.

      Se você vai começar a viagem em La Paz, ponha mais um dia nesta conta, que é para não fazer nada, descansar (dormir é o melhor remédio contra o soroche) e fazer tudo muito devagar.

      Se você estiver vindo de outros lugares na altitude, já não vai precisar mais dessa adaptação. Mesmo assim, não espere fazer uma lista grande de atividades no mesmo dia, como se estivesse no nível do mar. Na altitude, a gente cansa muito rápido e precisa de mais pausas.

      La Paz é fascinante, mas não tem nada de convencional. Leve um olhar curioso e sem preconceitos e aposto que vc vai curtir muito

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