terça-feira, 28 de setembro de 2010

Barcelona:
uma semana em apê alugado no Raval

Rambla do Raval, Barcelona
Na virada de 2007 para 2008, eu e duas amigas alugamos um apartamento em Barcelona, por uma semana. Pesquisamos bastante na internet e escolhemos um apê oferecido pela empresa FeelBarcelona.

Eram dois quartos, sala com cozinha americana e um banheiro, no quinto andar de um daqueles edifícios muito antigos do bairro do Raval, destinados às famílias operárias da época da Revolução Industrial. O charme era o pátio que se debruçava para os telhados, bom lugar para relaxar no fim do dia, no frio ameno do inverno catalão.


A primeira impressão com a empresa FeelBarcelona não foi das melhores: nosso voo pousou por volta das 23 horas e, uma hora depois, desembarcamos do táxi em frente ao velho edifício, onde ninguém nos esperava, apesar do combinado. O responsável só chegou meia hora depois, o que nos deixou bem cabreiras, paradas na rua escura e deserta.


Como era o apê
Fizemos o pagamento na rua mesmo e recebemos as chaves. Uma grossa porta, com cara de centenária — a chave de ferro tinha quase um palmo de comprimento — dava acesso ao um pequeno hall do edifício. Depois disso, é escada acima (claro, não tínhamos sido avisadas que não haveria elevador). Os degraus muito antigos iam se retorcendo em um caracol bastante irregular, como se estivéssemos subindo uma torre meio desconjuntada. Mas, tirando a chatice de estar com a mala, tiramos de letra.

O apê era bem arrumadinho: a cozinha americana equipada com as comodidades básicas, sala com TV e som, banheiro para contorcionistas (esfregar as costas no chuveiro pode resultar em sérias equimoses nos cotovelos). Os dois quartos que se comunicavam diretamente com o terraço, onde havia mesinha e cadeiras, além das máquinas de lavar e secar roupa.

O Gato de Botero, na Rambla do Raval
Preço e condições do aluguel
A permanência mínima para o aluguel, naquele período, era de sete dias, que era mesmo o tempo que queríamos ficar na cidade para explorar Barcelona e arredores. Pagamos €800 pela temporada, tarifa que, dividida por três, foi bem vantajosa, em comparação com os hotéis, onde, aliás, estava impossível encontrar quarto triplo.

Quando fechamos a reserva, fizemos um depósito equivalente a €200. O restante nós pagamos na chegada.

Ao fim da temporada, é feita uma vistoria no apartamento para conferir se há danos ao imóvel e coisas do gênero. Os objetos eventualmente quebrados serão cobrados. A dica, nesse caso, é repor o que for quebrado, para não deixar que a empresa arbitre o preço.

Eu quebrei um cinzeiro de vidro, comprei outro por €2, quando a tabela da empresa avaliava o item em €10. No dia do check-out, os hóspedes precisam estar prontos para deixar o apê ao meio dia, hora que chega a faxineira.

Detalhe da fachada do Mercado de La Boquería, nosso "vizinho"
Localização
Nossa rua era a Carrer Marqués de Barbera,  a continuação da Carrer de Unió, que desemboca na Rambla na altura do Teatre de Liceu, onde há uma estação do metrô. Do apartamento até lá eram só três quadras e também era pertinho do Mercado de la Boqueria. Não poderia ser mais prático...

Como é o bairro do Raval
O Raval já foi apontado como uma das áreas de maior densidade demográficas do planeta e jamais correu o risco de ser considerado uma das mais seguras. Mas tem lá seu charme: ruas muito estreitas, ensanduichadas entre prédios antigos de quatro ou cinco pavimentos, um lendário passado de boemia e áreas ainda barra-pesada, enquistadas numa vizinhança pobre (para padrões europeus). Tem um certo ar de Romance Noir   mas se alguém sair de repente detrás de um poste, corra, porque não será Humphrey Bogart.

A área já foi conhecida com "Barrio Chino", bairro chinês — não exatamente por causa dos chineses, muito escassos por aqui, mas por conta da decadência barra-pesada que costumou-se associar às Chinatowns mundo a fora.

Os vizinhos
Nossa vizinhança era bem tranquila, majoritariamente composta de imigrantes, principalmente paquistaneses, indianos e marroquinos. Quase em frente ao apartamento, havia uma mercearia/delicatessen russa onde era possível comprar rigorosamente todo o necessário para um banquete czarista — desde que, é claro, se conseguisse ler os rótulos em alfabeto cirílico.

O Teatro do Liceu, nas Ramblas,
"quase na esquina" de casa
A segurança
Nossos dias e noites no apartamento foram bem tranquilos e mesmo a rua deserta, à noite, não inspirava qualquer temor. Tudo mudou, porém, na noite do Ano Novo, quando todos os ladrões de Barcelona pareciam estar em serviço. Minhas duas companheiras de viagem sofreram um assalto com violência física, voltando da noitada: um sujeito saiu da esquina mal iluminada e jogou as duas no chão, conseguindo levar a bolsa de uma delas.

Eu escapei desse tranco traumático porque já estava em casa, bastante chateada por ter tido a carteira batida pouco antes da meia noite, no espaço congestionado de um pub da Carrer de Ferrán, no Bairro Gótico. Foi um lance de mestre: alguém passou arrastando a minha bolsa, quando eu puxei de volta, já estava aberta e sem a carteira. Coisa de 10 segundos.

As duas experiências me deixaram com a sensação de que o problema era muito mais a noite de Revellion, cheia de turistas dando bobeira nas ruas, do que propriamente o Raval.

No dia seguinte, quando fomos prestar queixa na delegacia, era de chorar de rir o tamanho da fila de turistas assaltados, alguns ainda trazendo as marcas roxas e arranhões resultantes da aventura. Pra vocês terem uma ideia, esperamos cerca de duas horas e meia para sermos atendidas pelos policiais.

Moral da história
Gostei da experiência de alugar um apê em Barcelona, acho o Raval um bairro bem simpático e que deve ser considerado, mas nunca mais a cidade me verá durante as comemorações do Ano Novo 😊

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