quarta-feira, 30 de março de 2016

Beleza e História:
Museu do Ouro de Bogotá

O Museu do Ouro é uma vertigem de beleza e um mergulho profundo na história do nosso continente
Motivos para ir a Bogotá existem muitos, mas se eu precisasse citar apenas um, este seria o acachapante Museu do Ouro — dizer que só ele já ele vale a viagem não é chavão, é pura justiça. O acervo é um escândalo e a organização inteligente da exposição contribui para o prazer da visita e para a descoberta das muitas civilizações que povoaram o território da hoje Colômbia antes da chegada dos espanhóis. Resumindo, um show de bola!

Peitoral em ouro da cultura Tolima - com uma certa carinha de sapce invaders :)
Uma coisa que chama a atenção no Museu do Ouro é que há uma preocupação não apinhar suas generosas dimensões (a construção tem 13 mil metros, no total) com objetos. A exposição é bastante clean, deixando muitas “áreas de escape” para o olhar e evitando aquela famosa saturação pelas maravilhas que eu vivo citando aqui na Fragata. É uma concepção museológica acertadíssima, porque mantém o encantamento do visitante nas alturas, ao longo de todo o percurso.

Peitoral da cultura Calima (esq) e peitoral feminino da cultura Zenú
Máscaras funerárias da cultura Calima 
A mostra se divide em quatro “capítulos”, cada um com sua sala. Embora a visita possa ser feita na ordem que você escolher, é legal seguir o roteiro sugerido pela numeração desses espaços.

Na Sala nº 1, aprendemos um pouquinho sobre os primórdios do uso dos metais, a mineração e a metalurgia, percebendo a evolução de um saber, inicialmente voltado para a confecção de peças estritamente funcionais, e que vai desabrochando na produção de objetos plenos de conteúdos simbólicos.

Figuras femininas de cerâmica, usadas em rituais de fertilidade, eram "emprenhadas" com peças de quartzo, em rituais da cultura Calima. À direita, uma taça usada em rituais da Cultura Zenú
Os caciques muitas vezes eram representados por figuras antropomorfas, como nessas esculturas em cerâmica da cultura Quimbayá
As representações antropomorfas (figuras que mesclam traços humanos e de animais) era uma forma ritual de atribuir a alguém características desejáveis desses animais, como os macacos, ágeis e espertos
A Sala nº 2 nos apresenta os povos da Colômbia pré-hispânica, criadores das peças que nos encantam a cada vitrine — quando a gente assiste a um espetáculo, nada mais justo que querer conhecer o autor, né? São 2.500 anos de história, desde os primeiros passos dessas primeiras civilizações até a chegada dos colonizadores europeus, uma grande diversidade de culturas que floresceram nas várias paisagens colombianas, do Pacífico aos Andes e daí à Amazônia e ao Caribe.

Rolos de cerâmica usados para pintura corporal
(cultura Tumaco)
Lá estão devidamente representadas por sua arte as culturas Nariño (Altiplano), Tumaco (Costa do Pacífico), Calima e Quimbaya (Vale do Cauca), San Agustín, Tierradentro e Tolima (região do Rio Magdalena), Zenú (Caribe), Tayrona (Sierra Nevada de Santa Marta), Urabá e Chocó (região de Antioquia, onde está Medellín, próxima ao istmo do Panamá) e Muísca (Cordilheira Oriental, os antepassados dos bogotanos).

Sapos, figuras aladas, lagartixas...
Os adornos em ouro atestavam o podem dos caciques
Os motivos variam de acordo com as culturas — há as figuras antropomórficas, a ênfase nos pássaros e outras figuras aladas, nos sapos, nas salamandras e outros lagartos...— mas o traço comum é a função “de Estado” ou religiosa das peças produzidas por esses finos artesãos, como aprendi na Sala nº 3, dedicada à cosmogonia (universo religioso, mitos e lendas que explicam o mundo) dessas culturas.

Adornos de cabeça da cultura Calima

Adornos peitorais Tolima 
Peitorais Tairona (esq) e Quimbayá
Diademas, narigueiras, adornos de orelhas e peitorais magníficos traduzem o poder terreno dos caciques e o poder espiritual dos xamãs. Oferendas, utensílios rituais e talismãs expressam a convicção de o ouro, dádiva da terra que repete a luz do sol essencial à vida, precisa retornar à terra e aos deuses na forma de prenda preciosa.

A impactante Sala da Oferenda
Um momento impactante do percurso é a Sala da Oferenda, um espaço circular onde o visitante é convidado a entrar sem saber o que o espera. Quando a porta se fecha, ficamos na mais completa escuridão, escutando o canto dos xamãs. Aos poucos, as luzes começam a piscar e vão nos revelando que estamos cercados de objetos preciosos confeccionados para agradar às divindades, em torno de uma “fogueira”, na recriação de um ritual muito antigo.

Escultura em cerâmica Muísca e ídolo de pedra Zenú
Em alguns rituais religiosos, os xamãs mascavam a folha de coca, pois acreditava-se que o efeito estimulante da planta produzia uma aproximação com o divino. Nesta vitrine estão expostos diversos apetrechos Quimbayá usados nesse processo
Objetos encontrados em uma câmara funerária
Se nem tudo que reluz é ouro, nem todas as preciosidades expostas no museu são feitas desse material. Cerâmicas, tecidos e esculturas em pedra completam o mergulho absolutamente fascinante no universo dessas civilizações. Aliás, a peça que mais me cativou em toda a exposição foi um “Pensador” (o apelido é coisa minha, tá?) em terracota, da cultura Tumaco, impressionante pela força de sua expressão facial.

O Museu do Ouro é uma festa para a alma.


Dicas práticas

O Museu do Ouro fica no Parque Santander esquina da Carrera 6ª com a Calle 16. A Linha J do Transmilenio tem uma parada (Museo del Oro) a cerca de 150 metros, na Calle 13, entre as carreras 6ª e 7ª.

Se você estiver hospedada no Bairro de La Candelaria, o jeito mais fácil de ir até lá é caminhando pela Carrera 7ª, a partir da Praça de Bolívar. Ao chegar à (lindíssima) Igreja de São Francisco, é só atravessar a praça em frente (o Parque Santander, sempre cheio de skatistas), que você terá chegado ao museu.


O Museu do Ouro pode ser visitado de terça a sábado, das 9h às 18h, e aos domingos, das 10h às 16h. O ingresso custa 3.000 COP (R$ 3,60, ao câmbio de hoje) e é gratuito aos domingos. Para menores de12 e maiores de 60 a visita é gratuita sempre.

Reserve um mínimo de duas horas para ver o museu com calma.


O Parque Santander e seus skatistas (à esquerda), com a Igreja de São Francisco ao fundo. À direita, a arquitetura "clean e objetiva" do Museu do Ouro
O "Pensador" e peças da cultura Nariño
Como você pode notar por este post, é permitidíssimo fotografar o acervo, desde que você não use flash nem tripé.

Para mergulhar de cabeça na exposição, vale a pena fazer a visita guiada, que é gratuita. Elas são realizadas em inglês ou em espanhol, nos seguintes horários: de terça a sexta, às 11h, 15h (só espanhol) e16h. Aos sábados tem mais uma saída, às 10 (apenas em espanhol).

Você também pode alugar um audioguia e percorrer a exposição no seu ritmo. Custa COP 6.000 (R$ 7,20).




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