20 de abril de 2014

Passeios em Cádiz, a herança de Hércules

Com três mil anos de aventuras, Cádiz sabe direitinho como apaixonar os visitantes
Mais de três mil anos de história, o mar por todos os lados e uma gastronomia deliciosa. A “cidade de Hércules” não brinca em serviço e sabe direitinho como apaixonar uma visitante. Logo nos primeiros passeios em Cádiz, eu descobri que estava diante de mais uma paixão proporcionada pela Andaluzia.

Espremida sobre uma “ilhota” estreita e comprida (cerca de 1 km x 6 km), é difícil dar dois passos em Cádiz sem avistar o mar — e só mesmo suas muralhas milenares para domar as ondas. Junte a isso um sol em tons quase tropicais e a algazarra onipresente das aves marinhas e está ponta a receita de uma cidade linda, com vivacidade de menina.

O comércio com as Américas contribuiu muito para a beleza de Cádiz. A Catedral Velha, hoje Igreja de Santa Cruz, foi totalmente reconstruída no Século 18 com as riquezas da Carreira das Índias

Menina, sim, apesar de toda a história que já passou por aquele pedacinho de terra cercado de marismas. Cádiz já foi Gadir dos fenícios e dos cartagineses, foi Gades dos romanos e Qadir dos mouros, um dos assentamentos humanos mais antigos do Ocidente, com mais de três mil anos de ocupação contínua.

E isso é ainda é pouco, se a gente considerar que os gaditanos se reivindicam como herdeiros de Hércules, herói a quem a lenda atribui a fundação da cidade — se tem uma coisa que me mata de inveja dos semideuses é que entre o extermínio de dragões de nove cabeças e de leões invulneráveis eles sempre conseguiam uma folguinha na agenda para fundar cidades 😊.

Não importa o propósito, a história de Cádiz sempre esteve debruçada sobre o mar
(Mirante da Fortaleza de San Sebastián)
A favor da lenda pesa uma constatação: Cádiz puxou ao pai. Como Hércules, ela pode desafiar qualquer pedaço de mundo a mostrar um currículo de aventuras mais extenso que o seu.

Olhando a cidade — que mais parece um barco singrando as ondas — a gente pensa logo em divindades aquáticas. Não sei quais eram as relações de Hércules com Poseidon, mas a história de Cádiz sempre esteve debruçada sobre o mar.

A história e suas marcas são o principal encanto de Cádiz, fortíssimos motivos para que você inclua essa maravilha em seu roteiro pela Andaluzia. Olha só o que você vai encontrar por lá:

La Viña, antigo bairro dos pescadores, tem restaurantes populares ótimos para comer frutos do mar e ver a vida passar em mesinhas na claçada
☑️ Um pouquinho da história de Cádiz
Os fenícios usaram sua localização privilegiada da atual Cádiz — a esquina do Atlântico com o Mediterrâneo, no meio do caminho entre a África e a Europa — para implantar o importante entreposto comercial de Gadir, no longínquo Século 12 antes de Cristo.

Gadir era o porto seguro para os intrépidos navegantes que se lançavam do mar interior (o Mediterrâneo) às águas furiosas do Atlântico, atravessando as Colunas de Hércules (Gibraltar).

As ruas mágicas de Cádiz
Os cartagineses, descendentes dos fenícios, deslocaram a razão de ser da cidade. Do comércio para a guerra, Gadir virou uma base fundamental para as tropas trazidas do outro lado das águas para o avanço sobre a Península Ibérica e, de lá, para as tentativas de invasão de Roma, sua grande rival.

Os romanos, naturalmente, perceberam a importância estratégica da cidade e, derrotada Cartago, no Século 2 a.C., fizeram de Gades uma das suas "capitais" e destacado baluarte militar na Hispania.

À direita, uma típica torre de observação gaditana, tradição iniciada pelos fenícios. Cádiz ainda tem de pé mais de 1.000 dessas construções. Ao fundo, o Mercado Central, bom lugar para comer frutos do mar
Os mouros, que chegaram no Século 8 d.C., não deram a Cádiz a mesma atenção voltada a outras maravilhas andaluzas, como Sevilha, Córdoba e Granada. Mas não descuidaram da fortificação da cidade e foram responsáveis pelo reforço e ampliação de grande parte de suas famosas muralhas —hoje tombadas como Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

A filha de Hércules só voltaria a encontrar o esplendor após a Reconquista cristã, no Século 13 e, principalmente, ao herdar de Sevilha o monopólio do comércio com as Américas, no Século 18.

A cidade tornou-se, então, a nova capital da Carrera de Índias, como se chamava o vai e vem da frotas mercantes pelo Atlântico, trazendo as riquezas das colônias. A partir daí, a Cádiz retomaria sua vocação original para o comércio, trazida pelos fenícios.

☑️ Passeios em Cádiz - um mergulho em 3 mil anos de história

Os balcões de Cádiz são encantadores. Dei a maior sorte de não pisar em falso, de tanto que eu andava olhando para o alto 😊

⭐ Casa del Obispo
Plaza Fray Félix s/n,Bairro do Púpulo
Visitas diárias das 10h às 180h (no verão, de junho a setembro, fecha duas horas mais tarde). Entrada: €5, com audioguia incluído. Site > Casa del Obispo 


Pinturas romanas no Complexo Arqueológico Casa del Obispo. Acredita-se que este local fosse a "sala das curas" de um templo de Esculápio
Este sítio arqueológico é uma visita essencial para quem quer mergulhar no movimentado passado de Cádiz.

A Casa del Obispo é a antiga residência dos bispos da cidade e fica bem ao lado da Catedral Nova. No subsolo desse edifício, escavações revelaram vestígios de ocupação contínua do local desde o Século 8 antes de Cristo.

Por plataformas de vidro, o visitante percorre diversas etapas da história de Cádiz na Casa del Obispo
Lá estão os restos de uma necrópole (cemitério) fenícia, de uma muralha e de um templo cartaginês, e de um santuário romano dedicado a Esculápio, o deus da cura, e de um solar medieval. Por plataformas de vidro, o visitante caminha em meio a todas essas eras, numa viagem encantadora.

O ponto alto da visita é a “Sala das Curas” do templo romano, o local onde os doentes dormiam o “sono da cura”.

⭐Teatro Romano de Cádiz
Calle Mesón nº 11-13, bairro do Pópulo
Horário d verão (abril a setembro): segunda a sábado, das 11h às 17h. Domingos, das 10h às 14h. Horário de inverno (outubro a março): segunda a sábado, das 10h às 16:30h. Domingos, das 10h às 14h. Fechados nos feriados e na primeira segunda-feira do mês. Entrada gratuita.


Teatro Balbi, o mais antigo teatro romano da Península Ibérica(Foto de Emilio J. Rodríguez Posada/ Wikimedia Commons)
Também na vizinhança da catedral, o Theatrum Balbi, do Século 4 d.C., foi descoberto em 1980 e, desde então, foi apenas parcialmente escavado.

É apontado como o segundo maior teatro romano já encontrado em território espanhol — calcula-se que abrigasse até 10 mil espectadores—e o mais antigo de toda a Península Ibérica.

⭐Sítio Arqueológico Gadir
Calle San Miguel nº 15, Mercado. Visitas guiadas de terça a sábado, das 11h às 13h e das 16h às 19. Os roteiros duram cerca de 60 minutos. Domingos, apenas das 11h às 13h. Entrada gratuita.


Escavado no subsolo do Teatro de Marionetes La Tía Norica, este sítio arqueológico exibe os vestígios de um conjunto de residências fenícias apontadas como as mais antigas encontradas no Mediterrâneo ocidental.

São vestígios de diversas épocas —as estruturas mais antigas datam do Século 9 a.C. — onde se pode identificar ainda o traçado de ruas e os restos de oito casas feitas de barro, mesmo material usado na pavimentação das ruas.

Museus e sítios arqueológicos índice da Fragata

Roteiro histórico/temático pelas muralhas de Cádiz
⭐ Roteiros históricos em Cádiz 
Um jeito muito bacana de conhecer a história de Cádiz é seguir os roteiros temáticos por trilhas pelas áreas mais importantes da cidade. Pegue os mapas distribuídos no escritório de turismo de Cádiz e depois é só seguir as linhas coloridas pintadas pelas ruas, demarcando o itinerários.

➡️ Eu fiz as quatro rotas e amei. Recomendo demais!

O escritório de turismo (Delegación Municipal de Turismo de Cadiz) fica no Paseo de Canalejas s/n (a melhor referência é a Avenida León de Carranza, esquina com Calle Cristobal Colón), em frente ao Porto Turístico. Veja as rotas temáticas completas aqui.

Mapa dos roteiros temáticos de Cádiz
São quatro roteiros históricos, todos muito interessantes:

⭐Itinerário pelas muralhas de Cádiz
 a chance do visitante conhecer de perto as famosas fortificações que cercam completamente a cidade. O conjunto de muralhas, fortes e bastiões tombado pela Unesco é realmente impressionante, está muito bem preservado e rende um passeio lindíssimo. No mapa, é o traçado em cor de laranja.

Eu fiz esse roteiro e contei tudinho: Passeio pelas muralhas de Cádiz

A Casa das Cinco Torres, na Plaza de España, na verdade
 é um conjunto de cinco residências de armadores. A praça é o ponto de partida do roteiro temático sobre La Pepa
⭐ Roteiro pela História da Constituição Gaditana 
Em 1812, a Espanha estava submetida ao domínio napoleônico, à exceção de Cádiz, a versão ibérica da irredutível aldeia gaulesa. Sob um sítio impiedoso, sofrendo um bombardeio inclemente, a cidade foi abrigou as Cortes Gerais Espanholas (o parlamento de então) para elaborar a primeira Constituição do País.

Extremamente avançada para seu tempo, a Constituição Gaditana foi um símbolo da resistência espanhola e é carinhosamente chamada de “La Pepa”, em alusão ao 19 de Março, Dia de São José, em que foi promulgada — Pepe é o apelido de José em espanhol, o equivalente ao nosso Zé.

O grande destaque do roteiro pela história de La Pepa é o Oratório de San Filipe Nery, uma igreja belíssima, que serviu de sede aos debates Constituintes. No mapa, a rota é o traçado em azul.


Outro encanto de Cádiz: a exuberância das cores de suas fachadas
⭐Roteiro temático da Carrera de Índias 
No Século 18, Cádiz herdou de Sevilha o monopólio do comércio com as colônias espanholas, o que deu um grande impulso econômico à cidade. Para descobrir as memórias desse período é percorrer o Bairro de Santa Maria, a área onde moravam os grandes armadores, donos das frotas de comércio, e pelo centro da cidade, para ver monumentos mais importantes dessa época
Antiga fábrica transformada em Centro de Convenções, no Bairro de Santa Maria, em frente ao Porto de Cádiz
O percurso passa por lindos casarões dos armadores, geralmente construções de quatro ou cinco andares, onde se integravam os armazéns (térreo), os escritórios (primeiro andar), a área residencial (terceiro e quarto) e as dependências dos criados (quarto ou quinto). Esse roteiro é identificado no mapa pela linha rosa.
Esse roteiro é identificado no mapa pela linha rosa.
 
Praça do Mentidero
 (Mentideros eram uma instituição tipicamente espanhola, uma espécie de Facebook do Século 17, local onde as pessoas se reuniam para saber das novidades, fazer networking - e contar uma vantegenzinha, que ninguém é de ferro)
Roteiro pela Cádiz Medieval

Esta rota se concentra nos bairros que formam o núcleo original da povoação gaditana, o Pópulo, onde estão a Catedral Nova e a Igreja de Santa Cruz, e Santa Maria.

Além de visitar os monumentos, o visitante é convidado a buscar as memórias do Flamenco, que é uma importante manifestação cultural  cidade.

No mapa, esse roteiro corresponde à linha verde.

Igreja de Santo Domingo, no Bairro de Santa Maria, onde viviam os proprietários das frotas mercantes (esq), e o Hospital de Nuestra Señora del Carmén, do Século 18, a primeira maternidade da cidade, construído com a riqueza da Carrera de Índias
⭐ As torres de Cádiz 
Uma característica única das casas dos armadores de Cádiz são as torres de observação, tradição herdada dos fenícios, de onde os donos das frotas mercantes controlavam a entrada e a saída de suas embarcações no porto, usando um sistema de sinalização por bandeiras semelhantes aos utilizados pelos navios. 

Cerca de 1.000 dessas torres ainda estão de pé na cidade e você pode descobri-las caminhando pelo Centro Histórico.

⭐ Torre de Tavira 
Esquina das ruas Marqués del Real Tesoro e Sacramentos, perto do Mercado Público de Cádiz. Diariamente, das 10h às 18h (de outubro a abril) e das 10h às 20h (de setembro a maio). A entrada custa € 6 e inclui o acesso à câmara escura, que tem sessões a cada meia hora. 
Site > Torre de Tavira

A mais famosa das torres de Cádiz, Tavira foi construída no Século 18 e se constitui no ponto mais alto da cidade — sim, Cádiz é muito plana. Seu terraço está a 45 metros acima do nível do mar. 

Cádiz vista do alto da Torre de Tavira. Repare que a cidade quase não tem telhados, só terraços
A Torre de Tavira fazia parte do palácio dos marqueses de Recaño, mas, a partir de 1778, passou a ser a torre de vigia oficial do Porto de Cádiz.

Acho que nem preciso dizer que a vista lá do alto é um escândalo, né? Para desfrutar dela, porém, é preciso encarar 174 degraus de uma escadinha estreita, em ziguezague, com direito a paradinhas os salões inferiores para ver uma coleção de objetos náuticos e fotografias antigas da cidade e colocar o fôlego em dia,
As torres de observação herdadas dos fenícios ainda são uma constante no skyline de Cádiz
Uma sala no penúltimo andar da Torre de Tavira abriga uma atração interessante, a Câmara Escura, que usa espelhos e lentes para projetar cenas da cidade (enquanto elas acontecem) em uma “panela” esférica que serve de tela. Parece GoogleEarth, só que é ao vivo, um jeito bem divertido de explorar a cidade antes de percorrê-la pra valer.

As igrejas barrocas del Carmen (esq) e de Santo Antonio de Pádua 
➡️ Cádiz não fica em uma ilha
Embora no início deste texto eu tenha chamado o terreno onde se assenta Cádiz de "ilhota", essa informação não está geograficamente correta.

A rigor, Cádiz está sobre um tombolo, acidente geográfico que eu nem suspeitava que existisse, até visitar a cidade. É assim que se chamam as ilhas ligadas ao continente por um istmo muito estreito, formado por sedimentos.

O estreitíssimo istmo que liga Cádiz à Península Ibérica, com cerca de 200 metros de largura na maior parte de sua extensão, era o trechinho final da Via Augusta Júlia, que começava nos Pirineus e integrava várias colônias romanas, como Tarraco (Tarragona). Hoje, o istmo é parte da Carretera N-IV, que liga Cádiz a Jeréz de la Frontera.


A Espanha na Fragata Surprise - post-índice



Curtiu este post? Deixe seu comentário na caixinha abaixo. Sua participação ajuda a melhorar e a dar vida ao blog. Se tiver alguma dúvida, eu respondo rapidinho. Por favor, não poste propaganda ou links, pois esse tipo de publicação vai direto para a caixa de spam.
Navegue com a Fragata Surprise 
Twitter     Instagram    Facebook    Google+

6 comentários:

  1. Oi, Cyntia. Tudo bem? :D

    Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Natalie - Boia

    ResponderExcluir
  2. Meu marido adora falar que Cádiz é a cidade mais antiga da Europa! E olha só, além de ser uma baita de uma senhora, ainda tem uma ocupação continuada. Isto sim é vitalidade. Mais uma cidade espanhola entrando na lista. Sinto que minhas próximas viagens serão pela Espanha mesmo. País que não cansa de me surpreender.

    Beijoo!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pois é, Cris, os gaditanos se reivindicam como o assentamento humano mais antigo da Europa, mas eles estão errados: Argos, no Peloponeso, ganha de goleada, com cerca de 6 mil anos de ocupação contínua. Quer dizer, a terra de Perseu ganha da filha de Hércules :)
      Argos é pequenininha, mas é bem interessante. Eu passava lá direto, quando fiquei em Nafplio (a 11 km).
      Agora, amiga, morar na Espanha é uma senhora vantagem, porque esse país é TODO espetacular. É daqueles lugares que deixam a gente com a maior vontade de ser imortal, pra explorá-lo de cabo a rabo :)
      Beijo

      Excluir
  3. Adorei encontrar um post sobre Cádiz pois estou querendo montar uma viagem Madri,Cádiz,Málaga e depois ir ao Marrocos.Já fui com meu marido a Sevilha,Granada ,Córdoba e Madri.Como fazemos nossas viagens por conta própria os blogs de viagem são nossos manuais.Vou ler com atenção para pegar as dicas e qualquer dúvida te escrevo.As fotos estão lindas !!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que legal, Lilian, acho que vc vai gostar de Cádis. Se eu puder ajudar em alguma dúvida, estou por aqui :)

      Excluir