sábado, 21 de fevereiro de 2015

Pantanal para urbanoides - dicas práticas

De dezembro a maio é tempo das cheias do Pantanal. 
Não é a melhor época para ver a fauna, 
mas a paisagem é belíssima
Desde que me entendo por gente, sou uma tremenda urbanoide, com raras e especialíssimas incursões na natureza. Mesmo em viagens, digamos, mais rústicas, o que me interessa é sempre a cultura local, a história, o povo. Nesta pausa de Carnaval, embarquei em uma programação bem diferente das que vocês estão acostumados a ver aqui na Fragata.

Depois de 24 anos, cá estou eu de volta ao Pantanal, bem longe das cidades (a melhor invenção da raça humana), cercada de mata, silêncio e bicharada.

Minha primeira passagem por aqui foi bem corrida (a memória mais forte que ficou foi a festa do Cururu, em Poconé, tradição de origem indígena que marca o Dia de São Pedro) e fazia tempo que eu queria voltar.

Fevereiro, ainda em plena época das cheias, não é a melhor temporada para ver a rica fauna da região, mas não posso me queixar: tirando as onças, topei cara a cara com as principais estrelas pantaneiras: jacarés, capivaras, tuiuiús, gaviões, carcarás, iguanas, curicacas, garças e veados pantaneiros, além de uma infinidade de passarinhos, posaram para as câmeras do blog.

O Pantanal tem umas plantinhas danadas de fotogênicas
Esta estadia só confirmou o que eu já intuía: o Pantanal é um fantástico patrimônio dos brasileiros que todos nós merecemos ver ao menos uma vez na vida. Enquanto a melhor época para as visitas não chega, confira as dicas e vá se organizando. Na alta estação, a região recebe muitos turistas (estrangeiros às pencas) e é bom preparar tudo com antecedência. Que sorte a sua que a Fragata foi antes, né? :)

Dicas práticas


Rodovia Transpantaneira, porta de entrada para o Pantanal
Melhor época
Entre junho e novembro, a temporada de estiagem, as águas estão mais baixas e é muito mais fácil avistar a bicharada pantaneira nas barrancas dos rios e lagoas da região. A partir de dezembro, com o início das chuvas, é bem mais difícil transitar pela Rodovia Transpantaneira (que não é asfaltada), a incidência de mosquitos bate na estratosfera e a fauna se recolhe a áreas de difícil acesso. Os hotéis da região fecham em dezembro e só reabrem para o Carnaval. Em março, começa a temporada das pescarias. 

Eu já viajei sabendo que não tinha escolhido a melhor temporada, mas, como disse lá no alto, consegui avistar muito mais bichos do que esperava. A maior vantagem de visitar o Pantanal no Carnaval foram os preços, que estavam bem mais camaradas do que em outras regiões do Brasil. Apesar de ser "época de chuva", tem sol suficiente para a gente torrar na piscina do hotel e céu azul à vontade para iluminar as fotos.

Dependendo do interlocutor, são "quase 70" ou "mais de 100" dessas pontes de madeira, ao longo dos 147 km da Transpantaneira. No final da estação das chuvas, elas costumam estar bem avariadas pelo tráfego de veículos 
O trecho que peguei da Rodovia Transpantaneira (65 km, entre Poconé e o hotel) estava bem transitável, sem sinal de atoleiros. Antes de viajar, li na imprensa mato-grossense que ela tinha passado por manutenção exatamente para o Carnaval. Aliás, a camada de cascalho colocada na Transpantaneira impediu a formação de grandes atoleiros, mas quebrou um pouco o espírito da coisa: a rodovia é mantida no barro exatamente para obrigar os motoristas a trafegarem devagar, evitando o atropelamento de animais.

A paisagem é linda, mas não esqueça o repelente e a vacina
Mosquitos
Lamento informar que é tudo verdade: nesta época, é quase impossível escapar às portentosas esquadrilhas de pernilongos que atacam, especialmente no final da tarde (ou a qualquer hora do dia, quando chove). Haja repelente! Dizem que a coisa melhora muito na época seca (a alta temporada).

É muito importante lembrar que com mosquito não se brinca. Não importa a época de sua viagem, trate de garantir sua vacina contra febre amarela ao menos dez dias antes de embarcar. Procure um posto de saúde público, onde a vacinação é gratuita.

 Aproveite e, quando for embarcar para o Mato Grosso, leve seu certificado ao posto da Anvisa (tem em todos os grandes aeroportos) e já faça seu Certificado Internacional de Vacinação, que vai servir para muitas viagens. Veja este post, onde eu dou detalhes sobre o procedimento:

Vacina contra febre amarela: o que você precisa saber antes de viajar

Aguapé bico de pato, 
vegetação aquática característica do Pantanal
Como chegar

De Brasília para Cuiabá
Viajei com a Azul, que tem voos diretos entre as duas cidades e estava com tarifas bem razoáveis para este período de Carnaval (R$ 400, ida e volta). Gosto das aeronaves da companhia, com poltronas confortáveis e bom espaço entre os assentos, para a gente esticar as pernas. O voo foi de ida foi pontualíssimo.

Já no voo de volta, tivemos um atraso de 1 hora, por conta do temporal. E aí, a Azul pisou na bola, deixando as malas dos passageiros debaixo do aguaceiro, aguardando o pouso da aeronave que nos trouxe a Brasília. Não vou perdoar o estrago nos meus queridos exemplares de O Lobo do Mar, de Jack London, e de Master and Commander, de Patrick O'Brian (o primeiro livro da saga da Fragata Surprise!!!) que eu levei para reler na viagem e estavam na bagagem despachada.

A Azul usa o Terminal 2 do Aeroporto de Brasília, que é pequenininho e separado do terminal principal.

De Cuiabá ao Pantanal


No Mato Grosso, a Rodovia Transpantaneira (MT-060), inaugurada em 1974, é a porta de entrada do Pantanal. Ela começa na cidade de Poconé, a 100 km de Cuiabá, e segue por 147 km até o distrito de Porto Jofre, na divisa com o Mato Grosso do Sul.

É às margens da Transpantaneira que se concentram os hotéis que servem de base para a exploração da região.

Na chegada a Cuiabá, o jeito mais prático de seguir para o Pantanal é alugar um carro.

Como a minha carteira de motorista continua vencida (shame on me, de março não passa, juro!), preferi recorrer a um transfer  viajei com minha mãe e uma tia, ambas dirigem e estão com a habilitação em dia, mas nenhuma das duas gosta de dirigir em estradas desconhecidas.

Como foi o transfer
Deu um trabalhinho para achar na internet empresas de Cuiabá que trabalham com transfers. Entre as que encontrei, acabei fechando com a Eva Tur, que respondeu mais rápido ao meu contato e passou segurança durante as tratativas. O preço do traslado ida e volta ficou em R$ 950 (do aeroporto, no município de Várzea Grande, encostadinho em Cuiabá, até o hotel, no Km 65 da Transpantaneira, cerca de 170 km de percurso total).


É um valor que eu nem sonharia em pagar, se estivesse viajando sozinha. Dividido por três, achei justo, pelo conforto. Dois taxistas com quem fiz contato cobraram preços iguais. Viajamos em uma Doblô, com ar condicionado (é claro!!). Os dois motoristas que nos atenderam (Richard, na ida, Roberto, na volta), são bem seguros no volante, prudentes e gentilíssimos. Muito bem preparados para atender turistas, eles são ótimos de papo, nos deram informações interessantes sobre o Pantanal e pararam inúmeras vezes no caminho para que eu fizesse fotos dos muitos bichinhos que avistamos à beira da estrada.

Fiz todas as tratativas anteriores com o dono da Eva Tur, Mário Celson. No fechamento do contrato, depositei 30% do valor do transfer e o resto foi pago quando chegamos ao Pantanal. Se você se interessar pelo serviço (eu gostei e recomendo muito), anote os telefones 65-9972-6622 (24 horas) e 65-3686-1488. O email é evaturme@terra.com.br

Na época das cheias, vai ser difícil avistar uma onça,
mas a diversidade de aves impressiona
De ônibus
Se você quiser encarar um esquema mais roots (e bote roots nisso), dá para chegar ao Pantanal de ônibus. A empresa TUT faz a linha Cuiabá-Poconé com partidas a cada três horas, a primeira às 6h e a última saída às 19 horas. A viagem leva 2h45min e a passagem custa R$ 24,50. Em Poconé, você precisará contratar um táxi (os preços vão depender da negociação) ou conseguir uma carona para prosseguir viagem pela Transpantaneira.

Lembre, ainda, que o "aeroporto de Cuiabá" (Aeroporto Marechal Rondon), na verdade, fica no município vizinho de Várzea Grande e você terá que se deslocar até a Rodoviária da capital para pegar o ônibus. São apenas 10 km de distância e dá para ir de ônibus (R$ 3), mas os taxistas do aeroporto chegam a cobrar R$ 50 pela corrida.

Quantos dias?
Muita gente vai ao Pantanal em um bate e volta, a partir de Cuiabá (eu mesma já fiz isso), que está a 100 km do início da Transpantaneira. Os hotéis da região recebem visitantes em esquema de day use, geralmente com direito a almoço, passeio de barco e acesso à piscina e outras áreas de lazer. Em um dia, dá para fazer o basicão, que é observar os muitos bichos à beira da estrada e na incursão pelo rio. Para explorar melhor a área, pense em ficar três dias, para desacelerar, entrar no clima e ter tempo de curtir mais a diversidade da fauna local.

Nosso hotel, às margens do Rio Pixaim
Onde me hospedei

Hotel Pantanal Mato GrossoKm 65 da Rodovia Transpantaneira, município de Poconé. Diárias no apartamento triplo, com todas as refeições, no período do Carnaval, por R$ 600

A maior atração do hotel é a exploração do Rio Pixaim a bordo de uma lancha voadeira
O hotel é uma antiga fazenda, na beira do Rio Pixaim (que, na verdade, é uma lagoa). Tem uma grande área verde, onde representantes da fauna pantaneira aparecem sem cerimônia. Nos dias em que estive lá, vi jacarés (no rio), muitas capivaras, aves diversas, macaco e até um veado pantaneiro, animal ameaçado de extinção.

De um pequeno píer partem os passeios de voadeira (barco com motor de popa)  pelo rio, mais uma oportunidade para ver a bicharada. A atividade, comandada pelo guia Peixinho, é incluída na diária, assim como os passeios a cavalo e de caminhão pela Transpantaneira.

O atracadouro
O hotel tem ainda uma piscina e um espaço para jogos, instalado em um quiosque, com sinuca e totó. Achei o mobiliário externo do hotel bastante tosco: as quatro espreguiçadeiras da piscina estavam quebradas e sem condição de uso e havia apenas três guarda-sóis pequenos. As cadeiras disponíveis são desconfortáveis para tomar sol.

A piscina é legal, mas o mobiliário deixa muito a desejar
O atendimento é muito simpático, a equipe se esforça para agradar os hóspedes. Por exemplo: eu tinha reservado um apartamento triplo, mas achamos as acomodações muito acanhadas para três pessoas. Eles nos mudaram, sem cobrar a mais, para um apartamento que chamam de "duplo" (dois quartos, uma saleta e o banheiro), onde ficamos muito mais à vontade.

Todos os quartos têm varanda
São 30 apartamentos bem básicos, pensados para acomodar famílias, o principal público do estabelecimento. O resultado da combinação de uma cama de casal com duas camas de solteiro resulta em um espaço meio congestionado.

As acomodações não têm armários, só um cabideiro, além do frigobar e uma TV antigona, instalada em um rack no alto da parede. Quando você for, reserve o apartamento "duplo", que é bem mais agradável.  O ar condicionado funciona muito bem e as janelas têm telas para barrar os mosquitos. As camas e os travesseiros são confortáveis e a limpeza é cuidadosa.

Os dois quartos do nosso apartamento
A "saleta" e o banheiro
No banheiro, o hotel só oferece os sabonetes, portanto, leve a necessaire completa quando for pra lá (e não esqueça dos litros de repelente e protetor solar).

As diárias são com pensão completa (dada a distância da cidade, não seria mesmo possível sair para almoçar e jantar fora). A comida do hotel é bem caseirinha e saborosa, mas achei que o cardápio variou pouco, nos cinco dias que passei lá.

Pacu frito, quiabo refogado
 e farofa de banana da terra:
 comidinha caseira saborosa
A cozinha acerta mais quando fica no terreno regional (o franguinho caipira ensopado e o pacu frito foram o ponto alto das refeições). Senti falta de uma maior variedade de frutas no café da manhã.

Um ponto fraco do hotel é a oferta de entretenimento. Afora os três passeios (barco, cavalo e caminhão) incluídos na diária (e que podem ser repetidos por quem fica mais tempo), não há muito o que fazer, especialmente na estação das cheias, quando as trilhas estão alagadas. É importante levar livros e jogos para preencher o tempo.

Outro ponto fraco: a variedade de petiscos e bebidas no bar não existe. Caipirinha (só de limão, mesmo), cerveja e olhe lá.

Se você for de carro, garanta uma provisão de beliscos e drinques, se não quiser beber uísque Natu Nobilis, que eu nem sabia que ainda existia.

Como o hotel fica ao lado de uma torre da Vivo, quem usa essa empresa de telefonia não terá problemas em ficar conectado com o mundo, desde que não falte energia, pois aí não haverá sinal. O hotel tem gerador, portanto, não há risco de ficar no escuro (ou sem ar condicionado, o que seria o fim do mundo, rsss). O WiFi gratuito funciona bem no restaurante e proximidades, mas não nos quartos.

No geral, recomendo o Hotel Pantanal Mato Grosso para quem não se importa de abrir mão do conforto para ficar perto da natureza. 

Hospedagem comentada - índice com todos os hotéis citados no blog

Mais sobre esta viagem
Álbum de figurinhas: os bichos do Pantanal

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13 comentários:

  1. Passamos uns dias no Sesc Pantanal, tem uma estrutura muito boa (até sala de cinema com programação de cineclube!), preços razoáveis (mas todos os passeios pagos à parte), transfer próprio bem mais barato do que o mercado (mas ainda assim depois fizemos as contas e concluímos que teria sido mais em conta alugar carro). Tudo de bom, mas algumas pessoas reclamam que frequentemente há eventos com comerciários e o hotel fica hiper lotado. Não foi o que constatamos.

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    1. Cheguei a considerar a Sesc Pantanal, Patrick, mas fiquei com medo de estar muito muvucado no Carnaval. Mas valeu a sua dica. A gente sempre esquece dos hotéis do Sesc, com preços super em conta. Os dois que conheço (Guarapari e Rio - Copacabana) eu recomendo.
      Bjo

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  2. Também adoro esse contato com a natureza... A fauna e a flora do Pantanal são riquíssimas. Suas fotos ficaram lindas, parabéns!

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    1. Obrigada, Gabriela :) Tão bom viajar pelo Brasil...

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  3. Fotos lindas....passeio muito bem aproveitado... !!!!

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    1. Foi bacana, mesmo, Ana. Apesar de não ser alta temporada, deu pra aproveitar um monte. Bjo

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  4. Oi Cyntia! Fui ao Pantanal quando criança, mas até hoje tenho viva as memórias desses enorme paraíso! Sou louca pra voltar e ter acompanhado sua viagem valeu para subir o destino algumas posições na minha listinha :)
    Um beijão,
    Camilla

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    1. Eu adorei voltar ao Pantanal, Camila. Com mais tempo, foi um mergulho fantástico... Bora aproveitar que o dólar pirou e descobrir (mais) o Brasil :)

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  5. Estou indo pra Cuiabá nos próximos dias. E eu estava com 1 dia e meio livre. Sem outra ideia pensei em explorar a capital. Mas depois desse post resolvi ficar pelo menos esses dias no Pantanal.

    Espero que eu veja tantos bichos quanto vc! ;)

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    1. Aposto que vc vai ver muito mais bchos do que eu, porque está indo na melhor época. Um dia e meio já dá pra fazer um farra pantaneira. Aproveite muito :)
      Bjo

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    2. Aposto que vc vai ver muito mais bchos do que eu, porque está indo na melhor época. Um dia e meio já dá pra fazer um farra pantaneira. Aproveite muito :)
      Bjo

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  6. Estou com malas prontas para o Pantanal e para o mesmo hotel que você ficou. Diga-me, por favor, se é fácil contratar outros passeios. Eu também estarei sem carro e achei bem "pobre" as possibilidade deste hotel para 3 dias de hospedagem.

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    1. Oi, Ronny, os hotéis da Transpantaneira ficam bem afastados da cidade e não é simples contratar passeios. Com as águas baixas desta temporada, acredito que você vai poder fazer trilhas, além dos passeios de voadeira, a cavalo e de caminhão pela estrada. As ofertas de lazer do hotel são fracas, mesmo, então, leve algum entretenimento (livros, jogos, etc), especialmente se estiver viajando com crianças. Aproveite o maravilhoso Pantanal :)

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