quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Cliffs of Moher, Irlanda:
Mais lindos que miragem

Paisagem que vale mais que uma viagem: 
vale a pena estar viva só pra olhar esses penhascos...
Nem relatos, nem fotos, nem filmes. Nada que eu tenha visto, ouvido ou lido sobre os Cliffs of Moher me preparou para a intensidade do choque produzido pela primeira visão daquela sucessão de falésias recortadas contra o Atlântico, 200 metros acima de um mar que se atira furioso contra as rochas. Se um soco no estômago pudesse ser prazeroso, seria exatamente esta a sensação: um impacto devastador que faz a gente sair flutuando de felicidade. Esqueça as miragens: a realidade é sempre muito melhor :)

Minha primeira lembrança dos Cliffs of Moher vem do belo A Filha de Ryan (1970), de David Lean, franco favorito ao título de cineasta mais citado neste blog. Desde uma remota noite dos Anos 80, quando vi a beleza daquelas escarpas na tela de um cineclube universitário, a Irlanda passou a ocupar um lugar muito especial na minha lista de desejos.

Mais de 30 anos depois, lá estava eu, cara a cara com uma cena que nem um mestre do cinema nem seu aplicado diretor de fotografia tinham conseguido me mostrar em toda a sua magnitude.

Minha primeira visão dos Cliffs...
... ainda bem de longe, na aldeia de Dooley
Visitei os Cliffs of Moher agora em agosto. Junto com o Giant's Causeway e as falésias de Carrick-a-Rede, essa paisagem irlandesa é daquelas visões que justificam muito mais que uma viagem, mas talvez a vida inteira.

Como não estava disposta a dirigir na Irlanda, por causa da mão inglesa, estive na região com um tour da Irish Rail, a companhia ferroviária do país. A viagem combina deslocamentos de trem e de ônibus e, além das falésias, leva os visitantes ao Castelo de Bunratty, pertinho de Limerick, e para uma também hipnótica travessia do Burren, com seu fantástico solo de rocha calcária que sugere uma paisagem lunar, só que com uma flora extremamente rica.


Sei lá qual é a mágica, mas parece a coisa mais natural 
do mundo sentar na beirinha do abismo para ver a paisagem
Cliffs of Moher/ Falésias de Moher

São oito quilômetros de falésias e boa parte deles podem ser percorridos por trilhas. A visita clássica, porém, limita-se a caminhadas mais curtas, à beira do abismo, para o Norte ou para o Sul da entrada do parque, onde há um centro de visitantes com a infraestrutura básica, tipo banheiros, lanchonete e um auditório que exibe um audiovisual sobre o lugar.

Caminhando para o Norte, uma trilha leva até à Torre O’Brien, estrutura construída no Século 19 para que os turistas de então tivessem algum conforto na contemplação da paisagem. Vista de longe, a torrezinha parece de bonecas e até que fica bonitinha, no contraste com o corte dramático das escarpas. Mas, na hora em que chegamos, perto do meio dia, o ângulo do sol já recomendava que tomássemos a trilha para o Sul, para não fazer todas as fotos no contraluz. Então,  só vimos a torre de longe.

Apesar de fotogênica, a Torre O'Brien não tem muito interesse histórico. Foi construída no Século 19 para que os visitantes pudessem admirar os penhascos com mais conforto
Demos uma sorte incrível, pois pegamos um dia de sol intenso, céu azul imaculado, sem chuviscos, sem bruma e com vento moderado. Segundo o guia que nos acompanhava, as chances de todas essas coisas acontecerem ao mesmo tempo, naquelas paragens, é quase a mesma de ganhar na loteria — aliás, no capítulo clima, a Irlanda me tratou bem demais, basta ver as fotos desta postagem e a do post sobre o Giant’s Causeway. Dava para ver o silhueta da Baía de Galway, do outro lado do mar, um encanto a mais em uma paisagem que não precisa de retoques.

Essa agulha de pedra que emerge das águas
chama-se Branaunmore e serve de berçário
 a várias espécies de aves
Mas quem vai aos Cliffs precisa estar preparado para as variações de humor do temperamental clima irlandês. Além das frequentes brumas que simplesmente impedem a contemplação da paisagem, chuva forte ou vento muito intenso levam à suspensão das visitas, para garantir a segurança dos turistas.

Também é importante levar um bom agasalho (clima da Irlanda, sabe como é...) e calçados com solado antiderrapante (nunca é demais lembrar que o grande barato, nos Cliffs é caminhar na beira do abismo. Todo cuidado é pouco, portanto).

O grande barato, mesmo, é caminhar na beira do abismo.
 Vá preparada, portanto
A vegetação típica local
O Burren


Por conta própria ou em excursão, uma visita aos Cliffs geralmente é combinada com uma passagem pelo Burren, que se estende por mais de 1.500 hectares do Condado de Clare, onde também ficam as falésias. À primeira vista, o Burren parece um deserto de calcário, uma paisagem quase surreal em sua falsa aridez.

Olhando de perto, porém, suas grikes (as fissuras nas rochas) abrigam uma impressionante exuberância de plantinhas de todas as cores e origens: a diversidade da vegetação contempla espécies encontradas também nas regiões do Ártico, do Mediterrâneo e dos Alpes.

Parece uma paisagem lunar, mas é um "deserto fértil"
Outra prova da fertilidade do Burren é a grande quantidade de vestígios megalíticos e celtas, atestando a presença humana por lá desde a pré-história. Embora as principais atividades oferecidas aos visitantes na programação do Parque Nacional do Burren estejam ligadas à observação da fauna e da flora, a contemplação desses testemunhos históricos também atrai muita gente para lá.

Túmulos, como o famoso Dólmen Poulnabrone, fortes e muros de pedra estão entre as principais atrações. Para mais informações, consulte a página do The Burren Center, que traz uma boa lista do patrimônio histórico local.

A beleza do Burren é ainda mais impressionante à beira mar


Bunratty Castle
Bunratty: isso é um castelo, não aquele bolo confeitado de Neuschwanstein, rsss
O castelo é do Século 15 e servia de moradia e de casa senhorial ao clã MacNamara. Essa é a quarta fortificação erguida na área, ocupada desde o Século 10. Vikings, irlandeses e britânicos se revezaram no controle do lugar, o que comprova sua importância estratégica na linha de defesa de Limerick contra invasores que tentassem subir o Estuário do Rio Shannon.

O acesso ao castelo
A visita é bem interessante, especialmente para dar uma ideia de como era a vida real em um rústico castelo da Idade Média — nada a ver com a fantasia over de Neuschwanstein. A edificação é basicamente uma torre, com um grande salão cerimonial (great hall) no primeiro andar, alguns cômodos quase claustrofóbicos que serviam de aposentos à família e um terraço de observação.

No térreo, concentravam-se as atividades domésticas. Subir e descer aquelas escadinhas irregulares devia ser uma aventura bem mais arriscada que sair de armadura para matar dragões :)

O great hall de Bunratty
Detalhe de uma tapeçaria do salão e,
à direita, um dormitório do castelo
O Folk Park é uma reconstrução de um vilarejo do século 19, como os que vicejavam em torno das casas senhoriais, no caso, a Bunratty House, em estilo georgiano. Lá estão todos os estabelecimentos que se poderia esperar num povoado assim.

Há a ferraria, o pub, a estalagem, a casa do padeiro... Estão instalados em reproduções das cabanas de pedra e tijolos, com seus típicos tetos cobertos de palha, os thatched roofs, uma tradição das Ilhas Britânicas trazida da Idade Média, mas hoje em franco risco de extinção. Além de serem cada vez mais raros os artesãos especializados em executar o serviço, o risco de incêndio torna o preço do seguro das casas com esse tipo de teto completamente proibitivo. O resultado é que a singela cobertura das casinhas populares, hoje em dia, é um luxo que só os muito ricos podem se dar...

A visita ao Folk Parque pode ser interessante para as crianças, já que oferece uma ideia bem documentadinha de como seria a vida em séculos anteriores. Eles realizam uma série de atividades, como banquetes, torneios de cavaleiros e coisas do gênero, que eu sempre acho Disney demais pro meu gosto. Prefiro ver lugares originais, onde eu possa imaginar a história, do que visitar espaços cenográficos onde ela é “representada”...

Casinha com o típico thatched roof  no Folk Park

O Bunratty Castle fica no Estuário do Rio Shannon, na Costa Oeste da Irlanda, a 220 km de Dublin e a 15 km de Limerick. O castelo e o Folk park podem ser visitados diariamente (só fecham no Natal), das 9h às 17:30h. A entrada custa €10, se comprada pela internet. Se você pretende visitar o castelo e o parque junto com os Cliffs of Moher, o site do Bunratty vende um ingresso casado para todas as atrações por €12.
Confira o índice com todos os posts sobre 
museus e sítios arqueológicos publicados aqui na Fragata

Como é o tour da Irish Rail 


Connoly Station, em Dublin. O tour da Irish Rail começa aqui
Compramos o tour da Irish Rail no Escritório de Turismo de Dublin, mas ele é vendido por diversas agências e também pelos hotéis. Custa €109, preço que inclui os bilhetes de trem, o ônibus que faz o uma parte do percurso e as entradas nas atrações. As refeições não estão incluídas. O passeio é oferecido diariamente, exceto aos domingos. A partida, no trem para Limerick, é às 7 da manhã. Na volta, a chegada a Dublin é às 21 horas.

Pela janelinha do trem a gente vê um pouquinho
 da história da Irlanda
O perigo de passear pelo campo, na Irlanda,
é querer se mudar pra lá de vez
Em Limerick, trocamos o trem por um ônibus, que leva o grupo ao Bunratty Castle e à Folk Village. A visita dura cerca de uma hora e meia. Na sequência, há uma parada em Doolin, uma vilarejo bem próximo aos Cliffs, para o almoço. De lá, seguimos para os Cliffs of Moher, onde tivemos cerca de duas hora para explorar a área. Sinceramente, achei pouco tempo. De lá, o ônibus nos leva para a travessia do Burren, com duas paradas para fotos, e segue pela estrada costeira, pela Baía de Galway (paisagem indescritível!) até a cidade, onde ficamos cerca de uma hora. O trem para Dublin parte às 19h.

Os dois trajetos de trem (Dublin-Limerick e Galway-Dublin) ajudam a amenizar o cansaço de 14 horas de tour, já que os vagões são mais confortáveis que ônibus - e sempre dá para caminhar um pouquinho e esticar as pernas.

Para ir sem excursão

Os campos verdes encontram o Burren:
a paisagem do interior da Irlanda é um sonho...
Os Cliffs of Moher ficam na Costa Oeste irlandesa, a 276 km de Dublin. A cidade mais próxima é Liscannor. Para chegar de maneira independente, considere um pernoite em Galway que está a uma hora e meia de distância dos penhascos e tem uma linha de ônibus que faz o percurso direto até lá. Para ver os horários, consulte o site da empresa Bus Eireann.

Um bate e volta independente de Dublin até os Cliffs é possível, mas é pesado: é preciso chegar até Galway (209 km) ou a Ennis (240 km) e tomar um ônibus até os penhascos. Se quiser encarar, consulte a companhia irlandesa de trens, a Irishrail, para checar os horários.

A entrada nos Cliffs of Moher custa €6, com direito a um mapinha. Se você for de carro, o ingresso já dá direito a usar o estacionamento. Para vistar a Torre O’Brien’s, é preciso pagar €2.


De repente, na janelinha do ônibus aparecem castelinhos lindos
Mais sobre esta viagem
Liverpool
Dublin


Curtiu este post? Deixe seu comentário na caixinha abaixo. Sua participação ajuda a melhorar e a dar vida ao blog. Se tiver alguma dúvida, eu respondo rapidinho. Por favor, não poste propaganda ou links, pois esse tipo de publicação vai direto para a caixa de spam.
Navegue com a Fragata Surprise 
Twitter     Instagram    Facebook    Google+

2 comentários:

  1. Uau! Que lindo! Pena que não rolou de eu ir.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ficou com um grande motivo pra voltar à Irlanda, né, Cris?? Vale muito a pena.

      Excluir