terça-feira, 16 de dezembro de 2014

1º dia em Dublin: o que fazer

Trinity College: caso raro de universidade
que virou atração turística — e merece
A boêmia região de Temple Bar, o prestigiado Trinity College (a maior e mais antiga universidade da Irlanda) e o oitocentão Castelo de Dublin rendem um ótimo roteiro de descoberta da cidade. A curtíssimas caminhadas uma da outra, as três atrações mais famosas de Dublin podem ser vistas pelos recém chegados em um único dia, sem precisar correr. E foi assim que começamos nosso mergulho na capital irlandesa. Veja como foi nosso primeiro dia por lá:

Os edifícios seculares do Trinity estão organizados em torno
 de grandes áreas verdes, as "praças"
Trinity College
Uma das curiosidades que eu tinha sobre Dublin era a respeito da relação da cidade com a sua universidade mais famosa, um dos legados mais célebres do domínio britânico na Ilha Esmeralda.

A aguerrida capital irlandesa, porém, não parece guardar mágoas do passado eminentemente anglicano do Trinity College. Ao contrário, não encontrei um dublinense que não falasse com orgulho da prestigiada instituição, fundada no finalzinho do Século 16 por Elizabeth I da Inglaterra.


Além do respeito acadêmico internacional, o Trinity conquistou a rara condição de universidade que funciona como atração turística. A instituição ocupa uma grande área (190 mil metros quadrados) bem no centro nervoso da cidade, cercada de trânsito e gente apressada.

Os edifícios seculares do campus, porém, parecem estar a quilômetros da metrópole que resfolega do lado de fora. Basta transpor a arcada da entrada principal para mergulhar em outro ritmo.

O prédio da Biblioteca, o mais visitado
A organização dos prédios da universidade é engenhosa: eles ficam de costas para a cidade, dispostos em torno de grandes áreas arborizadas. O chato é que é proibido pisar, quanto mais rolar naquela grama (se bem que, do jeito que chove em Dublin, aposto que ela está sempre úmida, rsss). As muitas bicicletas estacionadas e eventuais banquinhos é que se encarregam de dar um quê de parque a esses espaços sombreados pelas construções de feições setecentistas.

A torre do sino e, à direita, a entrada principal, 
vista de uma das "praças" verdes do campus
Se hoje Dublin e a Irlanda abraçam integralmente sua universidade, as coisas nem sempre foram tão tranquilas. Os católicos irlandeses eram proibidos de estudar lá, até o apagar das luzes do Século 18 — como também ficaram alijados das funções mais elevadas na administração pública e em outras áreas até quase a consolidação da independência.

Quando o Império Britânico baixou a guarda para a presença dos irredutíveis celtas no Trinity, foi a Igreja Católica quem bateu o pé: até 1970, a pena para o católico que se matriculasse lá podia chegar à excomunhão. O que talvez explique a ausência do mais famoso dublinense, James Joyce, do quadro de ex-alunos da casa. De famílias protestantes, Oscar Wilde, Bram Stoker, Samuel Beckett e Jonathan Swift passaram por lá.


Visitei o Trinity College no final de agosto, bem no dia em que a instituição realizava uma série de cerimônias de boas vindas aos novos alunos e de preparação para o início do ano letivo, daí  a poucos dias. Além dos muitos estudantes, o campus recebia muitos turistas, aglomerados, principalmente, nas imediações da Old Library, biblioteca cheia de tesouros e aberta à visitação e grande estrela do campus.

A Old Library foi construída no início do Século 18 e é o lar de 200 mil volumes — entre eles o famoso Book of Kels (Livro de Kels), uma versão dos evangelhos ricamente ilustrada por iluminuras, feita no Século 9. Essa maravilha é uma das atrações do espetacular Long Room, com suas hipnóticas estantes em carvalho, abrigadas sob o teto curvo de madeira (um acréscimo do Século 19) que é a alegria dos fotógrafos que visitam o lugar (juro, vi gente deitando no chão pra pegar um bom ângulo).


Quando eu visito bibliotecas lindas como a do Trinity (ou como a do Mosteiro de São Francisco, em Lima), sinto uma vontade incontrolável de virar traça e ficar morando nelas. Juro que não iria danificar os livros (eu topo ser uma traça faquir e viver de brisa), mas faria qualquer coisa pelo prazer de ficar ali, quietinha, só admirando a paisagem :)



Quando você for a Dublin, faça-me o favor de não cometer a insanidade de perder essa maravilha, tá? E, se deitar no chão, manda uma cópia da foto pra mim. Até agora eu estou curiosa pra saber se valia a pena o mico :)

Informações práticas
A entrada principal do Trinity College,
na área mais movimentada de Dublin
A melhor referência para chegar ao Trinity College é College Green, uma continuação da Dame Street. O jeito mais bacana de conhecer a universidade é fazer uma visita guiada, acompanhada por estudantes da instituição. Os tours partem em vários horários e custam €12, com direito à entrada na Old Library, ou €5, apenas para para percorrer as áreas externas. Ao atravessar o Front Gate (a entrada principal, que dá de frente para a antiga sede do Parlamento) procure a plaquinha "Guided Tours".

Um alojamento de estudantes no Trinity e o mapa do campus — são 190 mil metros quadrados, afinal
É possível se hospedar no Trinity
Durante as férias da universidade, em vários tipos de acomodação, usadas normalmente pelos estudantes. Há desde apartamentos até pequenos estúdios individuais. As diárias variam de €52 a €118, dependendo do tipo de alojamento. Dá para fazer reservas nesta página.

Old Library
A fila para ver o Livro de Kels, na Old Library
Aberta ao público de segunda a sábado, das 09:30h às 17h. Aos domingos, ela pode ser visitada das 9h às 16:30h, de maio a setembro. O horário dominical de inverno vai das 12h às 16:30. Esse horário também vale para os feriados. A entrada custa €10 (estudantes e maiores de 60 pagam €8).

A bandeira de Dublin, com as três torres
 do brasão da cidade. Áta Cliath
 é o nome celta da capital irlandesa

O Castelo de Dublin


O pátio interno do Castelo, com a Torre Bedford em destaque
Quem está acostumada a ver castelos pendurados nas alturas, dominando vastas porções de território, até toma um susto com a localização quase prosaica do Castelo de Dublin, bem plantadinho no chão e quase escondido entre as construções do centro da cidade. 

Esse jeito nada pomposo é bem dublinense, mas que ninguém se engane: por 720 anos, esse conjunto de fortificações e salões cerimoniais foi o maior símbolo da dominação inglesa sobre a Irlanda. Desde o desembarque das tropas de Henrique II, no Século 12, até a independência irlandesa, em 1922, ele foi a sede do governo estrangeiro, funcionando também como prisão e centro de interrogatório de nacionalistas irlandeses. 

A Capela Real e a Torre Normanda, no Castelo de Dublin
As origens do Castelo de Dublin foram as fortificações construídas pelo rei inglês João Sem Terra, que virou lenda como arquirrival de Robin Hood, encarregado de consolidar a conquista iniciada por seu pai, Henrique II. Uma velha torre normanda , do Século 13, recebe os visitantes, logo na entrada, e lembra esses primórdios do Castelo.

Mas as feições que hoje predominam no Castelo datam dos Século 18 e 19. A harmonia em linhas sóbrias das construções do primeiro pátio, onde se destaca a Torre Bedford, é encantadora. Confesso, porém que o passado do lugar estava me incomodando um pouquinho, durante a visita.

Informações práticas


A entrada de pedestres do Castelo de Dublin, meio escondida entre os edifícios do Centro da cidade
O Castelo fica em Dame Street, a uma curta caminhada do Trinity College. A entrada é gratuita, para quem for percorrer apenas as áreas externas. Entre as atrações do Dublin Castle são os State Apartments, conjunto de salões e outros aposentos usados pelos governantes britânicos e que hoje são utilizados em cerimônias do governo irlandês. Eles podem ser percorridos em visitas guiadas, com ingressos a €4,50.

Atrás da Torre Normanda ficam os Dubh Linn Gardens (acesso por Dame Street), bonita área verde onde se pode rolar na grama (se estiver seca), escondida do burburinho da cidade e que ocupa o local do antigo poço escuro (dubh linn) que deu o nome ao assentamento viking que conviveu, por um bom período, com a povoação celta de Áta Cliath, principal origem da cidade.

Um Einstein circunspecto, 
a melhor escultura de areia no pátio do Castelo

Confira o índice com todos os posts sobre 
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Temple Bar, a capital da farra
Turistas ou locais, em Temple Bar somos todos boêmios
Dizer que Temple Bar é o Pelourinho de Dublin não seria inexato, mas estaria bem longe de fazer justiça a essa área antiga, turística e boêmia da capital irlandesa. Lá tem música "típica", farristas de todas as nacionalidades e mais botecos (pubs) do que eu teria paciência de contar. Também já não é um lugar onde mora gente, nem falha em exibir uma certa cara de parque temático da farra. A diferença, talvez, seja o fato de que eu não curto o Pelourinho e gostei bastante de Temple Bar.

O interior de um pub em Temple Bar
Já frequentei todos os tipos de botecos (dos metidos a besta aos que fazem o cliente sentar no engradado de cerveja). Viajando por aí, encontrei ótimas tascas, boliches, tabernas, biergärten e bodegas. Fui do lounge ao inferninho. Francamente, ainda não descobri uma atmosfera mais simpática para um drinque relaxado que um pub.

Temple Bar devidamente identificada em inglês e gaélico na placa de rua. À direita, uma lembrança do grande Rory Gallagher, guitarrista de blues irlandês que arrebentou nos anos 70
Gosto de ouvir a música (quando tem uma jukebox, então, eu piro!), de observar os clientes íntimos da casa (e fico tentando adivinhar se não seriam figurantes contratados para posar de regulars), de fazer aquela cara de quem não está prestando atenção aos outros e, claro, de arrematar o meu uísque com um hambúrguer.

Além das atrações etílica, Temple Bar é um bom lugar para ouvir música. Do Folk Irlandês ao velho e bom Rock'n'Roll, rola de tudo nos pubs
E, Londres que me perdoe, mas os irlandeses deram o troco nos sete séculos de dominação arrebatando dos britânicos a arte de fazer os pubs mais pubs do planeta. Deve ser por isso que eu gostei tanto de Temple Bar (embora beber ao Norte do Rio Liffey seja mais inspirador, mas isso é assunto para outro post). É simples, descomplicado e relaxante. Experimente encerrar seu primeiro dia em Dublin por lá. Garanto que você vai voltar :)

Leia mais sobre Dublin
Dicas práticas de uma cidade adorável
Um passeio pela Dublin georgiana

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2 comentários:

  1. Eu gosto de muitos lugares aqui em Dublin, mas o Dublin Castle não é um dos meus preferidos. Em comparação com a biblioteca Chester Beatty (nos jardins do castelo), por exemplo, acho que ele empalidece um pouco. Em compensação, o Temple Bar é realmente sensacional! Sempre vibrante, cheio de locais e turistas, eu adoro andar por ali!

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    1. Acho que fiquei meio de bronca com o karma do Castelo. É que eu sou irlandesa desde criancinha (risos), acho a história da dominação britânica na ilha muito cruel. O que não me impediu de morrer de paixão pela arquitetura georgiana de Dublin (que tem um super "sotaque" britânico), como você verá no próximo post :)

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