sábado, 28 de junho de 2014

Granada: "a rua mais bonita do mundo"


Se é a mais bonita do mundo, não sei. 
Mas que essa Carrera del Darro é linda, isso é
O que dá pra fazer quando se é apenas uma faixa de terra muito estreitinha, espremida entre dois morros muito imponentes (onde, ainda por cima, os homens se empenharam em construir inúmeras maravilhas de pedra e cal)? Agora, imagine que essa tripinha de terra ainda tenha que dividir seu espaço tão acanhado com o leito de um riacho. Pois essa é a Carrera del Darro, que o povo de Granada apresenta aos visitantes como "a rua mais bonita do mundo".

Ela nasceu assim, espremida entre as alturas majestosas onde se assentam o bairro mouro do Albaicín (ao Norte) e a beleza arrebatadora da Alhambra (ao Sul). E ainda se obriga a trocar cotoveladas com um riachinho audaz como o Darro — o magricela que se une ao Rio Genil para ir correndo engrossar as águas do grande Guadlquivir.

Não dava mesmo para se contentar em ser um beco. A Carrera del Darro aproveitou a moldura espetacular e pintou-se de palácios renascentistas e barrocos, igrejas mudéjares encantadoras e tabernas que parecem saídas de uma novela do Século 17, para compor os 350 metros mais mágicos de Granada.

A Plazoleta ("pracinha") de Santa Ana
A Igreja de Santa Ana foi 
meu ponto de partida nesta caminhada
Ao longo desse percurso, a "rua mais bonita do mundo" raramente excede os quatro metros de largura. O encanto começa em uma pracinha adorável, onde o vermelho e o amarelo das fachadas não conseguem empalidecer a elegância cor de barro da Igreja de Santa Ana, do Século 16.

Com evidente sotaque mouro — herdado de sua antecessora, a Mesquita de Almanzora —, a igrejinha tem campanário esguio, uma bela portada esculpida em pedra e um interior precioso, com obras dos séculos 16 e 17.

El Bañuelo, do Século 11, está entre os banhos árabes mais antigos ainda de pé na Espanha
Logo no comecinho da rua, em frente à fachada lateral de Santa Ana, fica o palácio onde nasceu Mariana Pineda, heroína de Granada na luta contra o Absolutismo. Mariana era uma mulher de espírito livre, aliada dos liberais (nada a ver com o significado que o termo tem, hoje em dia), que defendiam os princípios da Constituição de 1812.

Em um período de muita agitação política e escaramuças armadas, Mariana foi presa sob a acusação de estar envolvida em uma tentativa de levante contra o rei Fernando VII. Foi executada em 1831, aos 26 anos. Sua história foi contada em uma peça de teatro escrita por outro granadino de espírito livre, também vítima do obscurantismo, Federico Garcia Lorca.

Música ao cair da tarde na Carrera del Darro
O palácio de Mariana Pineda é hoje um hotel muito chique e exclusivo (apenas cinco quartos), com diárias na casa dos €400. Use o seu melhor sorriso e peça para ver o belo pátio interno do edifício — mas não creio que lhe deixem fazer fotos.

Mais adiante fica uma atração imperdível desta rua especialíssima, o Bañuelo, apelido carinhoso dos banhos árabes del Nogal, do Século 11. Um dos poucos edifícios do tipo a sobreviver em Granada, após a Reconquista cristã, em 1492 — talvez por ter sido totalmente engolfado por uma casa construída sobre suas dependências — esse hamman está entre os mais antigos da Espanha.

 Igreja de San Pedro y San Pablo, com uma torre da Alhambra ao fundo e uma fonte no Paseo de los Tristes
A entrada, no número 31, é difícil de ver da rua, uma portinha acanhada identificada por um cartaz em um cavalete. Mas não deixe de entrar para ver o pequenino pátio interno e as câmaras, surpreendentemente bem conservadas (o lugar passou por uma restauração, no começo do Século 20), iluminadas por "luas cheias" e "estrelas", claraboias recortadas nas abóbadas de tijolos dos seu tetos. Um encanto. O Bañuelo pode ser visto de terça a sábado, das 10h às 14:00, e a entrada é gratuita. 


A Carrera del Darro Vista da Alhambra: (a partir da esquerda)
 a Real Chancillería, na Plaza Nueva, o campanário de Santa Ana
 e o palácio de Mariana Pinera (no canto inferior direito)
Mesmo no frio de janeiro, sempre há mesinhas na calçada, 
como as deste bar, em frente à Ponte Cabrera
Sim, a Carrera del Darro é muito bonita, mas fica melhor ainda quando a gente olha para o alto e vê as muralhas e torres da Alhambra pairando contra o céu azul andaluz. Quando o efeito fica tão hipnótico que caminhar vira um risco, melhor parar e ocupar uma das muitas mesinhas dos bares e tabernas que se concentram por aqui, pedir um chocolate com churros e mergulhar na contemplação. E é incrível como um lugar tão cheio de turistas embasbacados ainda consegue conservar estabelecimentos tradicionais, caseiros e autênticos, frequentados por moradores.

O casarão do outro lado do rio foi um hotel muito elegante. 
Hoje, está fechado. 
Ah, e aquela lindeza lá no alto é a Alhambra :)
Depois da paradinha estratégica, não deixe de ver os restos da Ponte del Cadí (Século 11), que cruzava a rua ligando a Alhambra ao Albaicín, a Casa de Castril, palácio do Século 16 que hoje abriga o Museu de Arqueologia, e a Igreja de San Pedro y San Pablo, contemporânea de Santa Ana, com quem compartilha os traços mudéjares. No Convento de San Bernardo, as monjas enclausuradas fazem famosíssimos biscoitos, que são vendidos através de uma "roda", para que os visitantes não vejam o rosto das religiosas. Infelizmente, porém, acho que as freirinhas estavam de férias, pois o mosteiro não abriu, nos dias que eu estava na cidade.

Igreja de San Pedro y San Pablo 
e o portal do Convento de San Bernardo
A Carrera del Darro desemboca em um lugar com o nome mais incoerente que já escutei. O Paseo de los Tristes é uma esplanada ajardinada que margeia o Darro, bem ao estilo dos paseos espanhóis, com mesinhas ao ar livre, banquinhos e uma fonte do Século 16. E, claro, uma vista para a Alhambra de rasgar a roupa. Só alguém muito espírito de porco consegue ficar triste em um cenário desses, mas  era por aqui que desfilavam os cortejos fúnebres, até o Século 19, sempre acompanhados por uma ala de carpideiras, como mandava a tradição. E foi assim que o nome pegou. 


Paseo de los Tristes
Aqui é o lugar perfeito para uma parada daquelas bem preguiçosas, vendo o sol mudar a cor das muralhas da Alhambra e planejando outras jornada mágicas por Granada. E, no fim, acho que o povo da cidade tem razão: a Carrera del Darro é a rua mais bonita do mundo.


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2 comentários:

  1. josé antonio cuiabano12 de dezembro de 2015 09:37

    para quem vai viajar e quer uma referência, este blog é maravilhoso. Acredito que poderia ser mais divulgado, pela sua beleza de fotos e informações.

    José Antonio Cuiabano, Vinhedo - São Paulo, Brasil

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  2. Nossa, José Antonio, é muito bom receber um elogio como esse. É esse tipo de apoio dos leitores que fazem valer a pena escrever o blog. Super obrigada.
    Abs

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