terça-feira, 27 de novembro de 2007

Um passeio por Veneza
em um dia de sol

Adoro me perder em Veneza...

Quase desisti de vir a Veneza. Nas últimas duas semanas, todos os telejornais italianos mostraram insistentemente os transtornos causados à cidade pela chuva interminável. Como eu sou um pouquinho mais insistente que a chuva, lá fui eu rever a cidade que sapateou no meu coração na primeira visita, em 2003.

Veneza me recebeu com um céu azul inacreditável e um calorzinho que me fez arrancar o cachecol assim que pisei na plataforma da Estação Ferroviária de Santa Lucia. Um dia bonito como aquele, especialmente quando chega de surpresa, deixa a gente na maior ansiedade para aproveitar cada minutinho. O resultado é que pulei no primeiro vaporetto que encostou no cais, rumo ao Valaresso, onde fiquei hospedada, sem me importar com o fato de que a lanchinha estava abarrotada de gente.

Andar de vaporetto é uma das melhores maneiras de ver Veneza

Se arrastar uma mala de rodinhas por Veneza é um inferno, garanto que é muito pior tentar acomodá-la no vaporetto lotado, quando parece que todos os bicos de sapato do planeta, devidamente recheados de dedos muito sensíveis, se colocam no seu caminho.

Pois é... é perfeitamente possível sofrer em Veneza, e essa constatação me provocou um incontrolável ataque de riso, que não melhorou em nada os olhares homicidas que me eram lançados por meus companheiros de viagem.


Não consigo imaginar nada mais divertido para se fazer em Veneza do que andar à toa, me perder quase de propósito naquele emaranhado de ruelas que sempre acabam à beira de um canal, sem ponte à vista, o que me obriga a dar meia volta e me perder outra vez — é claro que eu tenho um mapa, mas encontrar o caminho de primeira não tem a menor graça nessa cidade. Com aquele ceuzão azul, a lista de museus ficou esquecida no bolso do casaco.

A Catedral (esq), o Palazzo Ducale e, ao fundo,
o Campanário de San Marco
Se for sua primeira visita, porém, recomendo que você faça uma forcinha para visitar o Palazzo Ducale, na Piazza San Marco. Reserve com antecedência, para poder percorrer os Itinerari Segreti (roteiros secretos), pelos aposentos onde eram tomadas as decisões mais delicadas da República Serenissima, caso contrário, você só terá acesso à visita convencional (que já é um espetáculo).

Concluído no Século 15, como sede do governo veneziano, o palácio é lindíssimo, uma suntuosa construção com fortes influências bizantinas, e abriga obras de arte de primeiríssima linha (jamais esquecerei um Inferno pintado por Hieronymus Bosch).

A cúpula da Catedral de San Marco dourada pelo sol poente
Até o Século 18, O Palazzo Ducale abrigou as instâncias de governo e judiciárias de Veneza e é nos tribunais aqui reunidos que está a origem do nome da famosa Ponte dos Suspiros, que liga o palácio à antiga prisão—os suspiros eram de desespero dos condenados, não de apaixonados, como a aura romântica de Veneza poderia sugerir.

Outra visita imperdível é à Basílica de San Marco, que corre o sério risco de ser a igreja mais bonita do mundo. Atrás do altar mor fica a Palla d'Oro (visita cobrada à parte) uma peça de altar pintada sobre folhas de ouro e coberta de pedras preciosas, do Século 10.

Uma das muitas passagens em arco de Veneza (esq), no Dorsoduro. À direita, a Ponte dos Suspiros
Com paciência para encarar a fila, uma subida ao Campanário de San Marco oferece uma vista espetacular para a cidade — embora, pra mim, a melhor vista de Veneza seja a do vaporetto, a caminho do Lido. Mesmo com o solzinho gostoso que banhava a cidade, lá em cima fazia muito frio (na minha primeira visita, achei que ia congelar no topo do campanário), mas vale muito a pena.

Scuola Grande di San Rocco
Talvez a região mais gostosa para andar à toa, em Veneza, seja San Polo, antigo quartel general dos mercadores. A caminhada geralmente começa na Ponte de Rialto e quanto mais a gente se embrenha no bairro, mais fascinante ele vai ficando, com pracinhas minúscula, quase secretas, barraquinhas que oferecem pizza al taglio (uma fatia servida num guardanapo) para comer no meio da rua. A Scuola Grande di San Rocco é uma visita imperdível, pelas maravilhosas pinturas de Tintoretto que decoram seus salões.

A Ponte de Rialto, ponto de partida para uma gostosa caminhada
Depois de atravessar inúmeros canais — por pontes muito fofas — a gente sabe que chegou aos Dorsoduro, a parte mais seca de Veneza, porque as pracinhas começam a ficar um pouquinho mais amplas (só um pouquinho).

Ao lado de uma das pontes sobre o Rio Barnabá fica ancorada a célebre barquinha de frutas e verduras, um jeito adorável de fazer feira ou providenciar um lanchinho rápido para repor as energias. O fim do passeio é no Campo Santa Margherita, área boêmia onde uma taça de vinho espanta o frio que vem com o cair da tarde.

Campo Santa Margherita
Dicas práticas
Palazzo Ducale
Piazza de San Marco (paradas de vaporetto Vallaresso ou San Zaccaria), diariamente, das 8h30 às 19h (de abril a outubro. Horário de inverno (novembro a março) das 8:30h às 17:30h. O ingresso custa €16 e dá direito à entrada também no Museu Correr,  Museu Arqueológico e às salas monumentais da Biblioteca Nacional Marciana. 

Para ver os Itinerari Segreti, faça sua reserva no site do Palazzo Ducale. A visita custa €20. 

Basílica de San Marco
Piazza de San Marco, de segunda a sábado, das 9h45 às 17h. Domingos e feriados das 14h às 16h. Entrada franca. As visitas à Pala d'Oro são cobradas (€2) e se encerram às 16 horas. O Museu de San Marco pode ser visitado das 9:45 às 16:45. A entrada custa €4. Imperdível também é a visita ao Tesouro da Basílica (até as 16 horas, entrada €3).

Scuola Grande di San Rocco- Calle Scuola, esquina com Calle Tintoretto Cannaregio, em San Polo. Diaramente, das 9:30h às 17:30h (escola e igreja). A entrada custa €10 e dá direito ao audioguia. 

A ponte sobre o Rio San Barnabá e a famosa barquinha de frutas
Como chegar 
Nas duas vezes que fui a Veneza, cheguei de trem, vindo de Florença. São duas horas de viagem, geralmente com paradas em Bolonha e Pádua. (Atualização em março de 2014: a passagem está custando €29).

O Aeroporto Marco Polo recebe voos de 127 países.

Onde ficar
A região de San Marco tende a ser a mais cara de Veneza, mas em novembro, consegui encontrar o simpático Hotel Mercúrio, a 20 metros do Teatro La Fenice, com diárias no apartamento single a €50.

O hotel é pequeno e administrado por uma família e com serviço muito atencioso. A dona dá boas dicas de Veneza, para quem quer escapar do roteirão manjado. Tem dois andares, sem elevador. O quarto é apertadinho, mas tem um balcãozinho simpático, embora sem vista, forro de madeira acompanhando a queda do telhado da água-furtada. No térreo funciona o restaurante Anonimo Veneziano, uma boa surpresa.


Jantei lá na minha segunda noite e gostei bastante. Logo de cara, o garçom me trouxe, como cortesia da casa, uma porção de sarde in saor. O prato é quase uma logomarca de Veneza: sardinhas marinadas em azeite, vinho e cebolas. Só elas já valem a visita à cidade. Pedi vieiras de entrada (porção generosa e deliciosa) e, para terminar, um espaguete na tinta de lula que estava sublime. Tudo isso com vinho, é claro, mas não consegui encarar sobremesa, só café e licor. Conta: 38 Euros muito bem pagos.

Hotel Mercurio- Calle del Fruttariol, San Marco, 1848. O restaurante Anonimo Veneziano fica no térreo e pertence ao hotel.


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