1 de setembro de 2013

Londres: o Teatro Globe e a trilha de Shakespeare

Teatro Globe: o palco pode tudo
Que me perdoem os grandes monumentos de Londres (todos majestosos, impressionantes e imperdíveis). Mas de todos os roteiros históricos que fiz na cidade o que achei mais empolgante tinha quase nada de pedra e cal, pouquíssimos traços palpáveis. E, mesmo assim, foi o que me fez viajar mais longe. 

O roteiro guiado organizado pelo Teatro Globe de Londres (The Globe Shakespeare's Theater) percorre alguns quarteirões do bairro de Southwark — o reduto das atividades de entretenimento na época elisabetana — e responde com um imenso sim!  à pergunta de Shakespeare, o homenageado dessa caminhada: "Pode esse palco conter os vastos campos da França?" 

O Teatro Globe (centro) visto da Millenium Bridge
Pois eu respondo: a arte do palco pode tudo. Esse roteiro nas pegadas de Shakespeare e seus contemporâneos é a prova. Basta uma história bem contada e a nossa imaginação vai longe. Se você está procurado um passeio bacana em Londres, faça o tour do Teatro Globe e garanto que vai adorar. Veja as dicas.

➡️ Como é o tour do Teatro Globe de Londres
No prólogo da peça Henrique V, prestes a narrar momentos decisivos da Guerra dos Cem Anos, Shakespeare meio que se desculpa com a plateia por apresentar episódios tão cruciais da História no acanhado tablado de um teatro.

Foi Henrique VIII quem confinou todos os divertimentos menos elegantes de Londres na margem Sul do Tâmisa. Brigas de cães e de galos, exibições de ursos ferozes, jogos de azar e o teatro ganharam um lar em Southwark. O Globe, de Shakespeare, foi criado em 1599. O Rose, em 1587
Para o bardo, só mesmo imensidão de um reino poderia ser cenário para a magnitude das cenas que vai recriar (A kingdom for a stage, princes to act. And monarchs to behold the swelling scene!) e questiona: “Pode esse palco conter a vastidão dos campos da França?” (Can this cockpit hold
The vasty fields of France?)

A resposta, acho que Shakespeare já sabia. O teatro tem o condão de fazer a gente visitar outro local e outra era, mesmo sem um cenário, alegorias e adereços iludindo o olhar. O tour do The Globe pelas ruas de Southwark é isso: a força do teatro atiçando a imaginação. 

O novo Rose: os vestígios do teatro original foram encontrados no subsolo deste edifício, durante escavações para a construção de uma garagem. À direita, um assento de pedra destinado aos barqueiros que faziam a travessia de passageiros entre as margens do Tâmisa
A gente passeia entre quase nenhum vestígio físico do tempo do teatro elisabetano, mas é como se estivesse lá.

Enquanto caminhamos por Southwark, a narrativa do nosso guia/ator constrói com habilidade o contexto histórico, as tramas políticas, os detalhes da vida cotidiana e até as fofocas e rivalidades entre as companhias teatrais — uma espécie de predecessoras dos times de futebol, despertando paixões tão descabeladas no público que até resultavam em batalhas campais entre as "torcidas".

A região de Southwark, onde está o Globe, muito animada
No trajeto, passamos por um antigo assento de pedra onde os barqueiros aguardavam passageiros para a travessia do Tâmisa no tempo de Shakespeare. Visitamos o porão de um antigo armazém transformado em edifício de escritórios, onde estão as fundações do teatro The Rose (Século 16), e um estacionamento onde esteve o Teatro Globe original — o atual, majestoso na beira do Tâmisa, é uma reconstrução de 1977.

Mesmo assim, eu terminei o tour com a absoluta certeza de que iria encontrar William Shakespeare, Christopher Marlowe e companhia taberna mais próxima para uma caneca de cerveja e dois dedos de prosa.

Respondendo à pergunta de Shakespeare: não há limitação de cenário que uma história bem contada não consiga vencer. Em qualquer palco — uma carroça primitiva, um tablado mambembe ou as ruas movimentadas de um bairro cheio de concreto do Século 21 — cabem não apenas os campos da França, mas uma época inteira, com todas as suas paixões, tramas e personagens. A força da narrativa faz maravilhas com a imaginação do espectador. Eu caminhei por Southwark vendo os cenários elisabetanos.  

Depois da visita ao Globe, aproveite o fim de tarde em Southwark - repare que as duas amigas estão dividindo uma garrafinha de vinho
➡️ O Teatro Globe de Shakespeare
O Teatro Globe foi construído em 1599 e seu local original fica a 200 metros da beira do Tâmisa. O lugar é agora o estacionamento de um edifício residencial e está assinalado por marcos de bronze. Infelizmente, o sítio não pode ser escavado, pois as fundações do prédio moderno, em concreto, impedem a tarefa.

Antes de fazer o tour pelas ruas de Southwark , visitei a reconstrução do Teatro Globe, uma das atrações da margem sul do Rio Tâmisa e fiquei impressionada com o rigor utilizado nessa recriação histórica. Além de ser uma reprodução muito cuidadosa do original, o Globe é um respeitado centro de estudos do teatro elisabetano

O Museu do Teatro Globe
Tem também um museu bem legal, embora pequeno. O espaço recria os bastidores de um teatro do Século 16. Lá estão os teares e ferramentas de costura para a confecção de figurinos, a marcenaria para a construção de cenários e adereços e muita informação sobre a época de Shakespeare.

Boa parte do encantamento da visita ao Globe e do tour oferecido pelo teatro pelas ruas de Southwark deve-se ao esforço visionário do ator americano Sam Wannamaker, que levou 60 anos pesquisando e angariando apoios para reerguer The Globe Shakespeare's Theater, mantendo viva a memória da casa de espetáculos da qual Shakespeare foi sócio e onde apresentou muitas de suas obras.


O novo Teatro Globe também é o lugar perfeito para assistir a uma apresentação teatral. A obra de Shakespeare predomina, mas não é absoluta no repertório.

Durante as manhãs (e também nas segundas-feiras à tarde, quando não há espetáculos nem ensaios), a visita guiada é feita no Globe mesmo. Só quando o palco está ocupado é que é feito o tour pelas ruas de Southwork. Mas não pense que essa atração é uma second best. Eu delirei com ela e recomendo muitíssimo.

➡️ Os teatros elisabetanos em Londres
A quase ausência de vestígios físicos deixados pela casas de espetáculos do tempo de Shakespeare na paisagem de Londres deve-se primeiramente à técnica construtiva usada nos teatros elisabetanos.

Ainda herdeiros de uma vocação mambembe do entretenimento, esses teatros tinham uma característica meio temporária, erguidos a partir de uma trama de traves de madeira preenchidas com algo parecido com o adobe e cobertos de palha.

O Teatro Globe (esquerda) fica do ladinho da Tate Modern Gallery (direita). Combinar as duas atrações pode render um ótimo programinha londrino
Se o público escasseasse, ou se as perseguições políticas e religiosas recomendassem, era só “desmontar o circo”, recolher as traves de madeira e partir para outro lugar.

Além do uso de materiais mais perecíveis, o solo encharcado de várzea de rio de Southwark também deu sua contribuição para que muito pouco ficasse dos velhos teatros, pois palha e madeira apodrecem e se decompõem rapidamente na umidade.

Ainda bem que a força da narrativa teatral nos permite reencontrar esses teatros maravilhosos, mesmo que seja com a imaginação.


Teatro Globe de Londres
21 New Globe Walk, entre a Millenium e a Southwark Bridge
Site > The Globe

A exposição e o museu do Globe podem ser vistos diariamente, das 9h às 17:30h (às segundas, fecha 30 minutos mais cedo).

A visita guiada ao Teatro Globe é realizada a cada meia hora, geralmente pela manhã, para não atrapalhar os ensaios e as apresentações.

Bem em frente ao Teatro Globe tem um atracadouro de barcos que fazem o transporte pelo Tâmisa. Esse pode ser um jeito legal de chegar até lá
Quando o palco do Globe está sendo usado para essas atividades, é oferecido o tour pelas ruas de Southwar até o Teatro The Rose, que foi o que eu fiz e adorei. O ingresso combinado para a exposição e o tour custa £13,50.

Uma pena é que esse tour só é oferecido em inglês. Para quem domina medianamente o dioma, eu arrisco dizer que esse é um programaço, que ficará ainda mais interessante de o visitante se programar com antecedência e já tiver o ingresso para ver a apresentação de um texto de Shakespeare no Globe, depois da caminhada.

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4 comentários:

  1. Que legal, Cyntia! Eu ADORO o Globe, já fui na exposição pelo menos três vezes, já assisti duas peças lá, mas nunca dei a sorte de pegar esse tour que você foi! Sempre pego o que vai dentro do Globe, que também é o máximo. Bem, agora fiquei na vontade. Quem sabe na próxima vez que eu for a Londres? hehehe :)

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  2. Excelente! Enviarei, mais uma vez, o site por e-mail, aos amigos literatos. Ótimas dicas.

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  3. Nem sabia dessa alternativa do tour pela região rs. Quando fui, fiz o tour "normal" mesmo, que é ótimo!!!

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  4. Pois é, meninas, eu "dancei", porque decidi visitar o Globe à tarde e não pude ver o teatro por dentro, mas o fiz o tour do Rose e me diverti pra caramba.

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