quinta-feira, 31 de julho de 2014

Madri: um passeio pelo Século de Ouro
(e todas as atrações são grátis!)

O coração da Madri dos Áustrias, a Plaza Mayor, foi concluída no Século 17. Aqui eram celebradas as conquistas e também eram realizados os autos de fé da Inquisição. A construção em amarelo é a Casa de la Panadería, que servia de camarote real
Houve um tempo em que Madri foi uma cidade "paradoxal, singular e irrepetível", como já disse o escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte. Entre os séculos 16 e 17, ela foi o coração de um império onde o sol nunca se punha. E um dos passeios mais legais na cidade é exatamente percorrer a rota dos principais monumentos desta época.

As memórias do chamado Século de Ouros ainda estão bem vivas no Centro antigo de Mdri. A Plaza Mayor, a Colegiata de San Isidro (que já foi a catedral madrilenha), a Plaza de la Villa e o Palácio de Santa Cruz são atrações lindas e gratuitas, fica, bem próximas umas das outras e rendem um ótimo roteiro a pé - você vai topar com algumas ladeiras, mas bem mansinhas.

Casa de la Villa, 
antiga sede do Ayuntamiento (sede do governo) de Madri 
O Século de Ouro talvez seja o símbolo maior da espoliação das Américas, mas é certo, também, que ele foi a expressão de um impulso épico que fez tanta gente a se lançar aos mares e ao desconhecido e que, nas artes, pariu uma safra (essa sim, irrepetível) com Cervantes, Lope, Quevedo, Molina e Calderón...

Eu estava louca para matar a saudade dessa minha Madri preferida e aproveitei dois dias, depois da maravilhosa viagem à Andaluzia, em janeiro, para dar uma passadinha por lá. Para facilitar, fiquei hospedada em La Latina, reduto boêmio ao lado da Plaza Mayor, um dos bairros mais antigos e com uma das noites mais animadas da capital espanhola.

Bares descolados, restaurantes charmosos e pontos tradicionais, como o Mercado de San Miguel e o histórico restaurante El Botín prometem (e cumprem) farrinhas e refeições memoráveis, a hospedagem é bem em conta e você está a um pulo de quase tudo que interessa na cidade.

Calle del Cordón, uma das ruas mais antigas da cidade. Dizem que em um palácio desta rua San Isidro Labrador, padroeiro de Madri, trabalhou como criado
Nos tempos áureos da cidade, La Latina era onde vivia o povo de Madri, geralmente amontoado em casas de cômodos espremidas entre tabernas e corrales de comédias, os teatros de então. O nome do bairro é uma referência a Beatriz Galindo, uma mulher admirável que, em pleno Século 16, lecionou na prestigiada Universidade de Salamanca e notabilizou-se por seus conhecimentos filosóficos e de medicina.

La Latina foi professora de Isabel de Castela, outra mulher fundamental na história da Espanha — por falar nisso, um dos meus programas preferidos é passar pela livraria feminista Mujeres de Madrid, que fica na vizinhança, e garimpar obras escritas por mulheres, sobre mulheres.

A Plaza Mayor e a Calle de Toledo. 
Ao fundo, as torres da Colegiata de San Isidro
Meu roteiro pela Madri dos Áustrias (referência à dinastia dos Habsburgos, de origem austríaca, que reinou na Espanha nos séculos 16 e 17) geralmente começa pela Plaza Mayor.

Não canso de admirar a harmonia daquele conjunto, o retângulo imenso cercado pela imponência dos edifícios, que é humanizada pelos toques domésticos que escapam das centenas de janelas (sim, mora gente lá!), a elegância dos altíssimos arcos que conectam a praça ao movimento da cidade. A única coisa que se deve evitar na Plaza Mayor é sucumbir aos restaurantes locais, geralmente caros e bem sofríveis. 

O interior da Colegiata de San Isidro, 
erguida no Século 17 pelos jesuítas 
Saindo da praça pelo Arco de Toledo, uma curta caminhada leva à Colegiata de San Isidro, igreja consagrada ao padroeiro de Madri.

Gosto muito do interior da igreja, em um barroco ainda contido. Apesar da importância histórica, a Colegiata não parece uma atração turística, frequentada por moradores das redondezas, geralmente mais idosos. Por isso, é importante guardar discrição, não sair disparando fotos, perturbando as orações. Em troca, o visitante vai se sentir quase de casa, em um ambiente aconchegante, apesar de sua grandiosidade.

O Pazadizo de San Ginés hoje abriga banquinhas de livros.
Lá no fundo (sob o toldo verde),
funciona uma chocolateria muito tradicional
Na direção oposta da Colegiata, saindo da Plaza Mayor, fica San Ginés, outra igreja importante no Século de Ouro - e com uma das histórias mais curiosas. Para chegar lá, saia da praça, atravesse a Calle Mayor e desça a Calle Bordaderos até encontrar uma vielinha, o Pasadizo de San Ginés.

No Século 17, essa área era o refúgio de todos os espadachins de aluguel, prostitutas e batedores de carteira de Madri (um equivalente ao Patio de los Naranjos de Sevilla, na mesma época), que se beneficiavam do Direito de Santuário (garantia de não ser preso, quando se estava em solo sagrado) oferecido pela paróquia. Nas madrugadas, eles deixavam o abrigo e enxameavam pelo velho callejón (beco, viela) fazendo negócios e vendendo seus serviços.

Igreja de San Ginés
Hoje, a área é muito pacata, com banquinhas de livros novos e usados. Bem no cotovelo do Pasadizo fica a tradicionalíssima Chocolateria San Ginés, uma espécie de catedral do chocolate com churros, fundada no final do Século 19. A parada é obrigatória.

Depois, siga até o final da rua, para ver a Igreja de San Ginés. O culto ao santo francês é realizado neste local desde o Século 11, mas o edifício atual é do Século 17 e chegou a ser usado por forças Republicanas como alojamento, durante a Guerra Civil Espanhola. Tente ir lá num sábado, para ver A Expulsão dos Vendilhões do Templo - espetacular, como tudo que foi pintado por El Greco.

Conventos das Descalças Reais, fundado pela irmã de Felipe II
No roteiro pelo Século de Ouro, Madri sempre me prega uma peça: jamais consigo acertar o horário de visitação do Monastério de las Descalzas Reales, o convento fundado por Juana de Áustria, irmã de Filipe II e mãe do rei português D. Sebastião — aquele da Batalha de Alcácer-Quibir, que virou lenda e cujo retorno foi aguardado por gerações de portugueses, transformados em súditos da Espanha por conta de sua morte.

O problema de las Descalzas é que ele só pode ser visto em visitas guiadas. Toda vez que chego lá, desanimo de esperar a próxima saída (e tem tantas coisas tão lindas quanto no entorno, que eu sigo adiante). O convento é famoso pelas obras de arte que guarda e pela suntuosidade de seus salões - é a única atração paga citada neste roteiro: a entrada custa €6.

O Palácio de Santa Cruz, antiga prisão da Inquisição
Seguindo a trilha do Século de Ouro, também é bacana dar uma passada pela Plaza de Villa, que foi o centro nervoso de Madri nos seu primeiros anos como capital, ainda no reinado de Filipe II.

Três belos edifícios chamam a atenção na pequena praça: a Casa de la Villa (Século 17) antiga sede do Ayuntamiento (o governo local), a Casa de Cisneros (Século 16) o Palácio de los Lujanes (Século 15), apontado como uma das construções mais antigas da cidade ainda de pé.

Caminhar pela Madri dos Áustrias é tropeçar o tempo todo em referências. Calderón de la Barca viveu nesta casa, no nº61 da Calle Mayor
Do ladinho da Plaza Mayor fica o Palácio de Santa Cruz, que até o Século 18 foi uma prisão onde mofaram muitos dos perseguidos pela Inquisição, antes de arder nas fogueiras dos autos de fé realizados na grande praça madrilenha. Hoje, é sede do Ministério da Relações Exteriores da Espanha.

A Porta do Sol mudou muito ao longo do tempo e perdeu aquele que foi seu edifício mais importante durante o Século de Ouro, o Convento de San Felipe el Real. O mosteiro era patrocinado por muitos poderosos da época, mas sua relevância para a vida social madrilenha não decorria de sua função religiosa, e sim do que acontecia do lado de fora, em suas escadarias, que abrigavam o mais importante Mentidero de Madri.

Porta do Sol: 
no Século 17, o Facebook era ao vivo e funcionava aqui
O mentidero é uma instituição tipicamente espanhola, um lugar de encontro, troca de notícias, opiniões e mexericos ( o termo tem origem no verbo mentir). Uma espécie de Facebook da época. Ali se estreitavam relações, se faziam contatos e negócios. Era absolutamente impossível enturmar-se em Madri sem frequentar as Escadarias de San Felipe. Era lá que os artistas encontravam patronos, que os candidatos aos favores reais buscavam apadrinhamento. Um lugar que fazia e destruía reputações.

Hoje, o edifício mais famoso da Porta do Sol é a Casa de Correos, com seu famoso relógio que marca as badaladas do Ano Novo.

A Casa de Lope de Vega, no Barrio de las Letras
O ponto alto do meu último passeio pelo Século de Ouro foi a visita à Casa Museu de Lope de Vega. Lope é considerado o grande precursor da comédia espanhola e vivia em uma huerta (uma espécie de chácara) em uma região que, no Século 17, ficava afastada do Centro de Madri.

Hoje, a área é o Barrio de las Letras (Bairro das Letras), no caminho entre a Porta do Sol e o Passeio do Prado, e que ganhou este nome pela profusão de escritores geniais que viveram lá (Cervantes e Quevedo, só para citar mais dois).

Veja também esse roteiro muito legal: Um passeio no Barrio de las Letras

Lope de Vega é um personagem interessantíssimo. Dedicou-se com raro brilho a praticamente todos os gêneros literários, escreveu mais de 1.500 peças de teatro e era um pop star do Século de Ouro. Era um tremendo namorador, mas ordenou-se sacerdote. Era paparicado pelos poderosos, mas amargou um exílio. Foi soldado, intelectual e mundano.

Lope e Cervantes, na Biblioteca Nacional de Espanha. À direita,o Convento das Trinitárias Descalças, onde vivia enclausurada a filha favorita de Lope de Vega
Sua filha preferida tornou-se freira enclausurada nas Trinitárias Descalças, convento que fica a poucos passos da casa do pai, e eles passaram anos conversando apenas por cartas. Quando ele morreu, a cortejo fúnebre parou diante de uma janela do convento para que Sor Marcela pudesse se despedir.

A Casa de Lope sofreu algumas alterações ao longo do tempo, mas ainda conta muito sobre a história de seu ilustre morador e sobre o modo de vida do Século 17.

A visita guiada é uma viagem deliciosa por momentos grandiosos e por peculiaridades domésticas daquele tempo. Os ambientes têm mobiliário e objetos de época (naturalmente, não são os originais que pertenceram a Lope), que são percorridos enquanto a guia vai contando casos e contextualizando-os na História da Espanha. Adorei!

Leia também: Casas-Museus, a vida cotidiana de gente muito especial

Índice com todos os posts sobre museus e sítios arqueológicos publicados aqui na Fragata

A Cava Baja é ligada à Plaza Mayor pelo mais famoso arco da praça, o de Cuchilleros
Jamais consegui explicar o meu carinho especial por Madri (se eu fosse mística, falaria de encarnações). Claro, a cidade é uma delícia, animada, bonita, com museus fantásticos e uma cozinha de rasgar a roupa. Mas sou capaz de citar outros 100 lugares do mundo que se adéquam à descrição e não chegam nem perto da capital espanhola no meu afeto: Madri me comove.

Talvez se ela fosse ainda a capital daquele império, não me despertasse essa ternura — sou daquelas que torce para os índios, mesmo que o mocinho seja Gary Cooper. Acho que quem me toca, mesmo é o povo madrileño, sempre alijado do esplendor, mas que, na hora H, foi quem escreveu as partes mais bonitas da história, como no levante de 1808, contra as tropas napoleônicas, e na resistência obstinada e quase eufórica da Guerra Civil. Madrid, te amo!


Altares da Colegiata de San Isidro
Dicas Práticas

Um guia bacana para percorrer a rota do Século de Ouro é o livro de Juan Eslava Galán Viaje a los Escenarios del Capitán Alatriste, da Editora Aguilar (já falei dele aqui). Além de listar e descrever os principais monumentos da Madri dos Áustrias, o autor oferece todo um contexto histórico pelos lugares frequentados pelo famoso personagem da série de livros de Arturo Pérez-Reverte (sim, sou fã assumida do capitão, apesar de implicar com as posições políticas de seu autor).

Alatriste é um soldado pobre alistado na poderosa infantaria espanhola do Século 17, os famosos Tércios, que foi uma das grandes responsáveis pela manutenção do poderio do "império onde o sol nunca se punha". Além das batalhas regulares, ele se mete em todo tipo de aventura, de onde sempre sai esfolado, quebrado e mais sarcástico em relação à sua época e sua vida. 
 
Onde me hospedei
Hostal la Macarena - Cava de San Miguel nº 8


Minha "casa" na última passagem por Madri
Escolhi essa hospedagem a partir de uma dica do blog Turomaquia. Amei a localização, a dois passos do Arco de Cuchilleros, acesso à Plaza Mayor, em uma região lotada de bares e restaurantes interessantes e ao ladinho do Mercado de San Miguel.

O quarto single do Macarena é pequenininho e não fui premiada com um dos belos balcões que você vê na foto (o meu balcãozinho dava para o interior do prédio), mas a cama era confortável e o banheiro tinha um tamanho bem razoável. O quarto conta com as comodidades básicas (TV, secador de cabelo, calefação, etc).


A recepção funciona 24 horas, o Wi-Fi é gratuito e funciona bem direitinho. As diárias no single, em janeiro, custaram €50. Agora em agosto, o quarto single, com varanda e vista para a cidade, está custando €39 por noite.

Hospedagem comentada – índice reúne todos os posts sobre o tema publicados no blog



Endereços

Libreria Mujeres de Madrid - Calle San Cristobal nº 17. De segunda a sexta, das 10h às 14h e das 17h às 20h. Aos sábados, das 10 às 14h.

Colegiata de San Isidro - Calle de Toledo nº 37. Diariamente, das 8:30h às 12:30h e das 18h às 19:30h. Entrada gratuita.

Igreja de San Ginés - Calle Arenal nº 17. De segunda a sábado, das 9:30h às 13h e das 18h às 20h. Domingos, das 18h às 20h. Aos sábados tem visitas guiadas ao rico acervo de pinturas e para ver a obra de El Greco. Entrada gratuita.

Plaza de la Villa – Visitas guiadas gratuitas à Casa de la Villa, às segundas-feiras, às 17 horas. A Casa Cisneros e o Palácio de los Lujanes não estão abertos ao público.

Casa Museo de Lope de Vega
Calle Cervantes nº 11 (Metrô: Puerta del Sol, Anton Martin ou Sevilla)

De terça a domingo, das 10h às 15h. Entrada gratuita. Na alta estação turística, é recomendável fazer reserva. Permite apenas visitas guiadas em espanhol, inglês e francês, iniciadas a cada meia hora e com duração de 45 minutos (a última começa às 14 horas).

Os grupos têm no máximo 10 visitantes. Para reservar, ligue para 91 429 92 16 ou mande um fax para 91 429 26 01. É um programa imperdível! A casa também promove atividades culturais como palestras, leituras e encenações teatrais e sessões de cinema. 

Uma tentação de livraria, na Travessia de Arenal,
quase esquina da Calle Mayor
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A Espanha na Fragata Surprise
Andaluzia: Cádis, Córdoba, Granada, Ronda e Sevilha
Castela e La Mancha: Toledo
Catalunha: Barcelona, Girona e Tarragona
Galícia: Santiago de Compostela, Caminho de Santiago e cidades da rota


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