domingo, 1 de setembro de 2013

Londres:
Teatro Globe e a trilha de Shakespeare

Teatro Globe: o palco pode tudo
Que me perdoem os grandes monumentos de Londres (todos majestosos, impressionantes e imperdíveis). Mas, de todos os roteiros históricos que fiz na cidade, o que achei mais empolgante tinha quase nada de pedra e cal, pouquíssimos traços palpáveis. E, mesmo assim, foi o que me fez viajar mais longe. 

O roteiro guiado organizado pelo The Globe Shakespeare's Theater por alguns quarteirões do bairro de Southwark — o reduto das atividades de entretenimento na época elisabetana — responde com precisão à pergunta do bardo, o homenageado dessa caminhada: "Pode esse palco conter os vastos campos da França?" Pois eu respondo: a arte do palco pode tudo.

Só o teatro permite que a gente tenha a sensação de visitar outra era, mesmo quando caminha entre quase nenhum vestígio físico do tempo evocado. Há pouco mais para ver além do antigo assento de pedra onde os barqueiros aguardavam passageiros para a travessia do Tâmisa ou das fundações do teatro The Rose original, encontradas no porão de um antigo armazém transformado em edifício de escritórios. Mesmo o Globe, majestoso na beira do Tâmisa, é uma reconstrução de 1977.

 O porão onde foram encontrados os vestígios do Rose agora é usado para apresentações teatrais, enquanto a tecnologia não cria um modo seguro de prosseguir com as escavações — o solo da região é muito úmido, dada a proximidade com o rio.

Foi Henrique VIII quem confinou todos os divertimentos menos elegantes de Londres na margem Sul do Rio. Brigas de cães e de galos, exibições de ursos ferozes, jogos de azar e o teatro  ganharam um lar em Southwark. O Globe, de Shakespeare, foi criado em 1599. O Rose, em 1587

O novo Rose: os vestígios do teatro original foram encontrados no subsolo deste edifício, durante escavações para a construção de uma garagem. À direita, um assento de pedra destinado aos barqueiros que faziam a travessia de pessoas entre as margens do Tâmisa
O local do Globe original, a 200 da margem do rio, é assinalado por marcos de bronze no estacionamento de um prédio de apartamentos. O local não poderá ser escavado, devido à tecnica utilizada para a construção das fundações do edifício moderno.

Boa parte do encantamento da visita ao Globe e do tour oferecido pelo teatro pelas ruas de Southwark deve-se ao esforço visionário do ator americano Sam Wannamaker, que levou 60 anos pesquisando e angariando apoios para reerguer The Globe Shakespeare's Theater, mantendo viva a memória da casa de espetáculos da qual Shakespeare foi sócio e onde apresentou muitas de suas obras.

Além de ser uma reprodução muito cuidadosa do Globe original, a instituição é um respeitado centro de estudos do teatro elisabetano. Enquanto caminhamos por Southwark, a narrativa do nosso guia/ator constrói com habilidade o contexto histórico, as tramas políticas, os detalhes da vida cotidiana e até as fofocas e rivalidades entre as companhias teatrais — uma espécie de predecessoras dos times de futebol, despertando paixões tão descabeladas no público que até resultavam em batalhas campais entre as "torcidas".

A região de Southwark, onde está o Globe, muito animada

Respondendo à pergunta de Shakespeare que citei no começo do texto (feita no prólogo de Henrique V), não há limitação de cenário que uma história bem contada não consiga vencer. Em qualquer palco— uma carroça primitiva, um tablado mambembe ou as ruas movimentadas de um bairro cheio de concreto do Século 21 — cabem não apenas os campos da França, mas uma época inteira, com todas as suas paixões, tramas e personagens. A força da narrativa faz maravilhas com a imaginação do expectador. Eu caminhei por Southwark vendo os cenários elisabetanos.

Depois da visita ao Globe, aproveite o fim de tarde em Southwark - repare que as duas amigas estão dividindo uma garrafinha de vinho
O novo Globe abriga apresentações teatrais (Shakespeare predomina, mas não é absoluto no repertório) e um pequeno museu, onde o visitante tem a sensação de percorrer os bastidores de um teatro do Século 16. Lá estão os teares e ferramentas de costura para a confecção de figurinos, a marcenaria para a construção de cenários e adereços e muita informação sobre a época.

Durante as manhãs (e também nas segundas-feiras à tarde, quando não há espetáculos nem ensaios), a visita guiada é feita no Globe mesmo. Quando o palco está ocupado, um guia/ator leva os turistas por alguns quarteirões intimamente ligados à história de Shakespeare e seus companheiros de ofício, culminando com uma parada no novo The Rose — que era um dos grandes rivais do Globe.


 Os poucos vestígios físicos deixados pelas casas de espetáculo devem-se primeiramente à técnica construtiva usada nos teatros elisabetanos. Ainda herdeiros de uma vocação mambembe do entretenimento, eles tinham uma característica meio temporária, erguidos a partir de uma trama de traves de madeira preenchidas com algo parecido com o adobe e cobertos de palha. Se o público escasseasse, ou se as perseguições políticas e religiosas recomendassem, era só “desmontar o circo”, recolher as traves de madeira e partir para outro lugar.

Além do uso de materiais mais perecíveis, o solo encharcado de várzea de rio de Southwark também deu sua contribuição para que muito pouco ficasse dos velhos teatros.

Uma pena é que a visita guiada ao Rose só é oferecida em inglês. Para quem domina medianamente o dioma, eu arrisco dizer que esse é um programaço, que ficará ainda mais interessante de o visitante se programar com antecedência e já tiver o ingresso para ver a apresentação de um texto de Shakespeare no Globe, depois da caminhada.


The Globe
21 New Globe Walk, entre a Millenium e a Southwark Bridge
A exposição pode ser vista diariamente, das 9h às 17:30h (às segundas, fecha 30 minutos mais cedo). A visita guiada ao teatro é realizada a cada meia hora, geralmente pela manhã, para não atrapalhar os ensaios e as apresentações. Quando o palco do Globe está sendo usado para essas atividades, é oferecido o tour ao Rose, que foi o que eu fiz e adorei. O ingresso combinado para a exposição e o tour custa £13,50.

Museus e sítios arqueológicos todos os posts da Fragata

Inglaterra - todas as dicas - post índice




Curtiu este post? Deixe seu comentário na caixinha abaixo. Sua participação ajuda a melhorar e a dar vida ao blog. Se tiver alguma dúvida, eu respondo rapidinho. Por favor, não poste propaganda ou links, pois esse tipo de publicação vai direto para a caixa de spam.
Navegue com a Fragata Surprise 
Twitter     Instagram    Facebook    Google+

4 comentários:

  1. Que legal, Cyntia! Eu ADORO o Globe, já fui na exposição pelo menos três vezes, já assisti duas peças lá, mas nunca dei a sorte de pegar esse tour que você foi! Sempre pego o que vai dentro do Globe, que também é o máximo. Bem, agora fiquei na vontade. Quem sabe na próxima vez que eu for a Londres? hehehe :)

    ResponderExcluir
  2. Excelente! Enviarei, mais uma vez, o site por e-mail, aos amigos literatos. Ótimas dicas.

    ResponderExcluir
  3. Nem sabia dessa alternativa do tour pela região rs. Quando fui, fiz o tour "normal" mesmo, que é ótimo!!!

    ResponderExcluir
  4. Pois é, meninas, eu "dancei", porque decidi visitar o Globe à tarde e não pude ver o teatro por dentro, mas o fiz o tour do Rose e me diverti pra caramba.

    ResponderExcluir