domingo, 15 de julho de 2012

O trem azul para o Caraça


As montanhas de Minas, no caminho para o Caraça
Entre todas as combinações possíveis sobre a face da terra, as minhas preferidas são acarajé com coca-cola, cinema com chuva e trem com montanhas. A primeira só dá para curtir em Salvador, a segunda é a cara de São Paulo. A terceira vai ser, para sempre, a minha melhor lembrança de Minas Gerais.

Fazia um tempão que eu queria conhecer o Santuário do Caraça e fiquei empolgadíssima quando descobri que podia fazer parte do caminho até lá de trem, pela Ferrovia Vitória- Minas, administrada pela Vale. Fiz a viagem no feriadão de Maio e amei. São quase duas horas entre a Estação Ferroviária de Belo Horizonte, um belo edifício neoclássico, e a Estação de Dois Irmãos, no município de Barão de Cocais. Depois, é preciso seguir de carro até o Caraça.

O trem na plataforma, ainda em BH
O interior de um vagão da classe econômica
e o trem atravessando a periferia de BH
O percurso de trem é maravilhoso, entre as curvas das montanhas, atravessando pontes sobre os abismos ou  vales muito verdes. O relevo de Minas sabe desenhar um horizonte sempre espetacular, ainda mais sob o sol da manhãzinha e o céu profundamente azul que ganhei de presente naquele dia. 

O Santuário do Caraça ocupa uma área de mata muito bem preservada, uma Reserva Particular do Patrimônio Natural - RPPN, entre os municípios de Santa Bárbara e Catas Altas. Chegar aqui sem carro não é simples, mesmo para quem vem direto de Belo Horizonte, mas o passeio vale a pena. 

O Parque do Caraça tem cachoeiras, trilhas na mata e uma simpática e população de lobos guará que gostam de aparecer à noite e passear pelo adro da igreja, para alegria dos hóspedes do santuário. 

Santuário do Caraça: 
bom para quem gosta de História e de natureza
Os visitantes do Caraça são uma curiosa mistura de trilheiros, praticantes de esportes de aventura, grupos religiosos e gente como eu, que não resiste a meia dúzia de metros quadrados de pedra e cal com mais de 200 anos de idade.

Até dispensei a trilha para a cachoeira, na esperança de conseguir visitar a biblioteca, sem sucesso. O quase legendário acervo de sofreu um baque considerável, no incêndio de 1968. Ainda assim, 15 mil títulos foram salvos pelos padres e pelos alunos, que enfrentaram o fogo para resgatá-los. Hoje, o Caraça se orgulha de abrigar pelo menos 2.500 obras raras, que atraem pesquisadores de diversas instituições.

A primeira visão do antigo internato,
de um mirante na entrada do parque
A história do Caraça começou em 1774, quando o irmão Lourenço construiu uma capelinha próxima a uma bocaina (passagem) na Serra do Espinhaço. Dizem que o irmão era um sobrevivente da Família Távora, dizimada, por ordem do Marquês de Pombal, após um atentado contra o Rei de Portugal, D. José I. Ele teria fugido para o Brasil e iniciado uma vida meio eremita (não sem razão...) em meio a uma paisagem pra lá de celestial.

No Século 19, o local foi ampliado e transformado num famoso colégio interno, terror de algumas gerações de jovens abastados -- "Comporte-se, ou eu te mando para o Caraça"-- até o incêndio.

Depois do incêndio, as alas danificadas foram reforçadas com estruturas metálicas e revestimento em vidro. O contraste arquitetônico com o restante do conjunto é bem interessante
A igreja tem feições neogóticas...
... e uma Santa Ceia pintada por Mestre Ataíde
A igreja neogótica tem um belo órgão de tubos e uma Santa Ceia de Mestre Ataíde. A parte mais interessante das construções é o refeitório, imenso salão onde a diversidade de interesses dos visitantes desfila na hora do almoço. A fila do bandejão é uma democrática mistura de ciclistas vestidos a caráter com senhoras agarradas a seus terços e famílias que tiram fotos de tudo.

A comida é simples e saborosa: feijão, arroz, franguinho, salada... A azedinha é a estrela da casa. Já falei dela em outro post. A ambrosia da sobremesa mereceu bis. Depois disso, só faltou uma rede e um livrinho, mas isso fica para a próxima visita.

Os jardins santuário
Dicas práticas
A paisagem da reserva em torno do santuário
A região está no antigo Caminho do Ouro, ou Estrada Real. à direita, um marco miliário de 1881
Como chegar
O Caraça fica a 120 quilômetros de Belo Horizonte e está aberto à visitação diariamente, das 8h às 17 horas. O jeito mais fácil de chegar é de carro, mas também é possível ir de ônibus até Santa Bárbara (Viação Pássaro Verde) e lá contratar um táxi para percorrer cerca de 30 km. O roteiro com o trem, porém, é imbatível.

O santuário oferece oferece hospedagem, a partir de R$ 143 a diária, com pensão completa.

Como ir de trem
A estação de Barão de Cocais 
O trem BH-Vitória parte diariamente às 7:30h (é preciso chegar 30 minutos antes). Até a Estação Dois Irmãos, em Barão de Cocais, a passagem custa R$ 12 na classe econômica, que é bem confortável (considerando-se o aperto das classes econômicas dos aviões, o espaço entre as poltronas é um senhor latifúndio).

Tem uns vagões mais chiques, tipo classe executiva, mas o público da econômica — pessoas simples, que recorrem ao trem como alternativa mais barata de transporte — dão um calor especial ao percurso, compartilhando o lanche, puxando papo, contando histórias e chamando a atenção para cada localidade que aparece na janelinha.

Vitral e o órgão da Igreja do Caraça
O trem tem vagão restaurante, mas pode ser boa ideia levar um farnelzinho mais caprichado, porque o repertório dos carrinhos que passam vendendo sanduíches, refrigerantes e salgadinhos é muito sem imaginação.

É complicado seguir de Dois Irmãos até o Caraça. A Estação fica bem no meio do nada, é essencial contratar previamente um transporte para continuar a viagem. As agências de BH oferecem roteiros para lá. Fiz o passeio com a Primotur, que cobra R$ 165 pelo pacote, incluindo o transporte até a estação ferroviária, a passagem de trem e o resto do percurso em Van ou carro de passeio, além do almoço no Caraça e caminhada pelo parque com banho de cachoeira.


Estação Ferroviária de Belo Horizonte- Praça da Estação s/n – Centro. Fone: (31) 3273-5976. Mesmo quem não vai viajar de trem deve dar uma passadinha para ver o belo edifício neoclássico, da década de 1920, e a antiga Serraria Souza Pinto, transformada em espaço para eventos culturais. A Praça da Estação passou por um processo de revitalização que valoriza o conjunto de prédios da área.





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9 comentários:

  1. Cyntia, não estou conseguindo acessar aos post de Santiago. Passei só pra te avisar...

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    1. Estou trocando algumas fotos, Nívia. Daqui a pouco eu republico. Valeu, bj

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  2. Estive no Caraça em 2001 com amigos da faculdade e adoramos fazer trilhas por lá. Um dos meus bisavós (ou tataravós? - não tenho certeza) estudou no colégio interno lá! Só li esse seu post depois que publiquei no meu blog sobre o Caraça, mas estou atualizando agora mesmo com link pra esse post!!: http://taindopraonde.blogspot.com.br/2013/10/cidades-historicas-mineiras-em-um-feriado.html

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  3. Na verdade, você pode desfrutar de um delicioso Acarajé com Coca-cola num barzinho na entrada da cidade de Santa Bárbara. Acarajé de verdade, feito por um baiano! Quem for visitar Santa Bárbara, vale a pena conferir!

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  4. Adorei!!! Vou fazer o passeio! Já conheço o lugar, já andei no trem da vale. Mas quero ir pro santuário de trem...rss

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    1. Vale a pena, o caminho é muito bonito. Só não esqueça de amarrar direitinho o transporte de Barão de Cocais até o Santuário, porque eu não vi movimentação de táxi ou outra alternativa na estação. No mais, aproveite!! :)

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  5. Quem quiser pagar barato e chegar rápido ao Caraça pode pegar um mototáxi em Barão de Cocais; o"meu chofer" tem o apelido de Mil e Um, é gente muito boa, e a moto dele é muito confortável.

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    1. Legal, Paulo. Mas como é que a gente faz contato com o Mil e Um?

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