quarta-feira, 19 de dezembro de 2001

Foz do Iguaçu: o avesso do paraíso

A magia das Cataratas do Iguaçu
A primeira vez em Foz do Iguaçu a gente não esquece. Especialmente se der de cara com 43 graus de temperatura logo na saída do avião e em pleno caos de uma quase véspera de Natal, quando todos os sacoleiros do planeta  parecem ter corrido para cá, para "importar" bugigangas do Paraguai.

Meu interesse na azáfama pré-natalina é profissional: vim fazer uma reportagem sobre a “Operação Fim de Ano” da Receita Federal, e as conseqüências do arrocho do Estado sobre os sacoleiros que fazem a Ponte da Amizade parecer a Praça Castro Alves dos velhos tempos, numa terça-feira de carnaval. Com um pouco de sorte, tive uma folga para visitar as Cataratas do Iguaçu, mas o principal do meu roteiro trístico foi no avesso do paraíso.

A reportagem, publicada originalmente na revista Conexão Unifisco Sindical, está neste link:
Foz do Iguaçu: beco sem saída

O vapor que subia do asfalto quente cozinhava meu cérebro aos pouquinhos, no trajeto até a Delegacia da Receita Federal, para minhas primeiras entrevistas. Conversei com o delegado e vários auditores e técnicos. Eles descreveram uma cidade violenta, pólo de contrabando, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro — não faz muito tempo, uma longa investigação sobre Contas CC5 (contas bancárias destinadas ao envio de dinheiro para o exterior) colocou a cidade no mapa dos escândalos e das CPIs.

Apesar desse subterrâneo conturbado, a superfície em Foz é agradável (tirando o calor): uma cidade grande, com farta oferta de serviços, belas avenidas. Completamente diferente das cidades de fronteira convencionais. Se descesse do avião distraída, poderia achar que estava chegando a uma capital.

O depósito da Receita Federal é que me lembrou onde eu estava: o galpão está até o teto de mercadorias apreendidas, principalmente cigarros – falsificações de marcas brasileiras, marcas paraguaias de segunda linha ou mesmo produtos brasileiros legítimos, exportados sem pagamento de impostos e contrabandeados de volta ao país, para serem vendidos pela metade do preço por camelôs.

Mas tinha de tudo lá: motos, latas de leite em pó, bronzeadores, brinquedos...

Naquele dezembro de 2001, o turismo de compras superava em muito o movimento dos que vinham conhecer as inegáveis belezas da região. Todos os meus entrevistados bateram nesta tecla: a necessidade de disciplinar o tráfego de mercadorias na Ponte da Amizade, desestimular o "contrabando de varejo" e começar a atrair um turista mais "qualificado", que viesse gastar dinheiro na cidade e não em quinquilharias compradas em Ciudad del este.

(No momento em que atualizo este post (agosto de 2010), Foz do Iguaçu parece ter conseguido essa virada).

Meus entrevistados demonstraram sérias preocupações com a minha segurança. Achavam que a minha pauta não era das mais simpáticas. A violência em Foz, dizem, consegue aliar os riscos das grandes cidades — roubos, assaltos, sequestros — às ameaças que rondam qualquer fronteira clássica.

Mas não senti insegurança nas ruas, por onde andei à vontade. Desconfortável mesmo era caminhar na área da Ponte da Amizade, um tumulto sem fim. Impressionante a quantidade de motos — geralmente velhas, com o escapamento barulhento — levando compristas para o Paraguai.

E 43 graus nunca ficam impunes, ainda mais naquela umidade: um aguaceiro desabou no final da minha primeira tarde em Foz, derrubando postes e árvores e alagando várias ruas da cidade. Um pequeno acréscimo ao caos, mas que refrescou o ar e tornou a cidade muito mais apropriada à sobrevivência, nos dias seguintes.



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2 comentários:

  1. hmm.. acho bom eu me preparar para o calor então ;)
    parabéns pelo blog

    http://clicandoeviajando.blogspot.com.br/

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    Respostas
    1. Prepare-se mesmo, Isa. Foz é muito quente no Verão (pior que o Rio, rssss). Mas quando você estiver diante daquelas cataratas maravilhosas, recebendo o "chuveirinho", nem vai perceber o calor :)

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