30 de outubro de 2013

Paraná: rota dos tropeiros, rebeldes e colonos

Igreja Ucraniana em União da Vitória, Paraná
Típica igreja da comunidade ucraniana, dedicada a Nossa Senhora do Salete, na área rural de União da Vitória
Visitar o interior do Paraná é também encontrar uma História do Brasil que passa longe dos livros escolares e da memória do resto do País.

Na rota dos tropeiros, rebeldes e colonos, a gente descobre episódios que contribuíram de maneira decisiva para traçar a identidade da região, mas que permanecem alijados da historiografia maisntream (como se as realidades regionais não pertencessem ao Brasil).

São histórias como a da Guerra do Contestado (1912-1916) — conflito armado entre posseiros e pequenos proprietários de terras e grandes fazendeiros apoiados pelos governos locais e a União — do Cerco da Lapa e das diversidades enfrentadas pelos diversos grupos de colonos europeus que atravessaram o Atlântico e ajudaram a formar o Paraná.

Casarão histórico na cidade da Lapa
Casarão histórico na cidade da Lapa
Outro aspecto interessante é a tradição tropeira do Paraná, ainda muito presente em cidades como a Lapa e União da Vitória, ambas fundadas no caminho das tropas que começaram a desbravar os Campos Gerais e o Vale do Rio Iguaçu no Século 18.

Passei alguns dias percorrendo a rota dos tropeiros, rebeldes e colonos e encontrei um Paraná bem diferente do que aparece nos cartões postais. Veja as dicas e descubra você também esse pedaço da História do Brasil:

Lapa, Paraná, Caminho das Tropas
.Caminho das Tropas, antiga trilha de tropeiros, na Lapa
Lapa
Para padrões paranaenses, a Lapa é uma cidade antiga (pra quem é de Salvador, como eu, qualquer lugar fundado depois do Século 16 é um broto). Sua origem é uma povoação do Século 18, elevada à condição de cidade em 1872.

A cidade é fortemente marcada pela tradição tropeira é é boa opção de bate e volta a partir de Curitiba: só 50 km de distância.

Construções históricas na Lapa, Paraná, Igreja Matriz de Santo Antônio
A Igreja Matriz de Santo Antônio, de 1769, e um sobrado histórico da Lapa
A Lapa prosperou com o crescimento de importância da rota que ligava Viamão, no Rio Grande, a Sorocaba (SP), conduzindo as valiosas mulas que iriam ser vendidas na cidade paulista e cujo destino final era o transporte do ouro nas Minas Gerais.

Essa prosperidade legou à Lapa tem um belo casario do Século 19, onde se destacam o adorável Theatro São João, com galerias elisabetanas, e a Casa Lacerda.

Recriação teatral do Cerco da Lapa
"Tropeiros" e "legalistas" (abaixo) encenam os momentos decisivos do cerco da Lapa, episódio da Revolução Federalista de 1894
Passei apenas uma noite na cidade, mas o roteiro foi movimentado. Primeiro, assistimos a uma representação teatral do Cerco da Lapa.

O episódio, que é o maior orgulho local, foi recriado nas ruas com direito a cavalaria, canhões e trajes de época.

Recriação teatral do Cerco da LapaDurante o Cerco da Lapa, a cidade resistiu ferozmente às tropas federalistas, que se opunham à República, vindas do Rio Grande.

Combatendo desigualmente — os legalistas da Lapa não chegavam a 1 mil, contra três mil atacantes — eles resistiram a 26 dias de assédio, ao fim dos quais a cidade caiu por falta de munição e comida.

Theatro São João, Lapa, Paraná
A fachada do fofíssimo Theatro São João
Depois acompanhar a recriação da batalha, deu tempo de assistir a uma jam session do Paraná Jazz Festival, que estava rolando no Theatro São João.

A noite foi encerrada com um jantar típico tropeiro delicioso, onde conheci a fantástica quirera lapeana (tem um post todinho sobre os sabores do Paraná aqui no blog).

Paraná Jazz Festival, Theatro São João, Lapa, Paraná
As galerias elisabetanas do Theatro São João, da Lapa, onde assisti a uma apresentação do Paraná Jazz Festival, em cartaz na noite em que passei pela cidade
Lamentei profundamente ter passado apenas uma noite na Lapa. Acho que teria adorado explorar seu patrimônio arquitetônico e o antigo Caminho das Tropas, hoje a rua principal da cidade, uma simpática alameda arborizada que faz as vezes de ciclovia e pista de caminhadas.

Lapa, Paraná, Caminho das Tropas
A antiga trilha de tropeiros é hoje usada pelos moradores da Lapa para suas caminhadas matinais
União da Vitória
Às margens do Rio Iguaçu, na divisa com Santa Catarina, União da Vitória é a síntese desse Paraná de tropeiros, rebeldes do Contestado e colonos europeus.

Os imigrantes, principalmente ucranianos e poloneses, começaram a chegar à região no Século 19, estabelecendo colônias, encantando a paisagem com suas construções de madeira e contribuindo para fixar as bochechas rosadas como um dos estereótipos que nós, cá de fora, associamos ao Paraná.

Igreja ucraniana em União da Vitória, Paraná
Além do patrimônio histórico, União da Vitória também oferece opções de ecoturismo

cachoeira Cintura de Noiva, União da Vitória, Paraná
Esta bela mata de xaxins esconde a Cachoeira Cintura de Noiva, em União da Vitória, uma área de lazer nos arredores da cidade
União da Vitória, com cerca de 50 mil habitantes, vem fazendo um grande esforço para resgatar essa memória e essa síntese.

São iniciativas do poder público (a Prefeitura vem adquirindo os imóveis históricos ao longo da linha do trem, que corta a cidade, estopim da Guerra do Contestado e decisiva para o desenvolvimento da região) e de particulares.

Grupo folclórico ucraniano Kalema, de União da Vitória, Paraná
Apresentação do Grupo Folclórico Kalena no Cine Teatro Luz, de União da Vitória
A comunidade ucraniana de União da Vitória, por exemplo, mantém viva a tradição de seus antepassados.

Uma dessas iniciativas é o Grupo Folclórico Kalena, que ensaia e se apresenta no belo Cine Teatro Luz, um edifício art deco de cujo charme a cidade talvez ainda não tenha se dado conta.

A arquitetura dos pioneiros e dos colonos de União da Vitória também é preservada nas construções transplantadas, peça por peça, para o Parque Histórico Iguassu.

Moinho de colonos poloneses em União da Vitória, Paraná
Este moinho foi desmontado peça por peça e remontado no Parque Histórico de Iguassu. Pertencia a uma colona polonesa
Esse empreendimento tocado pelo casal Dago e Joana Wohel reproduz também uma trilha de tropeiros, cenários da Guerra do Contestado e uma moenda de erva mate, onde os visitantes podem conhecer todo o processo artesanal de beneficiamento da planta.

E como se come bem lá no Parque Histórico do Iguassu (sim, está no próximo post...).

Apresentação da Escola de Teatro e Cinema de União da Vitória
Espetáculo sobre a Guerra do Contestado apresentado pela Escola de Cinema e Teatro de União da Vitória
Outra iniciativa bacana em União da Vitória é a Escola de Cinema e Teatro dirigida pelo ator, diretor e cineasta Lício Ferreira.

O grupo ensaia nas praças da cidade e apresenta estudantes, moradores de periferia e trabalhadores rurais ao mundo das artes cênicas.

Casa de colonos ucranianos em União da Vitória, Paraná
Uma casa de colonos ucranianos original, remontada no Parque Histórico do Iguassu

Recriação de acampamento de tropeiros no Parque Histórico do Iguassu, União da Vitária, Paraná
Reconstrução de um acampamento de tropeiros no Parque Histórico do Iguassu
A Escola de Cinema e Teatro de União da Vitória atualmente encena um espetáculo que conta a história da Guerra do Contestado e conclama: "Não conteste o Contestado sem saber suas razões".

A Guerra do Contestado
Eu tinha ouvido falar muito pouco da Guerra do Contestado, um conflito entre trabalhadores rurais e latifundiários que, ao longo de quatro anos, teria causado a morte de oito mil pessoas, em sua maioria, camponeses.

Minha passagem pelas cidades da Lapa e de União da Vitória foi providencial para que eu aprendesse um pouquinho mais sobre esse pedaço da nossa história.

As razões e origens da Guerra do Contestado são muito parecidas com as de tantos conflitos contemporâneos: a concentração de terras e a exploração do trabalhador rural pelos coronéis. O estopim religioso aproxima o episódio da Guerra de Canudos.

Entre 1912 e 1916, a região conhecida como Contestado — faixa de terra disputada pelo Paraná e por Santa Catarina — foi sacudida por uma rebelião de camponeses que viviam em condições miseráveis e que encontraram seu líder em um pregador messiânico, o “monge” Zé Maria.

A desconfiança dos poderosos que os séculos de abandono instigou os camponeses a uma espécie de “guerra santa” contra uma ferrovia, cuja construção resultou na expulsão de grandes contingentes de posseiros das terras onde trabalhavam.

A Guerra do contestado também comprova que o Paraná — aquele estado que lembra o colega de classe “certinho”, de quem todo mundo inveja as boas notas, mas esquece de convidar para as festas — tem uma história muito mais movimentada e rica do que a gente imagina.

Os colonos no Paraná

Talvez a face mais conhecida do Paraná — e a que mais contribui para sua fama de "certinho", na visão eurocêntrica que acha que só há um jeito de ser civilizado — seja exatamente a que exibe os traços claros e corados dos colonos europeus.

Mas nem para os primeiros europeus do Paraná faltou uma boa dose de aventura.

Atravessar o Atlântico foi só o começo para italianos, alemães, ucranianos, poloneses e, já na segunda metade do Século 20, holandeses, os prósperos "novatos" nas levas de imigrantes. (O estado também tem uma significativa colônia japonesa).

Casa de colonos poloneses no Parque Histórico de Iguassu, União da Vitória, Paraná
Casa de colonos poloneses no Parque Histórico do Iguassu
A estranheza com a nova terra, as privações, a ajuda do governo que não veio (apesar da propaganda das empresas recrutadoras de colonos), a fome e as doenças foram a realidade cotidiana dos pioneiros entre os imigrantes que chegaram ao Paraná.

Uma das histórias mais tocantes é a do farmacêutico brasileiro Antiocho Pereira, que, cansado do descaso oficial, vendeu a casa e a farmácia para comprar remédios para uma comunidade polonesa assentada no município de Cruz Machado e acossada por uma epidemia de tifo, por volta de 1920. Antes da intervenção de Antiocho, 900 colonos já haviam morrido.

Moenda de erva mate tradicional, União da Vitória, Paraná
Moenda de erva mate no Parque Histórico de Iguassu
⭐Parque Histórico Iguassú
Essa reserva de 240 mil metros quadrados de mata é dedicada à memória da região Centro-Sul Paranaense fica a 29 km do centro de União da Vitória.

Imigrantes, tropeiros e a Guerra do Contestado são as estrelas de um roteiro talvez excessivamente cenográfico, mas tocado com muita paixão por Joana e Dago Wohel.

A área fica à beira do lago da usina de Foz do Areia e oferece passeios de barco (R$ 98 por pessoa) para a apreciação de algumas quedas d’água.

A principal atração é mesmo o farto almoço (veja este post) e as construções de madeira originais, feitas por colonos, transplantadas peça por peça, cuidadosamente numeradas e que consumiram, cada uma, cerca de um ano, na remontagem, como conta Joana Wohel.

O moinho polonês ainda funciona e as casas polonesa, ucraniana e alemã podem ser alugadas por hóspedes. A casa polonesa, com 103 anos de idade, pode abrigar mais de 20 pessoas e o aluguel para grupos custa entre R$ 320 e R$ 990.

Parque Histórico do Iguassu, União da Vitória, Paraná

Os roteiros históricos pelo parque custam a partir de R$ 30 por pessoa. Achei interessante a moenda de erva mate, que permite ao visitante acompanhar todas as etapas da produção, desde a queima das folhas até uma rodada de chimarrão.

União da Vitória fica a 240 km de Curitiba. Para agendar uma visita ao Parque Histórico do Iguassu, ligue para (42) 3523-1515. 

Estive em União da Vitória e na Lapa a convite da Cooperativa de Turismo do Paraná- Cooptur. O conteúdo do post, porém, reflete a minha opinião, formada a partir da experiência com o roteiro e os serviços testados ao longo da viagem.



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