terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

As fragatas-surpresa

Fragatas sobre a Lapa: hora do rush

Música deste post: Blackbird, Paul McCartney

Todo mundo vai à Lapa fazer farra. Eu ontem fui à Lapa fazer uma entrevista. Seis da tarde, trânsito infernal e calor de “derreter catedrais” — não sei se Nelson Rodrigues era habituée do bairro, mas era insuperável na precisão descritiva.

Adoro ver certos lugares na hora errada. Pode ser uma escola nas férias, praia no inverno ou botequim na hora da faxina. Aprendi essa mania ainda criança, quando existia a Festa de Largo da Pituba, o bairro onde cresci, em Salvador. Eu passava as tardes assistindo o pessoal do parque de diversões apertar os parafusos dos cavalinhos do Carrossel ou varrer o Trem Fantasma — uma vez pedi autógrafo a Tonga, a Mulher Gorila, que vinha carregada de sacolas do supermercado.

Igreja do Desterro da Lapa, do Século 18
Vendo a Lapa às seis da tarde — o bairro boêmio ainda de cara lavada, trepidando no ritmo dos ônibus furiosos — a sensação foi a mesma: antes das luzes e da musiquinha de realejo, eu estava vendo o lado prosaico do parque de diversões. Antes das luzes e da festa, o que se vê na Lapa são as marcas da fuligem, o lixo nas calçadas e as fachadas maltratadas pelo tempo.

Mas o bairro que carregou o nome de Areias de Espanha, quando ainda era uma prainha pacata, será sempre encantador, mesmo às seis horas da tarde. O sol caindo sobre a Igreja de Nossa Senhora da Lapa do Desterro, os Arcos no contra-luz e o céu apinhado de fragatas, fazendo sua hora do rush particular.

Fragatas no céu do Rio não são novidade. Todo dia, depois do trabalho, vou da estação do metrô até em casa de olho no céu, admirando as bichinhas. Na Lapa, porém elas são um espetáculo, uma multidão sobrevoando o bairro, a caminho do descanso, no Morro da Urca.

Ontem, inesperadas, fizeram a alegria de meu fim-de-tarde, com sua passeata interminável. Gosto dessas aves marinhas que não sabem nadar, não mergulham atrás dos peixes-- dizem que, se molhadas, encharcam e afundam com facilidade-- e conseguem o alimento com táticas de pirataria, atacando as presas coletadas por outras aves. Fragatas sequer conseguem levantar vôo de terrenos planos, daí seu hábito de dormir em poleiros e de se abrigar em penhascos, de onde se lançam aos ares. Mas como são elegantes lá no alto...

Parada na calçada do Beco do Rato, vendo uma Lapa desgastada e suja, tive uma happy hour de primeira, graças às milhares de fragatinhas enfeitando o céu. A boemia que me perdoe, mas, agora, só vou à Lapa às seis da tarde.


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3 comentários:

  1. Adorava trabalhar no Rio! Costumava passar três dias com o pessoal da secretaria da Educação - e vez ou outra, emendei o final de semana pra pegar praia. De manhã era sempre mais corrido, mas à tarde, pegava o frescão ali pertinho do Passeio Público e fazia meu passeio diário pela beleza - via Aterro até o hotel, no Leme ou em Copacabana. O Rio é deslumbrantemente belo, cotidianamente. Mesmo quando alguma chuva torrencial me retinha num pé-sujo da Cinelândia. Obrigada por me fazer lembrar, Cyntia.

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    Respostas
    1. Como não amar o Rio, né Maristela? Eu sinto muito falta de andar pela cidade, cuidando das coisas da vida, mas sempre com uma certa sensação de estar de férias, envolvida naquela beleza...
      Bjo

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