3 de maio de 2018

Paris: o Gentle Gourmet e a alta gastronomia vegana (sim, é possível)

The Gentle Gourmet, restaurante vegano que faz a felicidadea até dos onívoros

Por Bruno Santana, colunista de Gastronomia

Relacionamentos entre pessoas onívoras e vegetarianas/veganas trazem sua generosa cota de contratempos — especialmente quando uma das partes (ou ambas) tem como um dos grandes prazeres da vida a boa mesa e a busca por experiências gastronômicas memoráveis.

Se o dito casal está em Paris, a coisa fica ainda mais complicada: poucas cozinhas do mundo são tão hostis aos não-comedores de produtos animais quanto a francesa, com seus borbotões de manteiga, creme, banha e carne por todo lado. Se o dito casal não fala um pingo de francês além dos eventuais “bonjour” e “un croissant, s’il vous plaît”, então, a coisa já degringola completamente.

Minha viagem à Cidade Luz com Mila, minha então namorada (e hoje boa amiga), foi mais ou menos assim. Em meio à cacofonia de porcas traduções que tentávamos fazer para estabelecer o mínimo de comunicação com garçons e atendentes, minha companheira de viagem — que é totalmente vegana já há uns bons anos — teve que encarar boa parte das suas refeições com saladas sem molho, massas insossas ou sanduíches vegetarianos do Quick. Tudo isso mudou, entretanto, quando conhecemos o Gentle Gourmet.


O Gentle Gourmet, no Boulevard de la Bastille
À primeira vista, o restaurante não entrega em nenhum momento sua verdadeira proposta: até que você abra o cardápio, poderá pensar que está num bistrô chique de Paris como qualquer outro. Confesso que, para mim, essa foi uma surpresa e tanto — até então, minha experiência com restaurantes veganos tinha sido composta totalmente de locais alternativos, com um público que você sente ser cativo e basicamente imutável (inclusive, um exemplo delicioso desse tipo de local é o The Food Temple, em Lisboa, sobre o qual pretendo escrever em breve).

O Gentle Gourmet não é nada disso — a ideia é trazer aos comensais uma experiência autêntica (ou quase) da haute cuisine francesa, só que sem absolutamente nenhum ingrediente de origem animal.

Eu tinha minhas dúvidas, não vou negar — e saí totalmente surpreendido.

Bruschetta em pão de fermentação natural e cobertura de de falafel desconstruído com especiarias 
Em primeiro lugar, é preciso deixar claro: se você está procurando um lugar despretensioso e não muito caro, é bom procurar mais. Não fosse a equipe totalmente composta de jovens hipsters extensamente tatuados (muito simpáticos, apesar disso — e falantes de inglês, ainda bem), seria compreensível confundir o Gentle Gourmet com um clássico restaurante com estrela do pelo Michelin, considerando sua aparência externa discreta e a decoração sóbria, com cadeiras confortabilíssimas e louça sofisticada. É Vegan Chic que chama?

Em termos de comida, começamos a noite com uma bruschetta montada no (delicioso) pão de fermentação natural feito na casa; como cobertura, uma espécie de falafel desconstruído com especiarias — muito diferente dos bolinhos de grão de bico árabes a que estamos acostumados, a criação do Gentle Gourmet tem um leve sabor adocicado, talvez de cardamomo. Exótico, porém delicioso: eu lambi os dedos.

Esse risoto de funghi que me deixou boquiaberto
As coisas foram ficando ainda mais interessantes nos pratos principais. Pedimos (para compartilhar, claro) um risoto de funghi que me deixou boquiaberto: eu já tinha tentado reproduzir a iguaria em casa, mas nunca sequer sonhei em chegar àquele grau de untuosidade sem usar um grama de manteiga ou queijo. Não me perguntem como eles fazem, talvez seja mágica — o fato é que é divino.

O segundo prato principal foi um sanduíche de shitake com aspargos, tofu defumado (que lembra bacon de um jeito bem curioso) e um fantástico molho de ervas (veja na foto que abre este post). Há quem chame a criação de hambúrguer, mas como em matéria de hambúrguer eu sou um daqueles ortodoxos chatos, direi: o sanduíche estava excepcional, com um pão deliciosamente macio — de novo, veganos são excelentes fazedores de pão.

Melhor ainda estava a maionese vegetal, que, do fundo do meu coração, não deve em nada à versão com gemas; a memória  da combinação dela com as batatinhas douradas de acompanhamento ainda causa festa nos meus palatos de tempos em tempos.

As sobremesas, como este sundae desconstruído, quase me derrubam da cadeira de emoção
O gran finale, por sua vez, é totalmente digno dessa atribuição, pois foram as sobremesas que quase me derrubaram da cadeira, tanto pela sofisticação como pela aparente magia realizada pelo chef confeiteiro — quem já tentou se arriscar na cozinha vegana certamente sabe que os doces são a área mais polêmica, já que ingredientes absolutamente elementares (leite, nata, manteiga, ovo, até mel) estão fora da jogada.

A primeira, um sundae desconstruído com duas perfeitas quenelles de gelato de frutas vermelhas, chantilly de coco, farofa crocante de nozes e morangos. Se ela existisse apenas para ser vista, já estaria de bom tamanho, mas eu tenho o prazer de informar que o gosto estava tão bom quanto o visual. Quiçá melhor.

Um dos melhores macarons que já comi - as claras não fizeram falta
Antes que vocês chamem o sundae vegano de sobremesa impossível, entretanto, esperem até saber da próxima: um macaron gigante em formato de coração com recheio de pistache e kiwi e uma deliciosa calda de framboesa. Não seria um exagero dizer que é um dos melhores macarons que eu comi na vida (e eu comi muitos, acreditem)… e não tem um pingo de clara de ovo. Essa, sim, é a sobremesa impossível. E impecável.

A experiência no Gentle Gourmet não é barata: as entradas e sobremesas variam entre 10€ e 15€, enquanto os pratos principais giram em torno dos 25€. Vale, entretanto, pelo fator novidade e por desbravar uma área da cozinha além de fronteiras que eu julgava intransponíveis; para vegetarianos e veganos, então, é uma parada quase obrigatória em Paris.

The Gentle Gourmet
24 Boulevard de la Bastille 75012 Paris
De terça a domingo, do meio-dia as 14h30 e das 18h30 às 22h
(Nota: como o cardápio do restaurante muda sazonalmente, é possível que os pratos aqui descritos não estejam disponíveis durante a sua visita. O menu da temporada pode ser conferido no site deles.)

Leia mais artigos de Bruno Santana na Coluna de Gastronomia da Fragata

Comes&Bebes - índice com todos os posts sobre restaurantes, bares, cafés, pratos e bebidas citados no blog

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