quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

O Café de la Paix (ou: como erros também podem ser mágicos)

Paris depois da chuva é especial, como essa tarde no Jardin du Luxembourg
Por Bruno Santana

Uma coluna de gastronomia costuma trazer narrativas de experiências positivas — pratos que deixam o comensal sem fôlego, criações alimentícias excitantes ou simplesmente algum quitute provado numa esquina e que deixa a gente no chão. Às vezes, entretanto, as coisas não saem como a gente espera. É o caso da minha experiência no legendário Café de la Paix, em Paris: uma visita nada marcante do ponto de vista gastronômico, mas que permanece em minha memória por vários outros motivos.

É que minha visita ao célebre estabelecimento foi um acidente, dessas escorregadas de turista que resultam em suores frios e risos amarelos na hora, mas em seguida passam a reforçar o cardápio das histórias de viagem mais saborosas. O Croque Monsieur não foi nada de mais, mas uma ida ao Café de la Paix nunca será apenas uma pausa para o sanduba — por mais pedigree que ele tenha.

A cidade  vista do alto da Torre Eiffel
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Um pouco de contexto: estava em Paris com Mila, minha então namorada e, depois de três dias fantásticos, perdemos o nosso voo matinal para o Porto (uma dica: evite ao máximo o Aeroporto de Beauvais, a uma hora do centro da capital francesa, caso você tenha qualquer problema com pontualidade, por menor que seja). Conseguimos outro voo para a noite, mas nos vimos com mais um dia inteiro na Cidade Luz, sem teto e cheios de malas.

Agora é aquela hora em que o mocinho da comédia se vira para a câmera e diz "bom, poderia ser pior" e, em seguida, começa a chover torrencialmente. Por mais marquises que haja na cidade, não custou muito para ficarmos encharcados como se tivéssemos pulado numa piscina com roupa e tudo.

Quando a fome bateu, nossa indumentária pós-diluviana recomendava que sentássemos em qualquer fast food, mas meu preciosismo atacou naquele exato momento. Era minha última refeição em Paris, ora bolas! Eu precisava aproveitar. Resolvi, então, dar uma chance ao que parecia ser um pequeno bistrô próximo à Ópera Garnier. De fora, nada parecia indicar algo especial sobre aquele lugar, além do fato de que ele estava localizado no térreo de um belíssimo prédio histórico do Boulevard des Capucines.

O interior muito chique do Café de la Paix
Entramos, um pouco constrangidos pelo singelo fato de estarmos molhados até a medula, e fomos imediatamente recepcionados por um atendente simpático até demais, que prontamente pegou as nossas malas e as levou a um depósito especial. Foi aí então que eu comecei a notar que aquele não era um lugar qualquer: a decoração parecia digna de um verdadeiro e luxuosíssimo palácio, com suas colunas finamente adornadas, afrescos elaborados no teto, mesas e poltronas dignas de monarcas (sei que essa não é uma palavra muito bem-vinda na França, mas enfim) e porcelanas mais valiosas do que a minha vida.

Entretanto, nada foi tão preocupante para mim, um rapaz latino americano com muito pouco dinheiro no banco, como passar o olho brevemente pelo cardápio fixado no hall de entrada e concentrar-me na sequência de números do lado direito: 70, 60, 80, 75, 90, 120, 80… e assim por diante. No que eu fui me meter, pensei com meus botões.

Croque Monsieur, a pedida possível para
 um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco

Acomodado, finalmente pude perceber exatamente onde eu estava: no Café de la Paix, uma instituição sagrada de Paris, inaugurada em 1862, projetada por Alfred Armand (sob a supervisão do Barão Haussmann em pessoa) e ponto de encontro de personalidades que vão de Émile Zola a Tchaikovsky.

E lá estávamos nós — sem condições de gastarmos três dígitos numa refeição e, ainda assim, sem jeito (ou conhecimento suficiente de francês) para nos levantarmos, pedirmos nossas malas e sairmos de nariz empinado sem consumir absolutamente nada.

Pedi, então, um Croque Monsieur — ou, aos não-iniciados, a versão francesa do misto quente, coberta com molho branco gratinado e acompanhado de uma mini-porção de salada: 20 euros. Vejam bem, eu sou um fiel adepto da máxima do "quem converte não se diverte", mas não posso negar que ao longo das próximas horas (ou dias) meu grilo falante ficou berrando no fundo da minha cabeça que eu tinha gastado mais de R$80 (segundo a conversão do Euro na época, acima dos R$4) num misto quente glorificado. A julgar pelo preço, pelo menos, eu deveria esperar o rei dos Croque Monsieur, pensei.

Mais em casa em Paris: viva os cafés do Marais que não cobram 20 euros por um croque monsieur
Bom… não era. Não que estivesse ruim, mas eu comi exemplares melhores na França e até mesmo no Brasil. Na verdade, uma parte de mim já sabia disso antes mesmo do prato chegar à mesa, eu só não queria admitir — é a mesma lógica daqueles restaurantes caríssimos da Avenida Atlântica, no Rio, que cobram somente pela localização e para tirar dinheiro de turistas pouco experientes.

Por que diabos eu estou contando isso, então? Ora, simples: eu não mudaria uma vírgula do que aconteceu, se assim pudesse. Ao notar o ridículo da situação como um todo, nós simplesmente rimos; hoje, quase dois anos depois, cá estou eu relatando o ocorrido com a memória fresca como se tudo tivesse acontecido ontem.

Em outras palavras: obviamente, nem a melhor viagem do mundo vai escapar de ter seus momentos controversos, e nem o melhor crítico gastronômico do mundo (não que esteja me colocando nessa posição, obviamente) vai escapar de um erro de julgamento e pedir um prato medíocre num lugar cuja última preocupação é a comida.

Paris, quando dá pra chover, não tem piedade
Vocês terão que me desculpar pelo clichê, mas o segredo é rir disso tudo e transformar as experiências ruins em momentos positivos. Ah, e contra todas as expectativas, eu espero voltar, sim, ao Café de la Paix quando novamente pisar em Paris: na pesquisa para esse exato texto que vocês lêem agora, descobri que sua seção de pâtisserie tem até algum renome na cidade. Estão vendo como todos os males, eventualmente, vêm para o bem?

Café de la Paix
5 Place de l'Opéra, 75009, Paris
Todos os dias das 12h às 15h e das 18h às 23h30

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