domingo, 5 de novembro de 2017

San Blas, o Caribe panamenho

A praia na ilha de Perro Chico

San Blas (ou Kuna Yala, na língua local), é um paraíso que estava há muito tempo no meu radar. O arquipélago fica na Costa Atlântica do Panamá, tem águas cristalinas, praias de areia branquinha e pelo menos uma ilhota para cada dia do ano — são 365 “contabilizadas”, sem incluir os bancos de areia tão pequenininhos que comportam no máximo um coqueiro, como as ilhas desertas de desenho animado.

Um sonho caribenho que finalmente eu vi ao vivo e em cores (que cores!) na minha incrível primeira viagem à América Central.

Três horas de carro e mais meia hora de barco separam a Cidade do Panamá desse marzão
Como todo bom paraíso, San Blas cobra pedágio de sacrifícios para ser atingido. No caso do arquipélago panamenho, a dificuldade é organizar a viagem. Não há transporte regular até lá e as ilhas são exploradas turisticamente apenas pelo povo Kuna (que administra a região de maneira semiautônoma em relação ao Estado panamenho) e a comunicação pela internet nem sempre funciona.

Esses, porém, são percalços insignificantes, comparados ao prazer de mergulhar naquelas águas, relaxar naquelas praias e ficar hipnotizada com a beleza de San Blas. Veja como eu fiz para chegar lá, como é a viagem e o que esperar do Caribe panamenho:

As famosas estrelas marinhas de San Blas 
Um congresso de caciques (eles usam exatamente essa palavra para designar seus chefes/governantes) administra o território Kuna no Panamá. O tratado entre os indígenas e o Estado Panamenho foi assinado em 1938, depois de muita turbulência política.

Além das 350 ilhas e incontáveis bancos de areia, a autoridade indígena se estende ao continente, abrangendo uma área de floresta tropical preservada, totalizando cerca de 2,4 km².

Areia muito branquinha em Perro de Água
A coisa mais parecida com uma cidade que você verá por lá são as três comunidades assentadas nas ilhas maiores (que dá para atravessar a pé em cerca de meia hora), onde funcionam escolas, postos médicos e outros equipamentos. As demais ilhotas são administradas pelas famílias proprietárias.

Os Kuna adotam regras rígidas para preservar seu território e sua cultura. Estrangeiros (incluindo aí os panamenhos) não podem ter negócios em Kuna Yala e fazer sociedade com eles em qualquer empreendimento na área resulta em punições pesadas — ouvi um relato sobre uma ilha interditada por dois anos para exploração turística porque o patriarca da família proprietária aceitou dinheiro de um estrangeiro para investir em sua infraestrutura.

Essa comunidade é a coisa mais parecida com uma cidade que você encontrará por lá
San Blas é um destino perfeito para quem quer muito mar, praia e simplicidade. Prepare-se para encontrar apenas o básico—e quem precisa mais do que isso no paraíso?

Como organizei minha visita a San Blas
A Guia Panamá, que organizou meu city tour na Cidade do Panamá e visita ao canal, intermediou meu contato com Betsander, guia Kuna que atua no arquipélago. A agência providencia o transporte até o porto de embarque para as ilhas, onde ele recebe os passageiros e os transporta até às ilhas na lanchinha da família, pilotada por seu pai.

O cotidiano no paraíso
O pacote com traslado ida e volta entre a Cidade do Panamá ao porto, passeio pelas ilhas e duas refeições (café da manhã e almoço) custou US$ 168.

Betsander não tem site na internet, mas você pode checar o trabalho dele no Instagram, no perfil tours_emmanuel_kunayala (Emmanuel é o nome da lancha da família). O contato com ele pode ser feito pelo telefone (507) 67500388 ou pelo e-mail catemmanuel.gunayala@gmail.com


Algumas ilhas têm infraestrutura mais "sólida"
Como é a viagem
A partida para as ilhas é sempre muito cedinho, por volta das 5h da manhã — isso evita que o trânsito louco da Cidade do Panamá atrase ainda mais seu encontro com as águas cristalinas de San Blas.

O transporte é feito apenas em carros 4×4, os únicos com “fôlego” para vencer as subidas e descidas da serra que se interpõe no trecho final do caminho até o porto de embarque para as ilhas, na costa Norte do Panamá, já em terras dos Kuna.

O porto de embarque para as ilhas
Saindo da Cidade do Panamá, parte do trajeto é pela Rota Nacional 1 e depois por uma estradinha cheia de curvas, em área de floresta. Na entrada do território Kuna, é preciso apresentar identificação, como em um controle de fronteiras. No caso de estrangeiros não-residentes no Panamá, o único documento aceito é o passaporte em pessoa (nada de cópias).

Para evitar qualquer risco, o meu passaporte viajou protegido em uma bolsinha de mergulhador, à prova d’água. Documentos importantes e os respingos a bordo de barquinhos com motor de popa nem sempre têm encontros felizes...

A "sala de embarque" do porto Kuna
São cerca de três horas de viagem entre a Cidade do Panamá e o porto. É bom levar um suprimento de água e algo para comer no caminho, pois saindo às 5h da matina, você certamente não conseguirá tomar café da manhã no hotel. Se não conseguir comprar seu lanche na véspera, não se preocupe: é comum os carros pararem em um supermercado, na saída da capital, para que os passageiros reforcem o farnel.

Lá pelas 8h da manhã, você estará chegando a um atracadouro de onde partem lanchas para as ilhas de San Blas.

A bordo da lanchinha Emmanoel
Não espere um porto de cruzeiros: as instalações são muito simples — alguns barracos que servem de escritórios, um quiosque brigando a sala de espera e banheiros muito toscos, onde se cobra meio dólar pelo uso. A cor do mar na área do atracadouro é muito pouco caribenha.

Na chegada, os guias Kuna esperam os passageiros e providenciam o embarque nas lanchas. A travessia até Perro de Água, a ilha que serviu de base para a minha visita levou cerca de meia hora. De lá, seguimos em passeio até Perro Chico (Assudud, na língua Kuna, os dois s pronunciados como ch), ao banco de areia das estrelas do mar e uma ilhota desabitada que pertence à família de Betsander, meu guia.

Esse peixinho fez amizade com meu pé. Aonde um ia, o outro ia atrás 😊

Não esqueça de levar o snorkel
O almoço foi em Assudud, uma das ilhas mais cotadas entre os turistas por sua excelente praia de areia branquinha, bom restaurante e infraestrutura mais arrumadinha.

Bem pertinho da ilha, um navio afundado se converteu em um viveiro de peixinhos multicores, o que fez das ilha um excelente ponto para mergulho (os administradores da ilha me emprestaram o snorkel, mas, por via das dúvidas, leve o seu).

O navio naufragado virou viveiro de peixinhos coloridos
Por volta das 16 horas, voltamos ao porto, no continente, para pegar o carro de volta à cidade do Panamá.

Foi um dia espetacular, mas se você puder, fique mais tempo em San Blas.


O pier do porto Kuna

O que levar
O primeiro item da lista é bem óbvio: protetor solar — e muito. Repelente também é importante, especialmente se você vai pernoitar no arquipélago. Nas ilhas de areia, o vento até pode dar conta de afastar os mosquitos, mas, segundo os locais, nos trechos de manguezal a situação pode ficar insuportável, depois do pôr do sol. Aliás, na hora de escolher sua hospedagem, preste atenção a esse detalhe.

Lembre-se que você não está indo para um resort, portanto não espere encontrar itens de toalete nas acomodações. Monte uma nécessaire com os itens mais básicos (sabonete, lenços de papel, escova e pasta de dentes...). Leve uma boa toalha, também.

Será que eu estava curtindo meu banho de mar?

Emmanoel, a lanchinha que me transportou pelas águas de San Blas
É uma boa ideia levar um suprimento de frutas, água e outras bebidas, biscoitos e beliscos. As ilhas que recebem turistas costumam ter alguma espécie de bar, mas o preço é bem salgado.

Vai ser difícil encontrar tomadas para carregar o celular (que estará sem sinal a maior parte do tempo) e outros gadgets. Uma boa bateria externa e um carregador solar são itens importantes para quem vai passar alguns dias no arquipélago. Eu uso um carregador solar baratinho, que dá conta do smartphone e da GoPro.

Cabaninha típica de San Blas e meu café da manhã
Se levar pilhas descartáveis, não esqueça de trazê-las com você na volta: tente descartar o mínimo de lixo nas ilhas, para não sobrecarregar o sistema de coleta.

Como é a infraestrutura
Quem vai a San Blas precisa estar disposto e preparado para uma infraestrutura rudimentar (esqueça aquela ideia de “rústico-charmoso” que vendem por aí). A hospedagem oferecida na maioria das ilhas é em cabanas de palha, piso de areia e mais nada, só a cama.

A ilha Assudud

Ilha desabitada que pertence à família do meu guia em San Blas
Os banheiros são compartilhados (por todos que estão na ilha), bastante básicos, e é possível que não haja água corrente. Não usei chuveiro na passagem por San Blas, mas os viajantes que estavam hospedados em Perro Chico me falaram que a água do banho é salgada—seu xampu não vai fazer espuma de jeito nenhum.

A maioria das ilhas usa energia solar, que é destinada a fazer funcionar o básico, como as geladeiras das pousadas e restaurantes e a iluminação, à noite.



Conjunto de chalés para hospedagem em uma ilha de San Blas

A gastronomia em San Blas
Fiz duas refeições no arquipélago — café da manhã e almoço. A comida é muito simples, mas decente. Não espere refeições memoráveis, para o bem ou para o mal.

Meu desjejum em Perro Chico (ovos mexidos e panquecas) estava comestível. O almoço, peixe assado com molho à base de coco e tomate estava gostosinho.

O casal brasileiro que estava compartilhando a lancha comigo estava hospedado em San Blas e encomendava lagostas para o jantar aos pescadores locais. O restaurante da pousada se encarregava de preparar o prato. Uma farrinha assim custa a partir de US$ 20.


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