quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Comer em Salvador:
a tradição do Mini Cacique

Cozido do Mini Cacique: um patrimônio de Salvador
O Centro Antigo de Salvador é um fenômeno. Negligenciado, fora de moda e maltratado, consegue preservar algumas pérolas da tradição baiana, seja em pedra e cal, personagens ou sabores. É o caso do precioso Restaurante Mini Cacique, um dos velhos resistentes da boa mesa ainda de pé na cidade.

Se você gosta de comida saborosa, farta e a preços honestíssimos, precisa colocar o Mini Cacique na sua agenda — ele combina muito bem com um passeio pelo Centro Histórico e Pelourinho. Basta uma caminhadinha de 600 metros, descendo a Rua Chile, partindo do Elevador Lacerda.

A grande estrela da casa é o cozido, servido no almoço das quintas-feiras. A Fragata foi lá conferir esse patrimônio histórico de Salvador. E quase que o post não sai, de tanto que o nosso colunista de gastronomia, Bruno Santana, se esbaldou nas delícias do Mini Cacique  😉.


O restaurante fica a apenas 600 metros dessa vista maravilhosa
Mini Cacique, um microssomo do Centro Antigo de Salvador
por Bruno Santana

O Centro Antigo de Salvador não teve a mesma sorte dos seus análogos em lugares como São Paulo ou Rio de Janeiro, onde o coração da cidade continua a ser, de fato, o centro — lugar onde as pessoas convivem e trabalham e onde as coisas acontecem. Na capital baiana, toda a atividade comercial e cultural que caracterizava a relevância daquele lugar acabou migrando para outras partes da cidade.

Assim, temos no antigo coração da cidade uma mera sombra da sua forma de outrora; alarmantemente suja e mal-cuidada, porém não menos fascinante. E quase sempre melancólica. Mas nem toda melancolia deve ser evitada. Especialmente quando for acompanhada de um bom prato de comida.

Meu singelo pratinho de cozido
É aqui que entra o Mini Cacique. Localizado atrás da Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, numa rua paralela à lendária Rua Chile (onde há cerca de um ano foi reinaugurado, lindo e chique, o tradicional Palace Hotel) e pertinho da Praça Castro Alves, o restaurante é uma verdadeira instituição gastronômica baiana, embora dispense toda a pompa geralmente associada ao título. O lugar é discreto, honesto e acolhedor.

Suas origens remontam ao antigo restaurante Cacique, que reinou elegante e badalado no estacionamento do antigo Cine Guarany (hoje, Espaço Itaú Glauber Rocha), ali ao lado, até o fim da década de 60. Infelizmente, dois incêndios deram cabo do Cacique e ele foi fechado. 

Foi então que o gerente do velho restaurante, o descendente de espanhóis Luis Martinez Esteves, resolveu continuar a tradição em novo espaço — e assim o faz desde então, há 43 anos, com sua esposa Caline Sena e mais quatro mulheres, todas cozinheiras de mão cheia.

Atendimento acolhedor e cara de casa de amigos
Foram Luis e Caline que transformaram a típica casa do Centro Antigo em restaurante, preservando parcialmente a separação de ambientes e criando um espaço acolhedor, decorado por uma infinidade de quadros com todas as temáticas e estilos possíveis — e na parte de trás, para coroar, a varanda oferece uma bela vista da Barroquinha. 

O atendimento acolhedor do Mini Cacique faz com que você se sinta um velho amigo de todos no ambiente. A atmosfera relaxada, frequentada basicamente por trabalhadores da região e pessoas que parecem estar chegando em casa, após um longo dia de serviço, só contribui para essa reconfortante impressão.

O cardápio do Mini Cacique tem alguns itens servidos todos os dias, mas as especialidades da casa são servidas especificamente em diferentes dias da semana — na sexta-feira, por exemplo, temos vários exemplares da comida baiana, como moquecas de peixe e camarão ou xinxim de galinha. 

A varanda tem vista para o histórico bairro da Barroquinha
A grande estrela da casa, entretanto, é servida às quintas-feiras: o famoso cozido, num estilo que combina as características brasileiras do prato (como o essencial pirão) com elementos da sua versão espanhola — basta ver o punhado de grãos-de-bico que adorna a folha de couve, acima de todos os outros ingredientes.

Vejam bem: eu não sou especialista em muitas coisas nessa vida, mas creio ser qualificado o suficiente para apresentar-me como um entusiasta de (provar) cozidos. E este servido no Mini Cacique está, sem dúvida, entre os melhores que já comi.

O pirão perfeitamente temperado e na concentração certa de sabor, a seleção exata de vegetais (batata, abóbora, jiló, maxixe, chuchu, aipim e quiabo) e a quantidade certa de carnes, com partes do boi e do porco, tudo saborosíssimo e (coisa difícil em se tratando de cozidos) no ponto exato do sal. Meu pai, Marcelo, que me acompanhava — e outro grande especialista em cozidos —, compartilhou da mesma opinião.

Doce de banana de rodinha: como disse o poeta, "a Bahia tem um jeito..."
Apesar de satisfeitos com o prato principal, ainda arranjamos espaço para provar uma das minhas sobremesas preferidas na vida: o doce de banana, na sua versão tipicamente baiana — com rodelas inteiras e macias, num tom sensual de roxo após horas de cozimento com o açúcar, e um leve sabor de cravo e canela. Veredito: absolutamente fenomenal.

No fim, pagamos, na refeição para duas pessoas com uma Coca-Cola, R$52 (o cozido, que serve dois, custa honestos R$40). 

Já valeria a pena uma visita se o restaurante consistisse apenas nessa excelente comida por um ótimo preço, mas uma ida ao Mini Cacique envolve muito mais que isso. É uma forma de sentir, ainda que brevemente, um clima que não existe mais em Salvador e, principalmente, no antigo Centro; como se assumisse o papel de uma câmara hermética e capturasse os ares de um tempo perdido, a casa é um convite à nostalgia — até mesmo daqueles que, como eu, não viveram aqueles tempos. Neste sentido, o Mini Cacique é quase mágica.

Restaurante Mini Cacique
Rua Ruy Barbosa, 29, Centro. De segunda a sexta, das 11h30 às 15h30.
(Dica importante: se puder, evite ir de carro. Estacionar nas redondezas está se provando uma tarefa cada vez mais difícil e/ou cara.)





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