sábado, 25 de março de 2017

Bate e volta a Ravena - história e mosaicos

Basílica de San Vitale, o monumento mais famoso de Ravena

Uma cidade italiana que sempre rondou a minha lista é Ravena, última capital do Império Romano do Ocidente e dona do acervo de mosaicos bizantinos mais famoso da Península. Como ela fica bem pertinho de Bolonha (86 km), uma das minhas bases na viagem de janeiro, finalmente pude ir até lá ver de perto essas maravilhas. Acabei descobrindo uma cidade adorável.

Coube a Ravena a ingrata tarefa de personificar um ocaso. Quando as tribos bárbaras estavam tocando o terror na Europa Ocidental, a cidade abrigava a corte de um cada vez mais combalido Império Romano, na condição de sua última capital. Sua queda diante das hostes de Odoacro, em 476, marca o que se convencionou como o fim da Antiguidade e início da Idade Média.


Detalhes fofos de Ravena
Só esse marco histórico já justificaria a visita, mas o conjunto de monumentos paleocristãos e bizantinos de Ravena são realmente de deixar a gente de queixo caído. Taí uma escala recomendadíssima para quem vai explorar a Emília-Romanha.

Veja neste post os encantos de Ravena e todas as dicas pra organizar sua visita.

Meu roteiro em Ravena
Clique nos ícones para ver detalhes




Rota dos mosaicos

Teto do Batistério Neoniano (esq) e um detalhe da Basílica de San Vitale

Os mosaicos mais famosos de Ravena estão em cinco edifícios religiosos administrados pela Arquidiocese local — a Basílica de San Vitale, o Mausoléu de Gala Placídia, a Basílica de Sant'Apollinare Nuovo, o Batistério Neoniano e a Capela de San Andrea.

Um bilhete único (que custa € 9,50) dá direito a visitar os cinco monumentos.

Os edifícios estão próximos uns dos outros e dá para chegar a eles a pé, a partir da Estação Ferroviária (veja no mapa). Eles podem ser visitados todos os dias (exceto 25 de dezembro), das 10h às 17 horas.

A Igreja de São Francisco

O bilhete combinado pode ser comprado em qualquer uma das atrações, tem validade de sete dias e só dá direito a uma visita a cada monumento. Essa é a única modalidade de ingresso, quer dizer, não existem bilhetes específicos para uma única atração.

Basílica de Sant'Apollinare Nuovo

Dizem que um papa mandou escurecer os mosaicos de Sant'Apollinare para que os fiéis não se distraíssem durante as orações

Saindo da estação, uma caminhada de apenas 600 metros me levou a esta basílica do Século 6º, construída no reinado do ostrogodo Teodorico e local de culto de sua corte. A ampla nave da igreja, totalmente recoberta por mosaicos bizantinos da gema, é um espanto.



Sant'Apollinare foi a igreja real, no reinado do godo Teodorico



A Basílica de Sant’Apollinare Nuovo é considerada uma das construções mais importantes de sua época e seus mosaicos, representando cenas do Antigo Testamento, são os mais antigos ainda preservados com essa temática.

Batistério Neoniano

Teto do batistério: prepare-se para ficar com o pescoço torto e o queixo caído

Prepare-se para cair de costas. O exterior em tijolos rústicos desse edifício octogonal não dá a mínima pista do esplendor que você vai encontrar dentro dessa construção do Século 5º, uma das mais antigas de Ravena.

Estuques e mármores preciosos completam a decoração 

O exterior do batistério é muito simples
Também conhecido como Batistério dos Ortodoxos (degli Ortodossi), o interior do edifício está totalmente recoberto por decoração em estuque e mármores multicores. O teto é deslumbrante, um lindíssimo mosaico em tons predominantemente azuis e dourados, representando o batismo de Cristo por São João, em estilo greco-romano.

Capela de San Andrea


Na Piazza Arcivescovado estão o Batistério Neoniano, a Capela de San Andrea e a Catedral (à esquerda)

Este é o único monumento do grupo que não pode ser fotografado. Pequenina e belíssima, a capelinha fica no interior do Museu Arquiepiscopal (cuja entrada também está incluída no bilhete combinado) e data também do reinado de Teodorico. O teto da capela, com a representação de 99 espécies de pássaros, é simplesmente celestial.

Basílica de San Vitale


Esta é, com certeza, a mais imponente (acachapante é a palavra mais exata) das construções que vi em Ravena. Monumental, espetacular e completamente recoberta de mosaicos belíssimos.

Construída no final do Século 6º, quando a cidade já havia passado de mãos ostrogodas para o Império Bizantino. A estética aqui é muito mais oriental — com todas as diferenças, é impossível não lembrar de Santa Sofia, em Istambul.

Tudo é grandioso em San Vitale


O exterior da basílica, em tijolos nus
Os mosaicos representam cenas do Antigo Testamento. Além dos motivos religiosos, preste atenção aos famosos “retratos” do imperador Justiniano e sua corte e da imperatriz Teodora.

A arquitetura brilhante de San Vitale serviu de inspiração para o projeto concebido por Brunelleschi para a cúpula do Duomo de Florença.

Mausoléu de Gala Placídia

O interior do mausoléu: dá a impressão que a gente morreu e chegou no céu

Ao lado da Basílica de San Vitale, esse edifício de exterior modesto, em tijolos nus, é outro momento arrebatador da visita a Ravena — pra mim, os mosaicos mais belos da cidade estão aqui.

Eles são também os mais antigos, datados do Século 5º, quando a cidade ainda era a capital do Império Romano do Ocidente.



A simplicidade do interior do mausoléu aumenta a surpresa causada pela beleza de seu interior

Gala Placídia foi filha, irmã e esposa de monarcas. Seu pai, Teodósio, reinou em Constantinopla, no trono do Império Romano do Oriente. Seu primeiro marido, o visigodo Ataulfo, reinou na Península Ibérica. O segundo, Constâncio, assim como dois de seus irmãos, reinaram em Ravena.

Cercada de tantas majestades e profundamente religiosa, ela tinha cacife para encomendar esse mausoléu impressionante, mas não chegou a ser sepultada nele, já que morreu em Roma.

Outras atrações em Ravena
Como tive apenas um dia para ver Ravena, fui obrigada a deixar de fora do meu roteiro algumas atrações, como a Tumba de Teodorico, que fica logo atrás da estação ferroviária, e a Basílica de San Apollinare in Classe, que é bem afastada do centro.
Na minha rota pelos mosaicos, fiz alguns desvios para ver edifícios importantes, como a Catedral, a Igreja e o Claustro do Convento de São Francisco. Dessas digressões (risos), recomendo especialmente uma paradinha no Túmulo de Dante e na Basílica de San Giovanni Evangelista.
Túmulo de Dante Alighieri

O túmulo de Dante. Florença fez um mais bonito para seu poeta, mas ele continua no exílio
Ravena também foi o último pouso de Dante Alighieri. O poeta florentino, considerado pai da língua italiana, amargou na cidade a derradeira etapa de dolorosos 20 anos de exílio, provando “como é carente de sal o pão dos outros”, como lastimou em A Divina Comédia.

O claustro do Convento de São Francisco

Dante morreu em Ravena, sempre sonhando em voltar para casa, e foi enterrado na cidade dos mosaicos, ao lado do Convento de São Francisco. Seu mausoléu foi sendo ampliado e embelezado ao longo dos séculos, embora não tenha como concorrer com a bela sepultura que sua querida Florença lhe dedicou na Basílica de Santa Croce, no Século 19 — e que permanece vazia.

Eu, que me comovo além da conta a cada visita ao suposto túmuloda amada de Dante, Beatrice Portinari, na pequenina igreja florentina de SantaMargherita dei Cerchi — nível mico, mesmo — não poderia deixar de dar uma paradinha para prestar meus respeitos ao poeta.

As ruas de Ravena são meio misteriosas e encantadoras

Basílica de São João Evangelista

Mosaicos recuperados na restauração

No caminho de volta à Estação Ferroviária, no centro de um jardim público, fica essa igreja muito antiga, também encomendada por Gala Placídia, no Século 5º, para pagar uma promessa — ela pediu ao santo que a salvasse dos perigos do mar.

A igreja fica no centro de um jardim público

Uma madonna bizantina
Apesar de todas as reformas que foram feitas neste templo, ao longo de seus 1.600 anos de vida, ainda é possível perceber suas feições paleocristãs, em seu interior.

Um bombardeio aliado, durante a 2ª Guerra, danificou seriamente o edifício, mas os trabalhos arqueológicos realizados durante o processo de restauração identificaram uma série de fragmentos de mosaicos, que hoje estão expostos na lateral da nave da igreja. 


Dicas práticas

Como chegar a Ravena

A Estação Ferroviária de Ravena fica a uma distância bem confortável das atrações da cidade

Ravena fica praticamente à beira do Mar Adriático, à qual está ligada por um canal. A cidade está a 350 km de Roma e a 86 km de Bolonha.

É bem fácil ir da capital da Emília-Romanha até lá de trem. Da Estação Central, a Trenitalia tem várias partidas diárias para Ravena (procure pelas estações “Bologna Centrale” e “Ravenna” no site da companhia para ver os horários).

Mosaicos por toda parte: nas fachadas, placas de ruas, vitrines...

Mosaicos no piso da Basílica de San Vitale
Os trens mais rápidos e com menos paradas fazem o percurso em 59 minutos, outros levam até 2 horas. Preste atenção na hora de comprar o bilhete para não perder tempo desnecessário no trajeto. Os bilhetes custam a partir de € 7,35 (o lento) e € 9,85 — a economia de viajar no pinga-pinga não se justifica.

Como circular em Ravena

O Centro Histórico da cidade, muito plano e compacto, é perfeito para ser explorado a pé ou de bicicleta

A estação ferroviária fica ao lado do Centro Histórico e dá para ir aos principais monumentos a pé. São 600 metros até a Basílica de San Apollinare Nuovo e 1,2 km) até a Basílica de San Vitale e Mausoléu de Gala Placídia, por exemplo.

Onde comer em Ravena

Casa Spadoni
Via San Vitale, 34


Casa Spadoni: ótima opção ao lado da Basílica de San Vitale


Gostei demais do ambiente acolhedor e dos pratos deliciosos que provei na Casa Spadoni, que fica de cara para a Basílica de San Vitale e o Mausoléu de Gala Placídia. O restaurante é novo (inaugurado em 2014), mas os negócios da família no ramo da alimentação vêm desde o Século 15, com um moinho de trigo que garante a fabricação de pães, pasta e piadinas fresquinhos e saborosos.




A Spadoni serve a autêntica culinária da Romanha com toques contemporâneos. Além de provar as gostosuras do cardápio, é possível comprar queijos — como o típico e saboroso squacquerone, uma ótima descoberta — e salames da famosa mora romagnola, uma raça de porcos típicos da região. Tudo feito em casa.


Piadina e lasanha: frio é bom porque dá uma fooooomee 😋

Nos quatro graus negativos que peguei em Ravena, é claro que eu abri a refeição com um belo copo de vin brulé, vinho quente, adoçado com calda de açúcar e temperado com raspas de casca de limão e especiarias. Além do frio, a fome. Daquelas de não ter o mínimo constrangimento de pedir uma copiosa piadinha de queijo squacquerone e rúcula fresquíssima e muito saborosa e arrematar a farra com lasanha al ragu de mora romagnola.

Uma grande refeição para fechar um dia perfeito — apesar do tempo gelado e do céu carrancudo.

O banqueiro Giuliano Argentario, que viveu no Século 6º, financiou a construção de San Vitale e de Sant'Apollinare Nuovo. Virou nome de rua na cidade dos mosaicos

Mais sobre esta viagem
Itália e Espanha: Roteiro por Roma, Florença, Bolonha e Madri

A Itália na Fragata Surprise

Campânia: HerculanoNápoles e Pompeia
Costa Amalfitana: AmalfiRavello e Sorrento
Emília-Romanha: Bolonha
Sicília: AgrigentoCastelmolaPalermo e Taormina
Toscana: FiésoleFlorençaLucaSan Gimignano e Siena
Vêneto: Burano e Veneza


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4 comentários:

  1. A Basilica San Vitale é, de facto, magnifica. E as semelhanças com a S. Sofia são muitas. No entanto o interior da Capela Palatina da Catedral de Aachen ( Alemanha) é quase uma copia exacta. Mas San Vitale será sempre San Vitale

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    Respostas
    1. E você foi um dos responsáveis por eu ter ido a Ravena. Não fosse a sua dica, eu não sei se teria coragem de enfrentar o frio congelante pra ir até lá :)

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  2. Oi, Cyntia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia – Natalie

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