terça-feira, 14 de março de 2017

Toscana - bate e volta a Luca

Prepare-se para cair de paixão por Luca

Poucas vezes na vida eu fiz um bate e volta tão redondinho como essa visita de um dia a Luca, partindo de Florença. Tudo encaixa: a distância entre as cidades, que poupa tempo no deslocamento, a frequência dos trens entre as cidades, pra não engessar os horários, a facilidade de acesso às atrações...

Tudo muito cômodo. Mas não é por isso que a visita se justifica. O principal motivo para ir a Luca é que a cidade é bonita demais.

A Catedral de Luca, do Século 11
Com origens etruscas, ela foi colônia romana e importante cidade-estado (a República de Luca) medieval, enriquecida pelo comércio da seda, por mais de 600 anos. Suas muralhas, perfeitamente preservadas até hoje, aconchegam um lindo conjunto arquitetônico, herdado dessa prosperidade.

Uma beleza pé no chão que se esparrama por ruas pacatas e cercadas de um inequívoco ar de lugar onde mora gente. Pequenininha e apaixonante, essa Luca.

Confira as dicas práticas para sua viagem a Luca e algumas atrações imperdíveis na cidade:

O que ver em Luca

Dentro das muralhas, a cidade é plana e perfeita para ser explorada a pé ou de bicicleta
Essa perolazinha da Toscana tem alguns monumentos de deixar a gente de queixo caído. Velhas fachadas, torres medievais, muralhas, baluartes, igrejas e palácios se distribuem por ruazinhas pacatas, às vezes tão estreitas que nem deitando no chão a gente consegue enquadrar alguns edifícios.

Guarde o mapa e procure a "sua" Luca

A Igreja de San Pietro Somaldi e, à direita, uma simpática feirinha de livros
O melhor a fazer por lá é descobrir a sua própria Luca, o que só acontece quando guardamos o mapa e deixamos a cidade nos levar pela mão, traçando nosso caminho no aceno de um campanário que surge sobre os telhados ou do desenho de uma janela que se esgueira do fundo de uma ruela pela qual passamos distraídas.

Ainda assim, alguns monumentos merecem atenção especial. Veja alguns:


A muralha

São quatro quilômetros de fortificações muito bem preservadas
A grande atração de Luca recebe os visitantes na porta. Sua muralha, perfeitamente preservada, é a primeira coisa que a gente vê ao sair da estação ferroviária.

Muito bem preservadas, essas fortificações foram finalizadas nos séculos 16 e 17. Hoje, sem função defensiva, foram transformadas em um adorável parque linear.

É possível dar a volta completa no Centro Histórico de Luca caminhando 4 km pelo topo da muralha, à sombra de árvores frondosas. Ainda estão lá os 11 bastiões defensivos e três portas de acesso à cidade.


O topo da muralha foi convertido em um parque linear muito bonito e agradável



As fortificações de Luca foram iniciadas ainda durante a colonização romana, no Século 2 a.C. No período medieval e renascentista, as muralhas foram sendo ampliadas para dar conta do crescimento da cidade e das rivalidades com outras potências militares — como Florença, por exemplo. Mas Luca jamais sofreu um cerco digno de nota.


A Porta de San Pietro, do Século 16, um dos acessos ao Centro Histórico 
No interior do cinturão amuralhado, no nível da rua, repare que trechos do antigo fosso ainda estão preservados, com água corrente e tudo, desviada do Rio Serchio (procure a Via del Fosso, que começa junto às muralhas, na altura do Museu do Horto Botânico).

Desde o Século 19, sua muralha está destinada ao lazer dos moradores e visitantes. Aproveite, portanto.


Duomo de San Martino (Catedral de Luca)


Detalhe da fachada e do campanário da Catedral

Endereço: Piazza Antelminelli
Preço da entrada: € 3 (e mais € 3 para subir o campanário)

Horário de visitas: de 3 de novembro a 14 de março: de segunda a sexta, das 9:30h às 17h. Sábados, das 9:30h às 19h. Domingos, das 12h às 18h. De 15 de março a 2 de novembro: segunda a sábado, das 9h às 19h. Domingos, das 9:h às 10h e das 12h às 19h 

Os belos entalhes em mármore no pórtico de acesso são um dos pontos altos da catedral


Para quem desce do trem e atravessa a muralha na altura do Baluarte de San Colombano, a Catedral está logo em frente. É um belíssimo edifício do Século 11, construído originalmente em estilo românico (bem visível ainda no campanário) e que foi ganhando elementos góticos em sucessivas reformas.

Os afrescos que decoram sua nave central, com quase 30 metros de altura, a intrincada decoração de sua fachada, seu pórtico elegante e seu altar em mármore de diversas cores são impressionantes. Não deixe de ver as telas de grandes mestres que adornam alguns altares, como a Madona com o Menino e Santos, de Ghirlandaio, e a Última Ceia, de Tintoretto. 

Preste atenção às pinturas nos altares, ao mosaico do piso e aos afrescos do teto. Abaixo, à direita, o labirinto


Ao comprar o ingresso, o visitante recebe um folder explicativo bem didático sobre a Catedral, que serve como guia aos principais pontos de interesse do edifício.

Antes de entrar na igreja, repare em um pilar no lado direito, na base do campanário, onde está gravada a imagem de um labirinto, com uma inscrição alusiva a Teseu — que decifrou o Labirinto de Creta e venceu o Minotauro. Acredita-se que essa imagem tenha relação com gravações que adornam a Catedral de Chartres, na França, e seriam marcas/código feitas pela Ordem dos Templários, proscrita no Século 14.


Igreja de San Michele in Foro
(São Miguel no Fórum)
Piazza San Michele. Das 07:40h às 12h e das 15h às 17:30h. Entrada gratuita


O Arcanjo Miguel, no topo da fachada (esq) da igreja, parece tomar conta do antigo Fórum Romano
Outra maravilha de Luca, essa igreja ocupa o centro do antigo Fórum Romano (daí o nome), o centro nervoso das cidades da Antiguidade sob domínio latino. Ao longo dos séculos, a área conservou a importância política e econômica daqueles tempos e a Igreja de San Michele era a representante do poder religioso em uma praça que também abrigava a sede do Consiglio Maggiore, o parlamento local.

A igreja nasceu românica, lá nos confins do Século 8, mas suas feições atuais, uma maravilha em pedra branca coberta de entalhes, começaram a tomar forma no Século 11, quando a prosperidade de Luca passou a permitir esses luxos. 

O interior da Igreja de San Michele
Foram muitas intervenções ao longo do tempo e, embora predominem o gótico e o românico, San Michele é um pequeno compêndio sobre os estilos arquitetônicos e das artes decorativas religiosas da Toscana.

Em destaque na fachada, pairando sobre a igreja e a praça, a imagem do Arcanjo Miguel matando o dragão com sua lança. 

A Piazza San Michele concentra edifícios imponentes, mantendo a tradição herdada do Fórum
Segundo me contou uma senhorinha que ajuda a cuidar do templo, a estátua do anjo traz no dedo um anel com um diamante enorme. À noite, dependendo do ângulo da lua e da posição que se ocupe na praça, seria possível ver a luz que atravessa a pedra preciosa. Depois ela piscou o olho e disse que essa é só uma lenda luchese. Mas deu vontade de passar a noite na cidade pra conferir 😉.

Entre os tesouros que adornam o interior do templo, preste atenção na Madona com o Menino, cerâmica esmaltada (técnica bem frequente na Toscana), de Luca della Robbia, e na pintura Quatro Santos de Filippino Lippi.


Basílica de São Frediano
Piazza San Frediano. Diariamente, das 9h às18h. Entrada: € 3.


Essa bela igreja chama a atenção de longe pelo lindo mosaico do Século 13 que adorna o topo de sua fachada.

O prazer de ver San Frediano foi ainda maior porque, além de receber um folheto explicativo junto com o ingresso, ainda ganhei a companhia do jovem noviço que estava na bilheteria e me guiou por boa parte da visita, chamando a atenção para muitos detalhes que passariam despercebidos — depois vocês não entendem porque eu gosto de viajar no inverno: de a igreja estivesse lotada, isso jamais teria acontecido.

A Igreja de San Frediano tem origem no Século 6, mas o belo mosaico de sua fachada é do Século 13

Uma das mais antigas igrejas de Luca, San Frediano é um autêntico templo gótico à moda da Toscana. O mosaico em sua fachada, porém, tem um pezinho na tradição bizantina que marcou a arte religiosa da região da Romanha — como em Ravena.

Entre as igrejas toscanas, apenas aqui e em San Miniato al Monte (Florença) esse tipo de decoração aparece. A imagem da Virgem Maria, que fazia parte da cena, foi “deletada” pela abertura de uma janela, em tempos mais recentes.

Os interior da igreja, com destaque para o órgão

As colunas ainda conservam antigos afrescos, assim como os altares laterais. à direita, a famosa pia batismal

No interior do templo, preste atenção às colunas ornadas com afrescos. A grande estrela é a pia batismal, do Século 12.

Torres de Luca

A Torre Guinigi e seu "jardim suspenso"

Na Toscana, a “Cidade das Torres” é San Gimignano, com suas 14 estruturas remanescentes do período medieval, época em que teve cerca de 70 delas. O que dizer, então, de Luca, que chegou a ter mais de 250 torres?

Erguidas entre os séculos 11 e 14, as torres de Luca tinham principalmente funções defensivas— como observatório e também como alojamento longe dos ataques — mas por toda a Toscana elas também eram símbolo de poder econômico e militar das famílias que as construí-las.

Pelo menos duas dessas estruturas ainda podem ser visitadas em Luca, oferecendo vistas maravilhosas da cidade e da região — mas eu não estava para subidas nesta viagem e ficarei devendo essas imagens 😏.

A Torre Guinigi é a mais famosa — bastava ver o tamanho da fila de gente que aguardava a vez e fazer a subida — com 45 metros de altura e frondosas copas de árvores (!!) no seu terraço de observação, lá no topo. Foi construída no Século 14 pela Família Guinigi, que governou à cidade, e ficava anexo ao palazzo do clã. Se você se animar a subir, saiba que são 225 degraus.

O antigo Palazzo Guinigi

A Torre dele Ore é do Século 13 e foi dominada por diversas famílias por cerca de 200 anos, até ser comprada pela cidade para se torre do relógio local. O mecanismo que está atualmente lá no alto é do Século 18. A estrutura tem 50 metros de altura.

Torre Guinigi
Via Sant'Andrea 45. Visitação diária, a partir das 9:30h. Última subida às 16:30h (janeiro, fevereiro, novembro e dezembro), 17:30h (março e outubro), 18:30h (abril e maio) e 19:30h (junho a setembro). Ingresso: € 4.

Torre delle Ore
Via Fillungo, esquina com a Via dell'Arancio. Visitas de março a outubro, a partir das 9:30. O horário da última subida às 17:30h (março e outubro), 18:30h (abril e maio) e 19:30h (junho a setembro). A entrada custa € 4. 

Piazza dell' Anfiteatro

Um dos quatro arcos de entrada da praça

Essa é uma das praças mais interessantes que já vi. Sua origem é o antigo anfiteatro romano de Luca, construído no Século 2 d.C.

Ao longo dos séculos, o espaço foi ganhando novas funções na vida da cidade — de paiol de pólvora a cadeia —, enquanto as construções iam se empilhando em seu interior sem que alterassem sem formato elíptico, tanto interna quando externamente.

Em vez de arquibancada, uma profusão de janelas

Mesmo muito alterado, ainda é possível reconhecer o traçado do anfiteatro romano
Quem olha de fora consegue reconhecer perfeitamente a estrutura romana, apesar dos acréscimos construtivos, enquanto seu interior é uma praça fervilhante de janelas onde já funcionou um movimentado mercado.

Grande parte das construções da Piazza dell’Anfiteatro, hoje, abriga lojas, bares, restaurantes, com mesas ao ar livre mesmo no frio de janeiro. Um bom lugar para encerrar a visita a Luca com uma taça de vinho.



  Comer em Luca 


Um simples e saboroso ensopado e biscoitinhos celestiais
Osteria dello Stellario
Piazza S.Francesco, 44

Eu não queria um almoço muito longo, para ter mais tempo para explorar Luca. Ao acaso, escolhi este restaurante caseirinho, aos pés da Colonna della Madonna dello Stellario, uma imagem da Virgem Maria posta sobre uma coluna, que se vê de longe. 

Pedi o spezzatino (ensopado), que era o prato do dia e estava bem saboroso. Gastei menos de € 10 com o prato e a taça de vinho, almocinho despretensioso e agradável.

Vecchi Sapori di Lucca
Piazza San Frediano

Esse excesso de tentações devia ser proibido e
Se o almoço foi simplesinho, a sobremesa foi uma orgia. De cara para a Basílica de San Frediano,essa lojinha de especialidades luchesi (o gentílico da cidade) e toscanas devia ser proibida, de tão tentadora.


O panforte é uma celebridade na Toscana. À direita: ossi di morto e brutti ma bonni (feio e gostoso). Os nomes dão ótimos
Eu me acabei nos cantuccini al limoncello (cantucci são biscoitos de amêndoas, bem duros, típicos da Toscana), nas lingue di suocera (a versão local da tuille, biscoito feito de amêndoas e claras), ossi di morto (literalmente, "ossos de morto", mais um biscoito feito de ovos e farinha).

Comprei alguns pacotinhos pra trazer de presente, mas sinto dizer que minha generosidade é menor que a minha gula e eu comi quase tudo ao longo da viagem 😁.


Como chegar a Luca


A Estação Ferroviária de Luca, quase em frente à muralha

Luca está a 80 km de Florença. De carro, pela rota mais rápida (via Prato e Pistoia), é uma viagem de 60 minutos.

De trem, partindo da Estação Santa Maria Novella, em Florença, a viagem dura 1h20. O preço do bilhete varia de acordo com os horários da viagem e da antecedência da compra, mas calcule gastar a partir de € 7,50 para cada trecho.

A empresa que cobre esse trecho é a Trenitalia. São muitas partidas diárias, pra você não ter desculpa 😊.


Como circular em Luca


Saindo da estação, apenas 200 metros separam você do Baluarte de San Colombano, onde há uma passagem através da muralha (abaixo)


Em Luca, dá pra fazer tudo a pé, até porque o movimento de automóveis no interior das muralhas é bem restrito. O transporte público (micro-ônibus) circula nessa área, mas nem se dê ao trabalho 😊.

Se você fizer uma pesquisa rápida na internet, vai saber que a cidade de Luca tem 185 km². O Centro Histórico da cidade, porém, é bem menor que isso: considerando a maior distância, basta caminhar pouco mais de 1,5 km para atravessar a área amuralhada, de uma ponta à outra.

Da Estação Ferroviária ao Centro Histórico, são 200 metros até a entrada da muralha.

Mais sobre esta viagem
Itália e Espanha: Roteiro por Roma, Florença, Bolonha e Madri

A Itália na Fragata Surprise
Campânia: HerculanoNápoles e Pompeia
Costa Amalfitana: AmalfiRavello e Sorrento
Emília-Romanha: Bolonha e Ravena
Sicília: AgrigentoCastelmolaPalermo e Taormina
Toscana: FiésoleFlorençaLucaSan Gimignano e Siena
Vêneto: Burano e Veneza

Curtiu este post? Deixe seu comentário na caixinha abaixo. Sua participação ajuda a melhorar e a dar vida ao blog. Se tiver alguma dúvida, eu respondo rapidinho. Por favor, não poste propaganda ou links, pois esse tipo de publicação vai direto para a caixa de spam.

Navegue com a Fragata Surprise 
Twitter     Instagram    Facebook    Google+

Nenhum comentário:

Postar um comentário