domingo, 12 de março de 2017

Onde comer - e o que comer - em Florença

O peladão e a bisteca, dois exemplares sublimes da arte florentina
Quem vê a cara quase celestial de Florença, nem imagina o quão profana ela consegue ser à mesa. Enquanto pincéis e cinzéis esculpiam a face etérea de berço da Renascença, seus fogões e caldeirões urdiam outra arte, um universo aliciante de bistecas sangrentas, doces ásperos e receitas à base de caça e de vísceras capazes de seduzir o mais fresco dos paladares.

Requinte de salão não faltou à cidade — lembremos que foi preciso a florentina Catarina de Médici virar rainha da França, no Século 16, para a corte parisiense ser apresentada aos talheres e à delicada confeitaria. Mas a cozinha simples de citadinos e camponeses resistiu e resplandece como marca da gastronomia local.

Neste post eu listei algumas delícias da gastronomia de Florença e os restaurantes que fizeram a minha cabeça por lá. Buon appetito!

O que comer em Florença

Ribollita é sublime. Esta é do restaurante Baldovino
Ribollita
Típico prato camponês, é uma sopa à base de feijão branco, couve, tomate e alho-poró, com pão quase desmanchado. Os ingredientes variam um pouco, porque a ideia da sopa é aproveitar as sobras de legumes também. O segredo é fazer uma grande quantidade e ir requentando e servindo ao longo de alguns dias. Simples e sublime — ainda mais no frio que estava fazendo em Florença.

Lampredotto
Originalmente, é comida de rua, refeição acessível aos trabalhadores pobres, feita de uma parte do estômago do boi, o abomaso, cozido com tomates, cebolas, salsa e aipo. O mais comum é servir no pão, com bastante caldo e pimenta, como nas tradicionais barraquinhas de antigamente, mas eu também encontrei como secondo piatto, em restaurantes. Com pão ou sem pão, é um escândalo de gostoso.

Paninni de lampredotto e trippa alla fiorentina no Mercado Central. Inesquecíveis
Trippa alla Fiorentina
É a versão local da nossa dobradinha, absolutamente deliciosa. É cozida com tomates e ervas, o que a deixa com um tom dourado escuro encantador. Não faça essa cara de desdém, pois é uma maravilha—assim como a trippa alla romana, os callos a la madrileña e outras sofisticações de tradições nada abastadas, mas muito inventivas. 

Bistecca Fiorentina
Pense em um corte de carne bem espesso, temperado apenas com sal, pimenta-do-reino moída na hora e azeite de oliva e assado na brasa. Chega à mesa como eu gosto: quase mugindo... Esse prato, entre os mais icônicos da cozinha de Florença, é feito com uma peça similar ao T-Bone — e ponha ênfase nesse similar, porque a cidade leva a sério a diferença. Delicioso é pouco.

Ragù de javali: Obelix aprovaria

Ragù de javali (cinghiale)
A carne de caça é um ingrediente importante na cozinha toscana e o javali é uma das grandes estrelas que vêm direto dos bosques para a mesa. Já provei o bicho de todo jeito, em vários lugares, mas transformado em ragù ele realmente se supera.

Sabe aquela cena em que Obelix, mitológico comedor de javalis, se compadece do destino de um bicho transformado numa receita desastrada? Não corre o menos risco de acontecer com este prato espetacular.
 

Onde comer em Florença

Mas antes, um aperitivo para abrir o apetite 😎

Move On Bar e Vinil
Piazza San Giovanni 1, Duomo



Gostei muito desse bar moderninho, elegante e descolado que fica bem em frente à porta de saída do Batistério. Eu estava exatamente encerrando a visita e fui “chamada” até lá por Chet Baker cantando Everythingdepends on you. O ambiente escurinho, decorado com cartazes de filmes e um velho letreiro de cinema combina com a música de primeiríssima qualidade e bons drinks. O Dry Martini (€ 10) estava bem acima da média.

Restaurantes

Osteria San Niccolò
Via San Niccolò 60, Oltrarno


Talharim ao pesto de rúcula e o lampredotto servido como secondo (abaixo): um almoço de primeira

Almocei muitíssimo bem nesta osteria na margem Sul do Arno, próxima ao Palazzo Torrigiani. Pedi o talharim ao pesto de rúcula como primo e o lampredotto como secondo piatto. Os dois estavam notáveis — deu vontade de repetir, mas a refeição sequer deixou espaço para a sobremesa.

O lugar é simples, tocado por uma família, o atendimento é informal e o ambiente é muito simpático. Com vinho, a conta ficou em € 22.


Mercato Centrale Firenze
Piazza del Mercato Centrale 4, san Lorenzo


Nerbone: uma catedral da comida de rua florentina
O que aconteceu comigo no Mercado Central de Florença não foi um almoço, mas um turbilhão gastronômico de proporções épicas. 

Eu estava veramente verde de fome — situação ideal para encarar a fila do histórico Nerbone, boxe tradicionalíssimo que, desde 1872, vem transformando a comida de rua florentina em uma arte à altura das cúpulas e campanários da cidade.

Na dúvida entre o paninni (sanduíche) de lampredotto e a trippa alla fiorentina, fiquei com os dois — meu apetite estava mesmo colossal e eu não queria encarar aquela fila duas vezes.

Boxes no térreo do Mercado Central de Florença: que tal umas comprinhas
Trippa ao vivo
A fila do Nerbone na hora do almoço é razoável. Quando chega a sua vez, você faz o pedido, paga no balcão e depois se ajeita em uma das mesas comunitárias em frente ao quiosque, se acotovelando com uma pequena ONU de clientes igualmente hipnotizados pelas voluptuosas iguarias.

Todo mundo geme, então, fique à vontade. Difícil é decidir qual das minhas duas pedidas estava mais gostosa, embora a trippa leve vantagem, apenas pelo fato de ter sido comida primeiro.

O primeiro andar, hype-gastronômico
Mas a coisa não acaba aí. É que o vetusto Mercado Central de San Lorenzo, do Século 19, passou por uma repaginação completa em 2014 e, em seu primeiro andar, ganhou aquela cara de mercado hype-gastronômico que faz sucesso no mundo inteiro — vide o Mercado da Ribeira, em Lisboa, os mercados de São Miguel, San Antón e San Ildefonso, em Madri, e o Mercato Centrale de Termini, em Roma. Eu não podia ir até lá e ficar só no térreo, né?

Babà alla mandarina, bom demais

Sorvetinho pra completar e, à direita, a entrada do mercado
Com essa desculpa para aplacar a minha consciência, fui provar as sobremesas do Mercato Centrale de Firenze e conferir as tentações salgadas (dedicação de repórter, tá?). Fico meio constrangida em fazer a lista do que experimentei, mas recomendo vivamente o babà alla mandarina (€ 3,50) e os sorvetes de pistache e zabaione (€ 2,50 o copinho pequeno).

Ah, gastei € 12 com o almoço no Nerbone.

Curte feiras e mercados? Dá uma olhada no monte de lugares legais mundo afora já comentados na Fragata: 
Feiras e Mercados - Índice

Baldovino
Via San Giuseppe 22, Santa Croce

Baldovino: bom e barato
Pertinho da linda Igreja de Santa Croce, minha favorita em Florença, esse restaurante tradicional é muito bem reputado pela boa comida e preços módicos.

Menina comportada ganha sobremesa: tiramisù
Tive um excelente almocinho frugal no Baldovino — um desperdício, queria estar com um apetite mais empolgado... — que consistiu em uma deliciosa ribollita acompanhada de uma generosa taça de vinho. Como estava comedida, pude pedir sobremesa, um tiramisù muito gostoso. A continha ficou em € 17,5.

Antica Osteria
Borgo Ognissanti 1

Antica Osteria: cardápio escrito à mão e cozinha da nonna
Sabe aquele prato de tortelli al ragù de javali que você viu na foto mais para o alto da página, aquele que Obelix não recusaria? Então...

Tocado por uma família, o restaurante não tem frescuras: as caixas de biscoitos, produzidos lá mesmo, complementam a decoração do salão, o cardápio é escrito à mão e o pedido é anotado no canto do jogo americano de papel que recobre a toalha da mesa.
Vin santo e cantucci: não perca isso por nada neste mundo
Fiquei só no primo piatto — a pasta com ragu — e na tacinha de Sangiovese. A sobremesa foi uma alegria à parte, cantucci com vin santo, um clássico toscano. Os cantucci são biscoitos de amêndoa muito duros e ásperos, mas deliciosos. Mergulhados no vin santo, vinho doce de sobremesa, ficam no ponto para a mordida... Simplicidade celestial. A conta ficou em € 26,50

Trattoria TuMiTurbi
Via Lambertesca 22


Almocei nesta trattoria no feriado de Reis, no meio da muvuca da festa da Befana (figura do folclore italiano, também celebrada da data) que me fez esquecer a hora da refeição. 

Pra minha sorte, havia uma mesinha no TuMiTurbi, lugar moderninho, com toques industriais na decoração — cimento queimado nas paredes e balcão luminárias de ferro —, peças de prosciutto penduradas em ganchos de açougue e atendimento descontraído.

Pão servido no saco de papel, rigatoni e fritata. Almocinho simples e simpático
No almoço, eles servem um menu de primo e secondo, com três opções para cada passo, a preços honestos. Escolhi rigatoni al ragu e a fritata de alcachofras — a fritata é a versão italiana da tortilha, mas onde os ovos dominam mais que tudo.

De sobremesa, zuppa inglese, doce feito com pão de ló embebido em licor e recheado com creme e, geralmente, uma cobertura de chocolate.

Uma refeição agradável, em ambiente simpático. Com vinho, a conta ficou em € 24.


Osteria dell'Olio
Piazza dell'Olio, 10

Fui atraída pelas mesinhas ao ar livre
Uma regra de ouro para não cair em arapucas turísticas é jamais escolher restaurantes muito próximos das grandes atrações — ainda mais sem pesquisar antes. Eu fiz exatamente isso no meu primeiro jantar desta temporada florentina e... dei sorte.

A Osteria dell’Olio fica logo atrás do Batistério. Com fome e com preguiça de pesquisar, escolhi o lugar pela cara — a decoração é de muito bom gosto — e pelo fato de ter mesas externas, aliviadas do frio por aquecedores. Um bom lugar para observar o vai e vem da cidade na primeira noite de 2017.

Bavete e mil folhas. Os dois pratos estavam muito bons
O cardápio do restaurante busca um toque inventivo na cozinha tradicional, como é o caso do bavette com trufas e carpaccio de ganso defumado que pedi — e que estava bem gostoso. A sobremesa foi uma surpresa ainda melhor, um delicioso mil folhas de morango. Com vinho, a conta ficou em € 39.

Il Portale
Via Luigi Alamanni, 29


Ei-la, a bisteca
Imaginem se eu iria embora de Florença sem comer a famosa bisteca fiorentina... E ela ficou para o meu jantar de despedida da cidade. Morta de cansada, recorri à recepcionista do hotel que indicou esse restaurante, a pouco mais de uma quadra de distância.

Uma casa à moda antiga, com jeitão de cantina, sem cair no clichê. O toque extravagante é a vitrine refrigerada exibindo algumas peças de carne, um cartão de visita que seduz os carnívoros mais empedernidos, mas pode afastar almas mais delicadas.

Ambiente simples e uma vitrine
O atendimento é simples e eficiente: a bisteca chegou à mesa exatamente como eu pedi — acho que conquistei alguma admiração ao expressar minha preferência por carne mal passada — e muito saborosa. A salada de rúcula também estava ótima, as folhinhas fresquíssimas, temperadas com azeite e um generoso toque de queijo parmesão. Bom jantar que, com vinho, custou € 31.

Mais sobre a cidade
Post-índice com mapa - todas as atrações e dicas de Florença

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2 comentários:

  1. Um dos meus sonhos é fazer uma viagem pela Itália passando por várias cidades (e claro, Florença está no topo da lista!). Adoro provar comidas típicas em viagem e confesso que só de ver este artigo deu uma vontade de partir logo (além de que acho que ganhei uns dez quilos só de olhar para as fotos!)

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    1. Eu estou engordando até hoje - cada vez que lembro, ganho meio quilo :)

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