domingo, 9 de outubro de 2016

Portugal: um passeio pela Serra da Estrela

Taí a estrela da serra: esse queijo bate um bolão
Região mais alta de Portugal, a Serra da Estrela entrou no mapa turístico muito por conta de suas temporadas de neve, coisa rara em um país de invernos amenos. Mas visitar a serra no verão, como foi o meu caso, também é garantia de encontrar muitos encantos. A natureza bem preservada oferece lindas paisagens, cidadezinhas fofas — pra vocês terem uma ideia, a maior cidade por lá é Seia, com apenas sete mil habitantes — e a estrela da serra, o famoso queijo de casca dura e molinho por dentro que, sozinho, já vale a viagem.

Fazia tempo que eu queria dar um passeio pelos “Montes de Hermes” (o nome dado pelos romanos à serra) e a estadia em Coimbra, que fica bem perto, conspirou a favor. A região merece mais tempo, mas o bate e volta ficou redondinho: estivemos em Seia, que é muito bonitinha, visitamos o Museu do Pão e atravessamos uma porção do Parque Natural da Serra da Estrela para chegar a Piódão, uma das célebres aldeias do xisto de Portugal.

Paisagem típica da serra com terraços de cultivo e casinhas de pedra
Terra de pastores desde tempos imemoriais, a Serra da Estrela ganhou esse nome em referência à estrela Aldebaran, da Constelação de Touro, que nasce sobre a cadeia de montanhas no início da primavera (para quem olha do vale do Rio Mondego), anunciando o fim do degelo e a hora de levar as ovelhinhas para pastar nas alturas. Os primeiros habitantes do território voltavam para ela seus observatórios astronômicos, como mostram vestígios arqueológicos encontrados na região de Coimbra.

As formas de medir a passagem do tempo podem ter mudado, mas a serra ainda guarda um arzinho de (muito) antigamente. Não fosse a estrada asfaltada, daria para acreditar em túnel do tempo olhando aquelas montanhas muito verdes eventualmente adornadas por uma ou outra casinha de pedra.

Por onde andamos na Serra da Estrela

O centrinho de Seia, a maior cidade da Serra
Seia
A cidade de Seia, a nossa primeira parada na visita à Serra da Estrela, é o coração do maior município da região. Sua origem é muito antiga, anterior à chegada dos romanos, sede de um antigo castro (povoação fortificada). Hoje, a cidade tem uma carinha meio século 18/19.

Logo no centro da cidade, não deixe de visitar a Igreja da Misericórdia, simplesinha por fora, mas com um belo interior. Ao lado fica a Capela de São Pedro, de origem românica.

A Igreja da Misericórdia, com a Capela de São Pedro à direita. Em primeiro plano, a Fonte das Quatro Bicas
Conjunto de imagens no interior da Igreja da Misericórdia
No ponto mais alto da cidade estão os vestígios do Castelo de Seia, originado no castro primitivo e reforçado pelos romanos, quando tomaram a região.

Os visigodos e os árabes também usaram o lugar como fortaleza, mas tudo o que você vai ver por lá, agora, são os restos da muralha construída após a reconquista cristã, no Século 11, e a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção, erguida entre os restos da fortificação.

Onde comprar o queijo da Serra da Estrela

Em Seia, aproveitamos para comprar um estoque de queijos da serra. Na cidade há várias lojinhas que vendem o produto, alguns mais artesanais, outros produzidos em grande escala. É questão de pesquisar, perguntar (as pessoas são extremamente gentis e parecem gostar muito de uma prosa) e, claro, provar, hummmm.

Se você não vai à Serra da Estrela, pode encontrar a estrela da serra nos supermercados das grandes grandes cidades e até no free shop do aeroporto. Patrícia Roque e Rafael Boro, que moram em Portugal e escrevem o blog Cultuga, recomendam a compra nas lojas do El Corte Inglés. Dá uma olhada no post deles: Onde provar o famoso Queijo Serra da Estrela?

A Matriz de Nossa Senhora da Assunção
Restos da muralha do castelo construído após a Reconquista Cristã no mesmo local em que povos pré-romanos mantinham uma povoação fortificada
Museu do Pão
Localizado em uma quinta nos arredores da cidade, no alto de uma ladeira inacreditável, a visita ao Museu do Pão já valeria só pela vista para a paisagem da serra. 

O bar do Museu do Pão tem esse vista. Eu não queria mais sair de lá
"Pão" nas diversas línguas faladas na Terra


O lugar é bem interessantinho por dentro também. A pequena exposição recorda a importância alimentar, política e religiosa do pão, apresenta os diversos tipos de pães tradicionais em Portugal e apetrechos, manuais e outros objetos usados no fabrico do alimento. 

Em uma pequena oficina, você pode amassar e modelar o seu próprio pãozinho decorativo que, depois de assado, vira uma recordação da visita.


O museu, é claro, tem uma lojinha bem concorrida
A partilha do pão tem forte significado para cristãos e judeus
Piódão

Pra ser bem rigorosa, Piódão não fica na Serra da Estrela, mas na Serra do Açor, um pouco mais ao Sul, mas a visita a essa bela aldeia do xisto é uma combinação frequente com a passagem pela serra mais famosa.

Essa belezinha vale cada curva da estrada

As aldeias do xisto de Portugal são vilazinhas típicas da região entre Coimbra e Castelo Branco, assim chamadas porque suas casas são sempre construídas com lascas irregulares de xisto e com telhados de ardósia. Piódão é apontada como uma das mais bonitas, até pela tradição local de pintar as portas e janelas em um azul forte. O conjunto, pendurado em uma encosta é muito fotogênico, com o paredão da montanha às costas e de cara para o precipício.

Chegada a Píódão

A igrejinha destoa para realçar a beleza das casinhas de pedra
A construção mais famosa da aldeia é a que destoa do padrão. A igreja, pintada de branco, faz um contraponto encantador às fachadas rústicas que a cercam.

O maior charme de Piódão são suas ruelas estreitíssimas que vão se enroscando encosta acima e que a gente percorre anotando os pequenos detalhes que expressam a identidade de quem vive nas casinhas uniformes: um vasinho de gerânios, uma cortina florida, uma manta em cores vivas no peitoril de uma janela.



Em uma região de pastores pobres, as casas são construídas com o material mais à mão: lascas de xisto para as paredes e ardósia para os telhados
Apenas cerca de 200 pessoas moram na aldeia, portanto, vá preparada para encontrar um ritmo desaceleradíssimo e um sossego que nem os turistas conseguem quebrar.

Como viajei 
O Parque Nacional da Serra da Estela tem 88,5 mil hectares, área que equivale a menos da metade do nosso Parque Nacional da Chapada Diamantina. Pode não parecer grande, mas tem muita coisa para ver por lá. Depois de ter feito apenas um bate e volta, estou mais convencida ainda de voltar e reservar uns três ou quatro dias para explorar a região. Se você tiver folga no seu roteiro, pense nisso.

O belo interior da Igreja da Misericórdia, em Seia
Luiza Antunes, do blog 360 Meridianos (do qual não canso de dizer que sou fã), mora em Coimbra e tem um post bem legal com dicas do que fazer na Serra da Estrela em uma temporada mais esticadinha. Dá uma olhada: Roteiros pela Serra da Estrela, Portugal.


Pães típicos das diversas regiões expostos no Museu do Pão. À direita, manuais ajudavam os camponeses no fabrico do alimento
Percurso
Cheguei à Serra da Estrela partindo de Coimbra. Foram 130 km de estrada até Seia, a maior cidade da região (com apenas 7 mil habitantes no núcleo urbano!) e porta de entrada para os encantos da serra. Fiz esse percurso em um pouquinho menos de duas horas — o Googlemaps, meu guia, prometia uma hora e meia, mas usei o acelerador com parcimônia.

A Matriz de Seia ao longe
Minha rota foi pela rodovia IP3, passando por Penacova (não se assuste com o nome, mas bem que parece pirraça) e depois pela IC6 e N17. As estradas estão em boas condições, mas prepare-se para as muitas curvas do caminho, muitas delas contornando precipícios respeitáveis. A paisagem é muito bonita, mas, se estiver dirigindo, resista à tentação e mantenha os olhos na pista.

Seia fica nos limites do Parque Natural da Serra da Estrela e já oferece uma paisagem maravilhosa. Para mergulhar um pouquinho mais na beleza local, estiquei a viagem até Piódão, uma das famosas aldeias de xisto de Portugal.

Piódão tem cerca de 200 habitantes

Um trecho mais mansinho da estrada para Piódão - tão mansinho que ousei largar o volante pra fazer a foto :)
A distância entre Seia e Piódão é de apenas 40 quilômetros, pela N 231, que corta o parque nacional. É um trecho bem cascudo de estrada, até pra quem não tem medo de dirigir. É uma curva atrás da outra, descidas abissais e subidas cabeludas. A estrada é estreitinha, muito mal sinalizada e com trechos de asfalto precário. A pista geralmente fica ensanduichada entre um paredão de rochas e um abismo. Fiz esses 40 km em cerca de uma hora e meia.

Ufa, chegamos! Vocês não imaginam como eu queria ver essa plaquinha de perto, depois de tantas curvas

Onde comer


Restaurante do Museu do Pão

Museu do Pão
Quinta Fonte do Marrão, fone 238.310.760. Bufê a € 39 por pessoa.


O Museu do Pão, em Seia, rende uma visita interessante, mas não há como negar que seu maior atrativo é o restaurante. A construção de pedra, cheia de janelas, fica debruçada sobre um vale. O ambiente é elegante, o serviço é muito competente e a comida, servida em sistema de bufê, é muito gostosa.

As estações das entradas (acima) e das sobremesas
São quatro estações (entradas, saladas, pães e sobremesas) e duas opções de pratos quentes, que não ficam no bufê e são trazidos à mesa pelos garçons. No dia que passamos por lá estavam sendo servidos um bacalhau perfeitinho e javali.

Esse bacalhau estava perfeito
E olha o javali!

Pães, saladas, frios... haja apetite
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6 comentários:

  1. Oi, Cyntia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia – Natalie

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Olá, Cyntia, parabéns pelo seu post!
    Estou com viagem marcada para Portugal e pretendo passar duas noites na região de serra da estrela.
    Adorei o seu roteiro e pretendo segui-lo, incluindo mais alguns atrativos..
    Só senti falta de uma informação, que não tenho encontrado pela internet, existe algum local de visitação para conhecer o processo de fabricação do queijo?
    Se puder me ajudar com essa dica, ficarei imensamente agradecido.

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    Respostas
    1. Oi, Marcos, obrigada e desculpe a demora em responder - eu estava viajando :)

      Olha, tb achei muito difícil encontrar informações sobre lugares para ver a produção de queijos na Serra da Estrela. Sugiro que você converse com os vendedores nas pequenas cidades. A produção, geralmente, é muito artesanal, feita em pequenas propriedades. É uma pista que vale a pena percorrer.

      E se encontrar um lugar legal para acompanhar a produção do queijo, volta aqui pra contar pra a gente :)

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    2. Obrigado, Cyntia!
      Continuo a minha busca..
      Se realmente conseguir encontrar um local que permita ver e conhecer o processo de produção, passo aqui para deixar essa dica.
      ;)

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