quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Uma visita à Universidade de Coimbra

Paço das Escolas: o antigo palácio real virou coração da Universidade de Coimbra
Como não adorar uma cidade que vive em torno de sua universidade? E se essa cidade for Coimbra — com suas ladeiras mouras e suas vistas arrebatadoras para o Rio Mondego  — aí é que o caso de amor fica incontornável e irreversível.


Tive a alegria de voltar a Coimbra durante a viagem de junho a Portugal, desta vez com um pouco mais de tempo pra namorar o meu xodó português e, finalmente, fazer uma visita ao interior de uma das universidades mais antigas do Ocidente. Percorri o Paço das Escolas, visitei a Capela de São Miguel e a Biblioteca Joanina, espaços históricos belíssimos e cheios de significado. 

A longa varanda que domina a fachada do Paço das Escolas chama-se Via Latina e é um acréscimo do Século 18
Mas o grande encantamento de uma visita à Universidade de Coimbra é que ela não é uma apenas um acervo de memórias. É um organismo vivo, em pleno funcionamento, o coração que bate ditando o ritmo da cidade. 

São mais de sete séculos de tradição perfeitamente apropriados pela vida real. O vai e vem para as salas de aula, o burburinho da cafeteria, as pichações e os cartazes. Adoro museus e ruínas, mas a visita à Universidade de Coimbra é a chance de ver ao vivo um percurso sendo trilhado. Muito mais emocionante do que escutar um relato do que já foi.

O Paço das Escolas e a Torre da Universidade. À direita, um detalhe da Via Latina
A Universidade de Coimbra oferece diversos roteiros de visita turística a suas dependências. Escolhi o programa que combina o Paço das Escolas com a Capela de São Miguel e a Biblioteca Joanina. Também é possível subir à Torre da Universidade e visitar o Colégio de Jesus, do Século 16, o colégio jesuíta mais antigo de Portugal e, posteriormente, transformado em espaço para o estudo das ciências naturais.

Além desses roteiros com ingresso pago, há muitos espaços da universidade que têm visitação livre. Por exemplo, o Jardim Botânico da instituição, criado no Século 18 para promover o estudo das ciências naturais. São 13 hectares de alamedas, fontes, claro, plantas trazidas de diversas partes do mundo, bem no coração da cidade. 

Coimbra vista de uma varanda do Paço das Escolas
Para chegar ao Jardim Botânico, é só descer a ladeira que começa no Largo de D. Dinis, na direção do Aqueduto de São Sebastião, também chamado de Arcos do Jardim.

Os  arcos são uma obra do Século 16 que reaproveitou a estrutura de um aqueduto romano, parte do sistema de abastecimento de água da área do antigo castelo (hoje o campus da Universidade).

D. João III contempla sua obra. A estátua do rei, no centro do Pátio das Escolas, é da década de 50 do Século 20
A Torre da Universidade, com cerca de 30 metros de altura, tem um bom mirante para a contemplação do conjunto arquitetônico do Paço
O Largo D. Dinis é a “antessala” do núcleo histórico da universidade. Lá está a estátua do rei fundador da instituição cercada por edifícios modernos, datados na metade do Século 20, como os prédios do Departamento de Matemática e  do Departamento de Relações Internacionais. 

Os prédios da Faculdade de Medicina e dos Institutos de Química e de Física margeiam a Rua Larga, que leva até à famosa Porta Férrea, o acesso solene à área histórica do campus. 


O Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, na encosta do morro onde se assenta o Paço das Escolas

Os Arcos do Jardim
Mesmo para quem vem só de visita, como eu, dá um friozinho na barriga atravessar esse portal tão cheio de significados. A Porta Férrea é a entrada cerimonial da Universidade de Coimbra. 

É por ela que ingressam os novos estudantes, envergando a tradicional capa negra, na solenidade de início da vida acadêmica. Do outro lado estão o imenso pátio, com sua vista inacreditável para Coimbra, o Paço das Escolas, a Biblioteca Joanina e a Capela de São Miguel, entre outras construções.

Pichação em um muro da Universidade: "Não queremos uma fatia do bolo. Queremos a p* da confeitaria inteira"
Chegando à Universidade de Coimbra. À direita, a estátua do rei D. Dinis, fundador da instituição
Os edifícios modernos da Universidade, dispostos em torno do antigo Paço, são da metade do Século 20

O Paço das Escolas, edifício principal da Universidade de Coimbra, tem uma história fascinante. Ele está lá muito antes da primeira aula ser ministrada, ocupando, com feições diversas, o ponto mais alto da cidade.

No local já pulsou o centro político da povoação romana de Aeminium. Também foi o escolhido pelos mouros como o sítio de sua Alcáçova, (fortaleza onde viviam os governantes no tempo do domínio muçulmano). Também foi lá que o primeiro rei português, D. Afonso Henriques, plantou a sede de sua corte, no Século 12, no primeiro Paço Real do jovem Portugal. 

A Faculdade de Medicina, no Largo da Porta Férrea
Olhando em volta, é preciso concordar que não haveria posição mais estratégica para colocar a sede do poder militar e político de uma cidade. Do vasto pátio que se estende diante do Paço das Escolas, debruçado sobre a encosta, o olhar ainda alcança uma larga faixa do Rio Mondego e todo o movimento de suas margens. Do ponto de vista defensivo, não haveria lugar melhor.

Mas Coimbra é especial. Em vez de as armas, muralhas e ameias, o ponto culminante da cidade abriga, desde o Século 16, uma instituição voltada para a investigação, o aprendizado e a preservação do saber. Dá pra não amar?  

O Pátio das Escolas e a Porta Férrea (à direita)
A riqueza da decoração do teto da Sala dos Capelos, no Paço das Escolas
A Universidade de Coimbra, porém, não nasceu ali. Ela foi fundada no Século 13 por ordem do rei D. Dinis e, até 1537, alternou sua sede entre Coimbra e Lisboa, até que D. João III determinou sua fixação definitiva às margens do Rio Mondego, no Século 16.

Dizem alguns historiadores que o monarca perdeu a paciência com o clima boêmio que reinava na vida acadêmica quando a universidade esteve em Lisboa, no Largo do Carmo, o que prova que fazer farra no bairro do Chiado e adjacências é hábito muito mais antigo do que supõe a nossa vã filosofia :).
Só aí a universidade ganharia uma residência definitiva. O local escolhido foi o antigo Paço Real.

A sala das Armas
É difícil não se distrair com as cenas da cidade que invadem o Paço das Escolas por suas janelas, como essa vista para a Sé Velha, à esquerda. À direita, o Salão Amarelo
É impossível não ficar de queixo caído com a beleza dos ambientes no interior do Paço das Escolas. Uma escadaria dupla liga o pátio à Via Latina, a elegante varanda que compõe a fachada do edifício. Ao cruzar a monumental porta de entrada, você encontrará uma sequência de quatro salões magníficos.

O primeiro é a Sala das Armas, que abrigava a antiga Guarda Real Acadêmica, um corpo de alabardeiros que mantinham a segurança do campus (alabarda é uma espécie de lança com um gume similar ao de um machado, na ponta, celebrizada nas imagens da Guarda Suíça do Vaticano, responsável pela segurança dos papas). Não esqueça de olhar para o alto para admirar a bela pintura mural da decoração.

A imponência da antiga Sala do Trono, hoje Sala dos Capelos
A Sala do Exame Privado 
Ao lado da Sala das Armas está o Salão Amarelo, que ganhou esse nome da cor da seda que reveste suas paredes, onde estão em exibição retratos de alguns reitores da Universidade.

Seguindo o longo corredor contorna os salões (e refreando a tentação de parar em cada uma de suas janelas e balcões pra namorar os telhados de Coimbra que se esparramam lá embaixo),  chega-se à estonteante Sala dos Capelos, antiga sala do trono, quando o Paço das Escolas ainda era o Paço Real. (Capelo é aquele chapeuzinho que se usa na formatura).

Um passeio pelas varandas do Paço

Restos de um mosaico romano e um anjo expostos no Paço das Escolas
As paredes vermelhas, o mobiliário escuro em madeiras nobres e os retratos dos reis são magníficos, mas não são páreo para os painéis em dourado e prateado que decoram o teto da Sala dos Capelos, com delicados desenhos, uma obra executada no Século 17. Esse espaço, antes dedicado aos atos de governo dos primeiros reis, agora abriga as solenidades mais importantes da vida acadêmica em Coimbra.

O último salão do roteiro é a Sala do Exame Privado, o antigo apartamento real, hoje usada para a cerimônia de abertura do ano letivo.

O altar da capela, do Século 17
A Capela de São Miguel era a capela real, quando a corte portuguesa ainda tinha sua sede em Coimbra. A construção do Século 11, porém, já não é reconhecível sob a feérica beleza resultante de reformas feitas nos séculos 17 e 18.

Prepare-se para ver de tudo: azulejos, pinturas murais, entalhes intrincados em pedra e madeira, muita cor e muito douramento, especialmente no magnífico altar e no órgão barroco com mais de dois mil tubos e decorado em chinesices. Apesar da profusão de elementos, a harmonia é impressionante.  Como tudo na Universidade de Coimbra, a Capela de São Miguel ainda está viva, com missa todos os domingos e concertos de órgão em ocasiões solenes. 

A decoração do teto e o órgão do Século 18 (abaixo) são impressionantes

Detalhes da decoração do órgão, com elementos em chinesices

Pena que não é permitido fotografar o interior da Biblioteca Joanina, mas acredite em mim: poucas vezes na vida você vai encontrar um lugar tão apaixonante. 

Construída no Século 18, por ordem de D. João V, ela já nasceu como uma das mais ricas bibliotecas europeias, reunindo o que havia de mais importante no conhecimento ocidental da época. Um templo bancado com o ouro do Brasil.

E templo não é só força de expressão. Há uma proposital citação da arquitetura religiosa nos três salões monumentais contíguos, nas pinturas decorativas dos tetos, na solenidade das estantes decoradas com folha de ouro e motivos chineses que abrigam 55 mil livros, na majestade dos portais de pedra que interligam os salões.

A Biblioteca Joanina, no pátio das Escolas

O porão da biblioteca 
As paredes da biblioteca têm mais de dois metros de espessura, transformando o espaço em uma espécie de caixa forte onde a temperatura e umidade são perfeitamente controladas. Isso contribui para a conservação dos livros, mas também para a preservação da decoração, que é praticamente a original.

Pátio da Faculdade de Direito, no interior do Paço das Escolas

Mas o esplendor não é tudo. A Biblioteca Joanina já seria espetacular se fosse apenas um depósito de maravilhas mortas apenas para deleite colecionista e para a memória. Esse organismo, porém, prossegue em atividade, 300 anos após sua fundação, permitindo a pesquisa e o acesso ao conhecimento contido em obras raras e de valor inestimável. 

Além das consultas presenciais franqueadas a pesquisadores, boa parte do acervo da Biblioteca Joanina está digitalizado e acessível a qualquer mortal, pelo portal almamater.uc.pt. Mais Coimbra, impossível.

Cafeteria da Universidade de Coimbra
Dicas práticas
Os espaços externos da Universidade de Coimbra têm visitação livre e gratuita. Para realizar um dos percursos históricos, é preciso comprar o ingresso (o preço varia de acordo com o roteiro) na bilheteria que funciona na Biblioteca Central, no Largo da Porta Férrea, em frente à Faculdade de Medicina. Ao comprar o bilhete, é preciso agendar o horário de entrada na Biblioteca Joanina, onde são admitidos grupos de no máximo 60 pessoas para um percurso de 20 minutos (as fotos só são permitidas no subsolo, antiga área da prisão).

As visitas podem ser feitas diariamente, das 9h às 19:30h, de março a outubro. De novembro a março o horário é 9:30h às 13h e das 14h às 17:30h. Confira todos os horários aqui.

Como disse, escolhi o percurso que conjuga o Paço das Escolas, a Capela de São Miguel e a Biblioteca Joanina (programa 3). Esse roteiro custa € 10.

O aluguel do audioguia custa € 3. Também são realizadas visitas guiadas. Para maiores informações, consulte a página da Universidade de Coimbra/visitas.

Cartazes das chapas concorrentes à diretoria do Centro Acadêmico de Direito (esq) e anúncios variados na cafeteria
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