quinta-feira, 7 de julho de 2016

Coimbra: o Convento de Santa Clara

Santa Clara-a-Nova: a vista do lado de fora é linda, mas não perca este claustro por nada
A margem Oeste do Rio Mondego, na altura de Coimbra, é dona de uma das paisagens mais bonitas que eu já vi na vida. É de lá que a gente avista a velha cidade em seu esplendor — um bordado de telhados e janelinhas que se entrelaça morro acima, na direção do Relógio da Torre da Universidade, o grande senhor do tempo em uma cidade que preferiu colocar aulas em vez de canhões em seu ponto culminante.

O lugar perfeito para admirar essa maravilha é o pátio externo do Convento de Santa Clara-a-Nova, plantado no topo de uma elevação quase simétrica aos altos da Universidade. A vista do mirante é tão arrebatadora que ofusca a história e a beleza do edifício. Na minha primeira passagem por Coimbra foi assim: fiquei tão extasiada com a vista que negligenciei a visita ao interior do convento

Ainda bem que tive uma segunda chance e pude reparar a heresia: o Convento de Santa Clara-a-Nova é uma das atrações históricas mais bacanas de Coimbra.

Coimbra vista do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova. O ponto culminante da cidade é a Torre do Relógio da Universidade
Construído no Século 17, o Convento de Santa Clara-a-Nova fica no topo de uma ladeira de dar medo, de tão íngreme. É usual que as religiões construam seus templos nas alturas, mas a opção, neste caso, tem tanto de simbólica quanto de pragmática.

É que o convento original, erguido na beira do Rio Mondego, sofreu com as inundações desde sua fundação, no Século 13. Depois de 400 anos de alagamentos, a Ordem das Clarissas resolveu mudar-se para o alto do morro.

O edifício gótico do convento original, Santa Clara-a-Velha, ainda está lá na beira do rio (e a inundação mais recente a incomodar a veneranda construção aconteceu agora, neste inverno de 2016). Está aberto à visitação e abriga um centro de interpretação com a memória da Ordem das Clarissas em Coimbra.

Santa Clara visto do paço das Escolas, na Universidade de Coimbra
Lá no alto do morro, o conjunto de Santa Clara-a-Nova é espetacular. Sua fachada, com mais de 300 metros de extensão, é uma visão que se impõe sobre a paisagem da margem Oeste do rio, uma das imagens mais associadas a Coimbra, quase onipresente no horizonte — mas o melhor lugar para admirá-lo é do pátio do Paço das Escolas, na Universidade, de manhã cedo, quando o sol incide sobre o convento no ângulo certinho.

As paredes da igreja são recobertas de douramentos, como nesses retábulos 
Depois de ver o convento de longe, de manhã, vá vê-lo de perto no final da tarde, para — novamente — aproveitar o melhor ângulo do sol, que a essa altura vai estar pintando um quadro lindíssimo sobre o Centro Histórico de Coimbra, na margem Leste.

No interior de Santa Clara-a-Nova, você terá acesso à Igreja, ao Coro Baixo (que não pode ser fotografado) e ao Claustro Principal.

A igreja maneirista guarda os restos mortais da rainha Isabel, canonizada no Século 18 e padroeira de Coimbra
A Igreja impressiona pela opulência dourada do altar-mor e retábulos laterais. Ela se comunica diretamente com a área da clausura, que só pode ser atravessada pelos visitantes na companhia de um guia da equipe do convento.

Uma porta estreita no pequeno claustro interno dá acesso ao Coro, simplesmente espetacular. O sotaque claramente medieval do salão de teto em abóbadas ganha viço nas delicadas pinturas florais que decoram suas pilastras e forro.

A visita termina no belo claustro do Século 18

O Coro guarda relíquias da Rainha Santa Isabel, que no Século 14 adotou o convento (ainda no edifício antigo) e a ele se recolheu após a morte do marido, o Rei D. Dinis (fundador da Universidade de Coimbra). Seu corpo, ainda preservado, pode ser entrevisto em uma urna na igreja, mas confesso que não olhei muito — antes de iniciar o percurso da visita, a guia avisa sobre isso, exatamente para preparar os mais impressionáveis. Eu não sou muito impressionável, mas tenho angústia com esse tipo de visão.

Uma das alas do edifício abriga hoje um albergue de peregrinos e faz parte da rota a Santiago de Compostela, em memória da peregrinação empreendida pela rainha ao santuário galego.


A última etapa da visita é o Claustro Principal, do Século 18, obra do engenheiro e arquiteto húngaro Károly Mardell — o mesmo que construiu o palácio do Marquês de Pombal.

O claustro deve ser bonito a qualquer hora do dia e em qualquer estação do ano, mas o sol dourado de um final de tarde de primavera fez com que ele parecesse mágico. Não é uma construção rebuscada, mas a luminosidade e o sossego eram irresistíveis.

A fachada exterior do Convento de Santa Clara
A Rainha Isabel e o rei D. Dinis são personagens profundamente ligados à cidade de Coimbra, sede da corte nos primórdios do Reino de Portugal. Dinis era um entusiasta da poesia, não só no mecenato, mas destacando-se, ele mesmo, como trovador. Fundou a Universidade (inicialmente em Lisboa, mas trazida para a cidade em 1308).

Isabel notabilizou-se pelas obras de caridade e considerada santa ainda em seu tempo. Foi canonizada no Século 18 e é a padroeira de Coimbra, que celebra a data de sua morte, 4 de julho, com um feriado.


Quando você for a Coimbra, reserve cerca de uma hora para esse passeio, de preferência no final da tarde, que é quando a luz vai estar perfeita para contemplar a cidade do mirante do convento.

Mosteiro de Santa Clara-a-Nova
Calçada de Santa Isabel, Alto de Santa Clara
Horários: no inverno (outubro a abril), as visitas são de segunda a sexta, das 9h às 18:45h. Sábados, domingos e feriados, até as 18h. No verão, de segunda a sábado, das 8:30h às 19h00 , e aos domingos e feriados das 9h às 19h.
Ingressos: a visita completa (igreja/coro baixo/ exposição/claustro/miradouro) custa €5. Para ver só a Igreja e o claustro o preço é €2.

Convento de Santa Clara-a-Velha
Rua das Parreiras, ao lado da Ponte de Santa Clara (as linhas de ônibus 6, 14, 14T, 20 e 31 passam por lá).
Horário: Visitas diárias. De maio a setembro, das 10h às 19h. De outubro a abril, das 10h às 18h (aos fins de semana, até 19h).
Ingresso: €4. Estudantes e maiores de 65 pagam €2. Menores de 12 anos não pagam. A visita é gratuita a todo o público no primeiro domingo de cada mês.


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