quarta-feira, 18 de maio de 2016

Fósseis, estrelas e arquitetura:
3 atrações nos arredores de Villa de Leyva

El Infiernito é um "Stonehenge" do povo muisca, usado para marcar a passagens das estações e o tempo de plantar e de colher
Se você gosta de cidades coloniais bem preservadas, já vai amar Villa de Leyva logo de cara. Há muito o que explorar naquelas ruas de calçamento irregular, sombreadas pelas fachadas de belos sobrados seculares. Mas essa perolazinha colombiana também é cheia de surpresas em seus arredores, como pinturas rupestres, sítios pré-colombianos, fazendas de avestruzes e até uma vinícola.

Eu visitei cinco atrações no entorno da Villa de Leyva. O mosteiro dominicano de Ecce Homo, maravilhoso, já ganhou um post só pra ele. Aqui, faço a minha avaliação sobre outras três: o Observatório Astronômico Monquirá, uma espécie de Stonehenge do povo muisca, o Museu El Fósil, que exibe o famoso fóssil de um enorme predador marinho, o cronossauro, com 130 milhões anos de idade, e a Casa Terracota, curiosa construção totalmente em cerâmica, com pitadas de Gaudí.

A quinta atração, os Pozos Azules (poços azuis), são a coisa mais sem graça que já vi na vida: crateras resultantes da exploração de minério alagadas pelas chuvas. Como o solo da região é rico em magnésio, as águas ficam muito azuis. Se você curte devastação ambiental em technicolor, vá. Caso contrário, não perca seu tempo.

Para visitar todas essas atrações, contratei um táxi indicado pela minha pousada em Villa de Leyva. O "pacote" custou 150.000 COP (cerca de R$ 175).

Se você sair cedo, lá pelas nove da manhã, dá para ver tudo numa tacada só e voltar à cidade a tempo de um almoço tardio. A outra vantagem de sair cedo é evitar o sol e o calor inclemente da região.

El Infiernito, o Stonehenge muisca
O Observatório Astronômico de Monquirá, ou El Infiernito, tem 2.200 anos de idade
Villa de Leyva tem uma longa tradição nas artes e ciências de contemplação dos céus. Desde a colônia, os balcões da cidade já conviviam com lunetas que seguiam o movimento dos astros. Pelo que explicam os locais, são as condições climáticas da região que favorecem a observação das estrelas.

Hoje, O Planetário de Bogotá promove todos os anos um concorrido Festival de Astronomia em Villa de Leyva, nos meses de fevereiro. O maior telescópio da Colômbia também está lá nos arredores da vila.

O alinhamento das pedras aponta para o ponto exato onde nasce o sol no solstício de inverno
Mas a tradição astronômica da cidade é muito mais antiga que a presença europeia naquela região. Muito antes de Colombo, o povo muisca já acompanhava atentamente o movimento dos corpos celestes, marcavam a passagem do tempo e celebravam solstícios e equinócios como ciclos da vida — a ciranda das estações que sempre apontou a hora de plantar e de colher.

Essa era a função do Observatório Astronômico Monquirá, também conhecido como Observatório Monquirá ou, popularmente, El Infiernito. Era lá que, observando os ciclos do sol, os muisca reconheciam a chegada das estações chuvosas. A fileira de pedras do calendário indígena, disposta de Leste para Oeste, aponta exatamente para a posição onde nasce o sol no solstício de inverno (24 de junho) — a Lagoa sagrada de Iguaque, que a cosmogonia muisca identifica como local de nascimento da deusa Bachué, a mãe daquele povo.

Os símbolos fálicos eram parte de rituais de fertilidade e escandalizaram os primeiros europeus a visitar El Infiernito
El Infiernito, porém, é muito mais famoso por seus enormes totens fálicos, objetos de culto que certamente escandalizaram os primeiros europeus a contemplarem o observatório. Outros não fizeram cerimônia e levaram essas colunas para usá-las em construções.

A relação dos rituais de fertilidade com a observação astronômica — cuja função principal, afinal, era determinar a passagem das estações e identificar as épocas de plantio — era recorrente entre os povos antigos dos diversos quadrantes do mundo. Os arqueólogos calculam que El Infiernito tenha pelo menos 2.200 anos de idade, o que significa que o local foi construído por um povo anterior aos muisca, cujo domínio daquela região data do Século 15.


De todos os lugares que visitei nos arredores da Villa de Leyva, o observatório astronômico dos muisca foi (junto com o mosteiro de Ecce Homo) o que mais gostei. Claro que eu sou fã de pedrinhas milenares, como vocês já sabem. Acho particularmente fascinante ver como povos tão antigos, sem acesso à nossa tecnologia, conseguem construir instrumentos tão apurados para marcar a passagem do tempo.

No sítio arqueológico também foi encontrada uma tumba em forma de dólmen (construção megalítica na qual as uma série de pedras sustentam um tipo de laje, também em pedra) onde foram escavadas diversas oferendas e os restos de uma criança. Os arqueólogos que continuam a estudar o local, descoberto em 2006, acreditam que a tumba servia para o sepultamento da nobreza muisca.

 
El Infiernito pode não ter a grandiosidade de Stonehenge, mas é equivalente, como testemunho do engenho humano.

A Tumba Dolmênica

Sítio Arqueológico de Monquirá (El Infiernito)
(Estação Astronômica Muisca ou Sítio Arqueológico de Monquirá). A 12 km do Centro de Villa de Leyva. De terça a domingo, das 9h às 12 e das 14 às 17h. Entrada: 3.000 COP (R$ 3,50). Para saber como chegar, veja o mapa.

Se você se interessou em visitar o Observatório Astronômico de Villa de Leyva, dono do maior telescópio da Colômbia, ele fica a 14 km da cidade, na estrada que leva ao Mosteiro de Ecce Homo e El Infiernito, mas só atende mediante agendamento (ligue para 310 2614456). A entrada custa 12.000 COP (R$ 14).

 

Um pouquinho de Gaudí na Casa Terracota
400 toneladas de barro foram usadas na construção da casa
Em 1989, o a bogotano Octavio Mendoza decidiu unir seu ofício, a arquitetura, com seu hobby, a cerâmica. Trabalhando em uma construção nos arredores da Villa de Leyva, ele teve a ideia de moldar uma obra diferente, uma casa de 500 metros quadrados de área, sua futura residência, toda em argila cozida.

O material para a construção estava ali mesmo: 400 toneladas de barro foram retiradas de um terreno próximo ao lote que Mendoza comprou para plantar a sua Casa Terracota. Pacientemente, e com a ajuda de trabalhadores locais, ele moldou cada etapa do edifício, que era posteriormente cozida em um forno projetado pelo próprio arquiteto.

Salamandras e mosaicos lembram Gaudí
Concebida como um refúgio para a futura aposentadoria de Mendoza, a obra rapidamente virou atração turística por seu formato inusitado e pela técnica construtiva escolhida.

Há muito de Gaudí nas formas curvas, adornos florais executados em mosaicos e na preferência escancarada pelas salamandras, lagartixas e outros répteis que decoram os ambientes da Casa Terracota. Também é fácil reconhecer muito da estética da Casapueblo, obra do uruguaio Carlos Paez Vilaró que se consagrou como uma das atrações dos arredores de Punta del Leste.

A sala principal da Casa Terracota
As referências a répteis Mendoza também atribui ao passado local, que ele define como “Terra de Dinossauros” — a área onde se assenta a Villa de Leyva é pródiga em vestígios fósseis, herança do grande mar que cobriu aquela parte do território colombiano no Período Cretáceo (de 145 milhões a 65 milhões de anos).

Móveis e utensílios também são feitos em cerâmica

Visitar o interior da Casa Terracota é como entrar na casa de um personagem fantástico – um gnomo? Um hobbit? Lá estão as paredes que se curvam, aconchegantes, construindo cantinhos misteriosos, janelas no teto, para mostrar as estrelas, os detalhes surpreendentes e divertidos... Praticamente tudo é feito em cerâmica: camas, sofás, estantes, utensílios, enfeites.

Um passeio instigante e divertido.

Casa Terracota

Diariamente, das 9h às 18h. Entrada 7.000 COP. Para chegar, siga o mapa abaixo. São só 10 minutinhos de carro a partir do Centro de Villa de Leyva.



O arrepiante cronossauro
O cronossauro: um jacarezão de 130 milhões de anos
Como já falei aqui, toda a região em torno de Villa de Leyva é famosa pela quantidade de fósseis encontrados por lá. Vários exemplares dessas descobertas podem ser vistos no Museu de Paleontológico da cidade. Nos arredores da cidade, o Centro de Investigações Paleontológicas, com uma proposta mais didática, também exibe fósseis encontrados na região e permite ao visitante conhecer as diversas etapas de investigação e estudo dos fósseis, desde o trabalho de campo, com buscas e escavações, limpeza e coleta dos espécimes em um ambiente simulado que as crianças adoram.

Bem em frente a esse Centro fica o Museu El Fósil, mais modesto, mas famoso por ser o “dono” da grande estrela pré-histórica da região, um enorme cronossauro (Kronosaurus Boyacensis), um predador marinho que viveu a 130 milhões de anos, encontrado nos arredores e que a mobilização da população local impediu que fosse transferido para Bogotá.

Fui lá visitar o bicho — que parece um jacaré criado com Toddy. Também estão expostos vários exemplares de cefalópodos (que parecem caramujos gigantes), de 400 milhões de anos, e outros animais pré-históricos fossilizados.

Uma coisa que os locais fazem questão de explicar é que na riquíssima quantidade e variedade de fósseis encontrados na região da Villa de Leyva não há sequer um exemplar de dinossauro. Os fósseis achados na área são todos marinhos, antigos habitantes do grande mar que já cobriu aquelas paragens.

É muito importante alertar que, eventualmente, você poderá ser abordada por alguém tentando vender um fóssil. Não compre de jeito nenhum. O tráfico de fósseis é crime recorrente naquela região da Colômbia, não seja cúmplice dessa prática que, além de ilegal, prejudica enormemente a pesquisa científica. Incentivar o mercado clandestino dessas peças é, indiretamente, estimular a busca e coleta criminosa de fósseis por gente mal-intencionada. Não caia nessa.

Museu El Fósil
Vereda Monquirá (na direção do município de santa Sofía), a 5,5 km do centro da Villa de Leyva (veja o mapa). Diariamente, das 8h às 18h. Entrada 6.000 COP. Para chegar, siga o mapa abaixo. São só 10 minutinhos de carro.


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