quarta-feira, 13 de abril de 2016

Colômbia:
O Museu do Mosteiro Ecce Homo

Claustro do Mosteiro de Santo Ecce Homo, do Século 17
Anote no seu caderninho: quando você for curtir os encantos de Villa de Leyva (meu novo xodó na Colômbia), vale a pena encarar 13 quilômetros de estrada estreita e mal conservada para conhecer um pequeno tesouro colonial, o Mosteiro de Santo Ecce Homo, do Século 17, aninhado em um vale sossegado, de vegetação retorcida e terra esturricada que lembra um pouco a região do Semiárido brasileiro.

Fundado pelos dominicanos em 1620, Ecce Homo hoje é um museu imperdível para quem gosta de arquitetura e arte colonial. Seu acervo tem ênfase na arte sacra dos séculos 17 e 18, mas o melhor da visita é percorrer o belíssimo edifício e aprender um pouquinho sobre o processo de colonização doVice-Reino de Nova Granada, que abarcava os atuais territórios da Colômbia, Venezuela, Equador e Panamá.

A fachada do mosteiro sofreu muitas alterações ao longo do tempo, mas a pedra entalhada na entrada da igreja é original

O altar principal da igreja do mosteiro
A fachada externa de Ecce Homo, muito simples, não dá pistas para o que vamos encontrar no interior do mosteiro. 

O primeiro encantamento é com o claustro de inspiração renascentista, muito florido, onde alguns totens pré-colombianos convivem com peças fósseis encontradas na região e imagens sacras. Historiadores acreditam que as colunas das arcadas que circundam o pátio tenham sido pilhadas do observatório astronômico El Infiernito, que fica nas proximidades. O poço, no centro do claustro, dá um toque ainda mais bucólico à cena, mas ele é uma adição recente, acrescentado em uma reforma de 1966.

As colunas que sustêm as arcadas em torno do claustro teriam sido trazidas de um sítio pré-colombiano das redondezas. À direita, um típico confessionário colonial da Colômbia

Outro ponto alto é a igreja do mosteiro, em estilo mudéjar, com um magnífico altar dourado, do Século 17. Contribuem para o efeito cênico o intrincado jogo das vigas de madeira nobre que sustentam o teto, a beleza do coro e do púlpito em madeira. Uma capela lateral também exibe um altar precioso.

A capela lateral da igreja e um detalhe de seu altar
Fóssil de uma cobra encontrado na região - pelo tamanho, deve ser uma ancestral da sucuri
Desde o início dessa colonização, as ordens religiosas costumavam vir na esteira dos soldados, consolidando o domínio militar com a conquista das almas dos povos locais. Na região de Boyacá, onde ficam Villa de Leyva e Ecce Homo, os jesuítas e dominicanos eram as ordens mais presentes e trataram de estabelecer vários mosteiros, voltados para esse processo de conversão dos indígenas ao cristianismo. Ecce Homo, por exemplo, tinha uma “Escola de Deus” destinada às crianças nativas.

Recriação de uma oficina de tecelagem do mosteiro. À direita, calçados de palha trançada usados pelos indígenas da região

Os objetos da lida: junta de bois, pedra de moinho, embornais e outros utensílios. À direita, a simplicidade da cela de um dominicano
Os mosteiros de Nova Granada guardavam alguma correspondência com as missões jesuíticas estabelecidas no Sul do continente — unidades que visavam à autossuficiência, com plantações e oficinas e onde se pretendia evangelizar e ocidentalizar a população indígena, apresentando-as, também, às técnicas produtivas trazidas do Velho Mundo.

O grande diferencial talvez seja a governança dessas unidades: nos mosteiros, mandavam apenas os padres, ao contrário das missões jesuíticas, que tinham um governo civil indígena.

Rosácea decorativa e quadro pintado no mosteiro, que além de ofícios práticos, também ensinava artes aos indígenas
Altar do Século 17 em uma antiga capela do mosteiro
Um pouco dessa história está representada em vários ambientes recriados nas salas que cercam o claustro e onde estão expostos utensílios usados na lavoura e nas oficinas do mosteiro, além de aspectos da vida religiosa. As antigas capelas do Rosário, Ecce Homo e da Crucificação exibem ricas peças litúrgicas e uma interessante coleção de imagens sacras usadas em procissões e outras celebrações religiosas.

Coleção de imagens sacras do mosteiro usadas em procissões e outras celebrações


Objetos sacros e litúrgicos expostos na Sacristia e na Capela da Crucificação
A peça mais famosa do mosteiro, porém, já não está lá. É o quadro Ecce Homo, que deu o nome ao local. A obra foi pilhada durante o Saque de Roma de 1527 — quando as tropas do Sacro Império Romano-Germânico do espanhol Habsburgo Carlos V fizeram uma razia na cidade eterna — e trazida para Nova Granada por um soldado, pai do patrocinador do convento. Quando chegou a vez do mosteiro ser saqueado, a tela foi roubada e levada para a cidade de Sutamarchán, a 13 km, onde está até hoje.

O cemitério do mosteiro
A missão primordial de Ecce Homo, instalado bem distante das povoações da área, era servir de retiro para os frades mais velhinhos da ordem. O sossego, porém, acabou com as turbulências políticas do Século 19 e as lutas pela independência da Colômbia.

O mosteiro foi ocupado diversas vezes, pelas várias facções em luta, que o utilizaram como quartel e depósito. Ecce Homo teve que esperar quase 100 anos para reconquistar sua tranquilidade monástica. Hoje, apesar de transformado em museu, ainda tem vida religiosa e alguns frades residentes.


Dicas páticas
Museu e Mosteiro do Santo Ecce Homo
Vereda do Vale de Ecce Homo, área rural do município de Sutamarchán, a 13 km da Villa de Leyva.
Visitação: de segunda a sexta, das 9h às 17. Entrada gratuita.

Refeitório
Como chegar
Para quem está de carro, é bem tranquilo ir da Villa de Leyva até o mosteiro, é só pegar a estradinha Leyva-Moniquirá e prestar atenção à placa que indica a entrada para Ecce Homo.

Não há transporte público ligando Villa de Leyva a Ecce Homo. Eu fiz esse passeio com um táxi indicado pelo hotel. Por 150.000 COP (cerca de R$ 180), o motorista contratado me levou a algumas atrações nos arredores de Leyva (Observatório Astronômico El Infiernito, Museu El Fosil, Pozos Azules e ao mosteiro). Fica salgado pra quem está viajando sozinha, mas o observatório e Ecce Homo valem muito a pena.


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A Colômbia na Fragata Surprise

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