domingo, 24 de abril de 2016

Arte e história: 6 igrejas de Bogotá

Igrejas de Bogotá:
visitas gratuitas e a beleza da arte sacra colonial 
Pra quem gosta de ver obras de arte e peças históricas, visitar igrejas e outros locais de culto é quase tão bom quanto ir a um museu. A devoção, ao longo da história, sempre levou as diversas civilizações a adornar seus espaços religiosos com belezas muito especiais — se você prestar atenção, aliás, vai lembrar que uma parte considerável dos objetos expostos em museus vieram exatamente de igrejas e templos dos mais diversos credos.

Bogotá, a antiga capital do vasto e poderoso Vice-Reino de Nova Granada, não foge à regra observada nas mais importantes das Américas. A cidade tem um belíssimo acervo de igrejas coloniais que são uma festa para quem gosta de arquitetura, arte e história. Na minha temporadinha colombiana, aproveitei para visitar seis dessas igrejas. Elas ficam bem próximas umas das outras e rendem um ótimo roteiro que você pode fazer a pé.

Dá só uma olhada nessas lindezas e comece a se programar. No final do post, tem um mapinha para ajudar a organizar seu passeio.

La Candelaria 
Calle 11 (duas quadras acima do Museu Botero) com Carrera 4ª. Abre diariamente, das 6:30h às 12h e das 14h às 18:30h.


La Candelaria, coração do bairro e muito frequentada pelos moradores
Quase desisto de ver o interior da Candelaria, pois no clima da Semana Santa, período da minha visita, as missas se sucediam no velho tempo colonial — não faço visitas turísticas a lugares de culto durante celebrações. Mas estava convencida que a igrejinha amarela, de traços muito simples na fachada, já mereceria a visita só por ser o coração do bairro histórico de Bogotá, que toma emprestado seu nome.

A pintura do forro é um dos tesouros da Candelaria
O coro e o lindo altar dourado da Candelaria
Que bom que eu insisti, pois o interior da Candelaria é belíssimo. Inaugurada no comecinho do Século 18, a igreja é dona de alguns tesouros artísticos impressionantes. O que mais chama a atenção é o magnífico altar-mor com quase 12 metros de altura, entalhado em madeira e totalmente revestido em ouro, onde se destaca a imagem da Virgem da Candelária. As pinturas do forro também são primorosas, assim como a decoração do coro e as capelas laterais.

Os altares laterais da Candelaria também são magníficos

Catedral
Plaza de Bolívar, esquina com Calle 11. A visitação varia de acordo com os horários das missas. 



A Catedral de Bogotá é a única igreja deste roteiro que não faz parte do patrimônio colonial da cidade. Inaugurada em 1823, já na época republicana, seu interior adota um estilo neoclássico que contrasta fortemente com a fachada de pedra. Ela ocupa o mesmo local da primeira capelinha do Século 16, erguida em palha pelos pioneiros da evangelização de Nova Granada, posteriormente substituída por um edifício em taipa.

Externamente, a Catedral tem um aspecto imponente, que domina a Praça de Bolívar — onde também estão as sedes da Suprema Corte, do Parlamento da Colômbia e da Prefeitura de Bogotá. Seu interior, porém, é muito pouco rebuscado, marcado por paredes e colunas num sóbrio tom de creme. As esculturas da fachada representam São Pedro e São Paulo e Nossa Senhora da Conceição (no centro), a quem a igreja é dedicada. 

Um raro momento sem multidões na Catedral de Bogotá
Apesar da construção “recente”, a Catedral guarda uma série de peças herdadas das igrejas que existiram anteriormente no local, a começar pela porta principal, do Século 17, o altar-mor, do Século 18. Preste atenção às capelas laterais, que exibem imagens preciosas. Atrás do altar-mor está a Capela da Virgem de El Topo, imagem que é considerada uma das maiores relíquias da arte sacra bogotana.

Foi bem difícil circular e fotografar a Catedral durante os feriados da Semana Santa, porque as missas se sucediam, sempre abarrotadas de gente — era impressionante a quantidade de ônibus que chegavam dos diversos bairros da cidade para as celebrações. Aproveitei para observar a forte religiosidade dos bogotanos. Afinal, entender um pouquinho dos costumes locais é parte fundamental no prazer de viajar.

San Agustín
Carrera 8ª, esquina com Calle 7, em frente à Casa de Nariño. Diariamente, das 9h às 17h.

San Agustín ganhou meu coração
Se eu tivesse que eleger a igreja mais bonita que vi em Bogotá, meu voto iria para San Agustín. Ela também é do Século 17 — época que as riquezas do já consolidado Vice-Reino de Nova Granada tornou a mais profícua para a construção e embelezamento dos locais de culto. Como a maioria de suas contemporâneas que visitei, ela se esmera em surpreender o visitante com um interior arrebatador de tão bonito, em contraste com um exterior sem maiores adornos.

A rica decoração do forro e o teto em cañon

Altares laterais de San Agustín
Além de um altar-mor maravilhoso, San Agustín encanta pelo engenhoso “teto em cañon”, de formato abaulado, o único da cidade (técnica que já tinha me chamado atenção nas igrejas coloniais de Quito) e pela decoração solar e quase naïf de suas paredes caiadas, que recebem apliques dourados em motivos florais.


Clara, luminosa e tranquila, nem parece que San Agustín ficou famosa por conta de uma batalha travada em seu entorno, em uma tentativa de golpe militar do Século 19 — a Casa de Nariño, palácio do governo, fica bem em frente a ela, do outro lado da rua.


Igreja de San Francisco
Carrera 7ª, esquina com a Calle 13 (também chamada de Avenida Jimenez)
De segunda a sexta, das 6:30h às 20 horas. Sábados, das 6:30h às 12:30h e das 16h às 20h. Domingos, das 6:30h às 14 e das 16:30h às 20h. Feriados, apenas das 8h às 13h


O altar-mor de San Francisco, obra prima da arte sacra colonial
Uma das igrejas mais antigas de Bogotá, a Igreja de San Francisco é um colosso. Suas paredes externas de pedra nua, veteranas gastas pelo tempo, guardam um interior recoberto de dourados e intrincados entalhes, um dos conjuntos de arte sacra mais bonitos que já vi em uma cidade colonial. E, acredite, só entrei lá por acaso, fazendo hora para visitar o Museu do Ouro, que fica do outro lado do Parque Santander.
Esse exterior em pedra nua maltratada pelo tempo não dá a menor pista do que você vai encontrar lá dentro...
O vasto interior de San Francisco é parcamente iluminado, talvez de propósito: entrei pela porta lateral naquela penumbra e, quando olhei para a direita, quase caí de costas ao me deparar com o magnífico altar-mor do Século 17, todo recoberto em ouro, atraindo para si toda a luz que penetra por pequenas aberturas nas paredes. Lindo demais.

Só depois de muito olhar é que consegui desgrudar os pés do chão, chegar perto do altar, conversar um pouco com os frades que cuidam do templo (e que não disfarçam a satisfação de contar a história da igreja) e explorar outros detalhes maravilhosos de San Francisco.

Uma capela lateral e o campanário de San Francisco
A igreja foi construída logo após a fundação de Santa Fé de Bogotá, no começo do Século 17—o auge do poder e riqueza do Império Espanhol. O altar-mor, em estilo flamengo, é dessa época e é considerado uma das peças mais importantes da arte religiosa da América Espanhola. Todos os detalhes do interior do templo são preciosos: os entalhes e pintura do forro, as capelas laterais, o sotaque mudéjar da decoração das paredes e tetos, as ricas imagens de santos, as telas que adornam altares laterais—algumas delas de mestres como o espanhol Zurbarán ou Gregorio Vásquez, o mais destacado pintor da Bogotá colonial.

Eu pedi permissão ao padre que acabara de celebrar a missa para fotografar o interior de San Francisco, mas, em geral, não é permitido fazer imagens internas do templo.

La Tercera
Carrera 7ª, esquina com Calle 16 (também conhecida como Calle del Arco). Visitas de segunda a sexta, das 7h às 18h. Sábados, das 10:30h às 13h, e domingos apenas das 11h às 13h. 


Detalhe da fachada de La Tercera e a única foto que pude fazer do interior do templo
Depois de ver o espetáculo de San Francisco, a gente corre o risco de se dar por satisfeita e esnobar as duas outras igrejas (La Tercera e Veracruz) que compõem o conjunto de monumentos históricos dessa região da Carrera 7ª, na altura do Parque Santander. Não faça essa bobagem.

A Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, ou La Tercera, como se diz por lá, não vai chamar muita atenção pelas dimensões ou pela fachada simples, mas quando você entrar, vai entender porque ela é considerada uma das grandes pérolas da arte sacra colonial do antigo Vice-Reino de Nova Granada.

Veracruz, à esquerda, e La Tercera. Do outro lado da praça está o Museu do Ouro
Na igreja da Ordem Terceira (a ordem leiga dedicada ao santo) não há ouro, mas a nobreza da madeira nua que recobre totalmente suas paredes, numa vertigem de entalhes que rodopiam por altares, painéis e forro, reproduzindo carinhas de anjos, folhagens e pequenos animais, já esboçando um sotaque rococó. Tudo em carvalho maciço — o bom e velho carvalho das antigas embarcações que cruzavam o Atlântico no Século 18, época da construção do templo.

Escassamente iluminada, silenciosa e discreta, La Tercera exige um tempo para o olhar se acostumar à penumbra e começar a descobrir seus detalhes. É uma visita para ser feita sem pressa, com resultados arrebatadores.

Não é permitido fotografar o interior de La Tercera. A foto que você vê neste post foi feita segundos antes de eu ser informada dessa regra.

Veracruz
Carrera 7ª, esquina com Calle 16. As visitas turísticas são permitidas sempre uma hora antes da realização das missas, das 11h às 12h ou das 17h às 18.

Veracruz é do Século 16, mas sua referência mais forte é o período da luta pela independência
A capela original de Veracruz foi construída no Século 16, nos primórdios da colônia, mas esta igreja fala muito mais da República Colombiana do que do Vice-Reino de Nova Granada, já que desde o Século 19 ela é o Panteão Nacional, local de sepultura de muitos heróis da independência do país.


O interior da Igreja de Veracruz, Panteão Nacional da Colômbia
Localizada entre San Francisco e La Tercera, Veracruz completa o conjunto de monumentos mais importante da arquitetura sacra de Bogotá e, ao contrário de suas vizinhas, exibe uma luminosidade cativante em suas sóbrias paredes caiadas, onde a decoração em cores exuberantes oferece o contraponto exato.

Os belos altares laterais e aos detalhes decorativos contrastam com a sobriedade caiada de Veracruz

Siga o mapa:

As seis igrejas citadas no post estão marcadas em vermelho no mapa. Repare como ficam próximas umas das outras e rendem um roteirinho a pé bem bacana pelos tesouros da arte sacra colonial de Bogotá.

Além dessas seis igrejas imperdíveis, tentei ver a Capela de La Bordadita. Queria muito ver a famosa imagem da virgem bordada sobre uma tela de seda que dá nome à igrejinha. A visitação, porém, estava suspensa, já que a capela integra o conjunto da Universidade do Rosário, fechada durante os feriados da Semana Santa.

Os feriados também frustraram minhas visitas à Igreja de Las Águas, apontada como a mais antiga de Bogotá, e a Nuestra Señora del Egipto, na parte mais alta do bairro da Candelaria. As três aparecem em azul no mapa. Quem sabe você tem mais sorte do que eu e consegue encontrá-las abertas...

Homenagem aos heróis da independência colombiana na fachada de Veracruz. À direita, a porta principal da Capela de La Bordadita, hoje integrada ao patrimônio da Universidade do Rosário
Egipto e Las Águas
A torre de El Carmén ao vivo e a reprodução da igreja em cerâmica, na minha coleção, ao lado de Las Águas e La Tercera
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3 comentários:

  1. Ai se eu tivesse lido estas preciosas informações antes de ir lá . minha viagem à Colombia teria sido muito mais bonita do que foi . Infelizmente ninguem por lá me informou sobre estas maravilhosas igrejas e não as visitei . Helena

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    1. Oi, Helena, realmente não há muita informação nos guias sobre as igrejas de Bogotá - ao contrário de Quito, por exemplo. A Candelaria e a Catedral são as mais faladas.

      Eu sempre dou uma olhadinha em igrejas antigas, pq sempre tem alguma coisa bonita pra ver - geralmente, são pequenos museus que não cobram entrada.

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    2. Oi, Helena, realmente não há muita informação nos guias sobre as igrejas de Bogotá - ao contrário de Quito, por exemplo. A Candelaria e a Catedral são as mais faladas.

      Eu sempre dou uma olhadinha em igrejas antigas, pq sempre tem alguma coisa bonita pra ver - geralmente, são pequenos museus que não cobram entrada.

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