domingo, 17 de janeiro de 2016

Um dia na Serra Gaúcha

Construção típica da colonização italiana na Serra Gaúcha
A primeira coisa que você vai se perguntar é "O que um post sobre a Serra Gaúcha está fazendo aqui na Fragata, em pleno mês de janeiro?" Pois é bom saber que a serra é mesmo um delícia no friozinho de julho, mas faz muito tempo que a região deixou de ser apenas um destino de inverno — basta lembrar da lotação esgotada do Natal de Gramado pra ver que eu tenho razão.

É verdade que essa viagem eu fiz no primeiro dia de agosto, parte da programação do TchÊncontro - Encontro de Blogueiros de Viagem no Rio Grande do Sul e estava devendo esse relato aqui no blog. Mas, como o planeta anda maluco, as temperaturas que peguei na Serra Gaúcha (máxima de 28 graus, em pleno inverno!!!) só confirmaram o que eu já sabia: o frio pode ser um bom adereço, mas não é de jeito nenhum um ingrediente essencial a quem quer curtir esse pedacinho de Brasil talhado por imigrantes italianos e alemães.

A roda d'água que impulsiona a moenda da Casa da Erva Mate, nos Caminhos de Pedra, em Bento Gonçalves, uma rota por pequenos negócios, hospedarias e restaurantes que preservam a cultura, o modo de fazer e a memória dos imigrantes
Esse foi meu segundo passeio pela Serra Gaúcha. O primeiro foi há mais de uma década, no calorão de um janeiro (eu adorei!), quando passei uma semana por lá e constatei que a região, considerada um "destino romântico", também é muito legal para uma viagem solo e bastante segura para mulheres que viajam sozinhas.

Veja como foi minha primeira experiência por lá:
Viajar sozinha: Serra Gaúcha

Em ótima companhia na Casa da Ovelha: Carol May, do Dicas e Roteiros de Viagem, Rafael Leick, do The Way Travel Viaja, Bi!, Gleiber Rodrigues, do Andarilhos do Mundo, e Glacy Machado, do Brasil Naturista. Blogueiro de viagem trabalha muito, mas também se diverte
Desta vez, foi só um diazinho, mas foi muito massa, principalmente pela ótima companhia de 30 blogueiros de viagem que participaram do TchÊncontro. Foi muito legal rever os cenários dos Caminhos de Pedra. 

A vantagem da Serra Gaúcha é que ela rende sempre um bom passeio, seja numa temporada mais esticada, seja em um bate e volta para quem está em Porto Alegre.
 Neste caso, basta sair cedo — durante a semana, muito cedo, para fugir do tráfego na região industrial do Vale do Rio dos Sinos. Foi o que fizemos nós, blogueiros, em um passeio que teve muita comilança, comprinhas várias (de gulodices, naturalmente) e descobertas divertidas.

A Casa da Erva Mate, o antigo moinho Cecconello
Nosso roteiro contemplou algumas atrações dos Caminhos de Pedra, em Bento Gonçalves — a Casa da Ovelha, a Casa da Erva Mate, a Casa das Cucas, a Salumeria e o Restaurante Casa Angelo, onde almoçamos. Depois, seguimos para o município vizinho de Garibaldi, onde visitamos e participamos de uma degustação na Vinícola Peterlongo.

O que ver em Bento Gonçalves e Garibaldi

Caminhos de Pedra
A Casa Righesso, de 1889, hoje é sede do Restaurante Casa Angelo
Os Caminhos de Pedra são resultado de um arranjo turístico/econômico que procura preservar o patrimônio arquitetônico, as tradições e a memória dos imigrantes italianos que começaram a chegar à Serra Gaúcha a partir de 1875. E tem melhor maneira de preservar saberes e tradições que coloca-los em uso corrente, assegurando fontes de renda para as pessoas que são suas guardiãs?

Foi assim que antigas ferrarias, tecelagens, moendas e salumerias voltaram à vida, preservando técnicas, receitas e um modo de vida que estaria fadado a desaparecer — ou ficar guardado em formol — com a debandada das novas gerações e a adesão à “praticidade” contemporânea.

Os Caminhos de Pedra recebem mais de 60 mil visitantes por ano.

Atrações dos Caminhos de Pedra
Casa da Ovelha

A sede da Casa da Ovelha é de 1917
Além de especializado na produção de derivados do leite de ovelha, o lugar abriga um parque onde o visitante pode participar de uma degustação de queijos, iogurtes e doce de leite (o com nozes é de enlouquecer...), aprende um pouco sobre o pastoreio de ovinos, a indústria de beneficiamento e — suprema fofura — pode brincar com carneirinhos.

Blogueiros em modo awwwwnnn. Fofura explícita na Serra 😊
Fala se não dão vontade de trazer pra casa?
Já que não dá pra levar os carneirinhos com a gente, o consolo é que a lojinha da Casa da Ovelha pelo menos permite que a gente traga um pouco (os comedidos, porque eu trouxe muito) do clima da viagem para casa. Queijos, iogurtes, doces e outros produtos fazem a alegria até de quem não é consumista.

Loja da Casa da Ovelha: os blogueiros também compram...
... inclusive essa que vos escreve, que se acha a menos consumista das criaturas 😉. À esquerda, um exemplo da sinalização das atrações dos Caminhos de Pedra. Não vai ser por falta de placas que você vai se perder
Casa e Parque da Ovelha
Linha Palmeiro 400 - Distrito de São Bento
Funciona diariamente com atividades para crianças e adultos, que podem participar da ordenha, alimentar carneirinhos e fazer passeios de trator. O ingresso vale para um dia inteiro de atividade e custa R$ 20 (crianças pagam R$ 10). 

Demonstração do pastoreio de ovelhas

Casa da Erva Mate
A moenda da Casa da Erva Mate é movida por uma roda d'água
O antigo Moinho Cecconcello pertenceu a uma das famílias pioneiras da colonização italiana na região de Bento Gonçalves e, como bem faz questão de lembrar a atual proprietária, é um casso clássico de assimilação, onde a técnica dos imigrantes é usada para beneficiar um produto tipicamente indígena, a erva mate, tão incorporada à cultura dos Pampas com o chimarrão.

Durante a visita, são apresentadas as etapas de beneficiamento da erva, que vão desde a secagem em fornos a lenha até a trituração, feita em um moinho tradicional, com diversos pilões de madeira acionados por polias movidas por uma roda d'água.

Os pilões tradicionais que fazem parte do mecanismo da moenda
Do outro lado da pista, em outra casa típica dos Caminhos de Pedra (a parte de baixo, que funcionava como depósito, é feita de pedra, mas o andar superior, usado para residência é, geralmente, de madeira), funciona uma lojinha que comercializa o mate e doces artesanais. A erva não me encanta, mas a compota de laranja que comprei estava de rasgar a roupa...

Parte do mecanismo do moinho e a erva mate pronta para consumo 
Casa da Erva Mate
Localidade Santo Antônio

Diariamente, das 9h às 18h. Taxa de visitação R$ 1.

Casa das Cucas Vitiaceri
Casa das Cucas
Bem em frente à Casa da Erva Mate fica essa tentação em forma de loja de bolos artesanais, vinhos de fabricação própria e suco de uva orgânico, sem adição de açúcar e obtido com uvas cultivadas em agrotóxicos. A cuca é um bolo típico das colônias alemãs, geralmente com frutas e coberto com açúcar.

Outras atrações da Casa das Cucas Vitiaceri é a visita ao parreiral (com degustação livre das uvas) e a possibilidade de fazer um piquenique sob as árvores, esparramada em edredons e almofadas providenciados pela casa, que fornece diversas opções de cestas de piquenique com produtos locais. Para saber os preços e fazer reservas, ligue: 054 3455-6362.

Salumeria Caminhos de Pedra

Outra tentação que foi posta no nosso caminho pela organização do TchÊncontro, a salumeria vale muito a parada para escolher salames, copas e culatellos (uma espécie de presunto cru) feitos a partir de diferentes cortes do porco. Mais curado, menos curado, com ervas, apimentados... Eu amei o salame de javali que trouxe para casa, assim como a copa muito curada.

Dá para fazer uma degustação dos produtos na loja, antes de decidir o que vai comprar. A casa também tem cervejas artesanais.


Salumeria Caminhos de Pedra
Linha Palmeiro, 26 - Distrito São Pedro
De terça a domingo, das 9h às 18h.


Vinícola Peterlongo

Nossa última parada na Serra Gaúcha foi na Vinícola Peterlongo, que a gente conhece pelo espumante popular que frequenta as cestas de Natal de alguns escritórios. O que eu não sabia é que a vinícola também produz espumantes de alta qualidade e até ganhou o direito de usar o nome de champanhe em seus produtos.

A sede da vinícola fica em Garibaldi, município vizinho a Bento Gonçalves, em um castelinho construído nos primeiros anos do Século 20 pelo visionário fundador da casa, uma obra arquitetônica interessante e bem conservada. Durante a visita à cave da Peterlongo (friiíssima), fizemos uma degustação de alguns espumantes premiados da vinícola e vimos todo o processo de fabricação e armazenamento. A vinícola recebe grupos, com agendamento prévio.

Onde Comer
Casa Angelo
O interior da Casa Angelo e capeletti in brodo, uma das minhas fraquezas mais inconfessáveis
Uma das memórias mais queridas que eu tinha (e continuo tendo) da Serra Gaúcha é aquele rodízio pantagruélico de comida da colônia que é servido na maioria dos restaurantes de Bento Gonçalves e região. A farra sempre começa com capeletti in brodo, aquela sopinha inacreditável de boa que eu tenho que me esforçar pra não repetir e repetir e repetir — se não tiver ninguém olhando, eu faço isso, mesmo. Pronto, acabo de revelar uma das minhas fraquezas mais inconfessáveis 😋.

Depois do brodo, o céu é o limite no menu, com polenta, costela assada, todo o tipo de massas, galeto ao primo canto (ai, como eu gosto!!) e outras delícias simples e irresistíveis.

Bom, tudo isso pra dizer que o almoço na Casa Angelo fez jus à minha memória afetiva da Serra Gaúcha. Pena que não houve espaço para a sobremesa...

Casa Angelo
Estrada da Colônia São Pedro, 26
Funciona de terça a domingo, apenas para almoço, das 11:30h às 16h. O rodízio custa R$ 48 por pessoa, de terça a sexta. Nos fins de semana, o preço é R$ 58.

O melhor jeito de ir à Serra Gaúcha
A forma mais confortável, claro, é com carro próprio, para ter mais flexibilidade e poder mandar nos seus horários. Mas se você não dirige ou não quer arriscar a estrada, a Serra Gaúcha está ficando cada vez mais amigável aos sem automóvel (e a pedestre aqui aplaude). O Centro de Atendimento ao Turista dos Caminhos de Pedra, por exemplo, oferece roteiros em grupo para visitas a diversas atrações locais.

Outra dica legal para quem quer ver a Serra Gaúcha sem ter que dirigir é a linha turística inaugurada em Gramado, no esquema hop on-hop off (você compra o ingresso, desce nas paradas que quiser e torna a embarcar nos ônibus seguintes) que faz tanto sucesso nas cidades turísticas europeias. Alexandra Aranovich, do blog Café Viagem, fez um post bem explicadinho sobre esse serviço, veja lá:

BusTour – o ônibus turístico de Gramado e Canela - Café Viagem


Como chegar
De Porto Alegre a Bento Gonçalves 

De carro
- São 120 quilômetros pela Rodovia RS-122. Outra rota, mais comprida, segue pela BR-448 e depois pela BR-543, evitando o tráfego pesado em São Leopoldo e Novo Hamburgo, região industrial da Grande Porto Alegre. Isso vai alongar seu percurso em mais 40 quilômetros.

De ônibus – a empresa Unesul Transportes tem diversas frequências diárias de ônibus para a Serra Gaúcha que passam por Bento Gonçalves. A viagem dura em média 2h40min. Os percursos, paradas e preços das passagens variam (de R$ 26,63 a R$ 33,95). Se quiser ir para Garibaldi, o ônibus das 13 horas (Porto Alegre-Passo Fundo) para na cidade. Para maiores informações, consulte o site da Unesul.

Atualização em 26/04/2016: agora já é possível ir de ônibus direto de Bento Gonçalves para o Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. A empresa que faz a rota é a Bento Transportes e dá até para comprar passagens pela internet. A rota de ida (Aeroporto- Bento), porém, ainda está em estudos. O serviço direto Bento-Aeroporto só está disponível de segunda a sexta. Consulte preços e horários no site da empresa ou ligue (54) 3452-2977 e (54) 3452-1311.
De Bento Gonçalves aos Caminhos de Pedra
A melhor referência é a Estrada do Barracão, que leva à primeira colônia italiana assentada na Serra Gaúcha (e que você ouvirá os locais chamando de Baracón, com um escancarado sotaque dos antepassados). A Leste do centro de Bento Gonçalves, a RS-444 tem um entroncamento para essa estrada.

O site dos Caminhos de Pedra oferece mapas, roteiros, informações sobre cada uma das atrações e muitas outras dicas úteis. Os empreendimentos funcionam diariamente. Lojas e oficinas (como a Tecelagem e a Casa da erva Mate) funcionam, em geral, das 9h às 17:30h. Para ver os horários dos restaurantes, consulte o site.

Dica do meu amigo Grant Mariano, que morou na Serra recentemente: "Há um caminho mais rápido para Canela e Gramado, via Gravataí e Taquara, feito por "ônibus direto", e não pelo pinga-pinga que vai pelo Vale dos Sinos e passa por uma dúzia de cidades antes de chegar na Serra. Com menos tráfego e curvas, a viagem encurta em pelo menos meia hora. Os ônibus saem de hora em hora da Rodoviária de Porto Alegre. E de Gramado você vai para a Região da Uva via Caxias, passando antes por Nova Petrópolis, a menos conhecida da Região das Hortênsias".

TchÊncontro

Encontro de Blogueiros de Viagem no Rio Grande do Sul 
Porto Alegre/Serra Gaúcha 
31/07 a 02/08 de 2105

Organização 
Paula Brum Naiá Mânica, blog Viagens da Mochilinha Gaúcha
Laura Botton, blog Colecionando Viagens
Glacy Machado, do Blog da Glacy

Viaje com a Flora


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8 comentários:

  1. Excelente post.Essa região é incrível e precisa ser mesmo bem divulgada.
    Deu saudade do nosso encontro.

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  2. Cyntia, que gostoso relembrar nosso passeio. Adorei finalmente te conhecer pessoalmente. Já quero te ver de novo. Se vira rs
    Beijocas

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    1. Rafa, querido, foi mesmo muito legal. Na minha próxima passada por Sampa vc não escapa de uma farrinha :)
      Bjo

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  3. Cyntia saudades só foi pouco, revivi nosso passeio, excelente relato! Beijos

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    1. Saudades de você, Glacy. Ainda bem que tem o blog Brasil Naturista para acompanhar suas peripécias por aí :)
      Beijo

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  4. Oi Cyntia! Deve ter sido uma delícia fazer este post né?! Àquele dia foi otimo!!!
    Também sou suspeita em falar sobre a Serra Gaúcha. Para mim, toda hora é válida para fazer uma visita! Bj

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    1. Um dia massa, Gabi. A Serra gaúcha realmente é um destino para qualquer estação do ano e qualquer temperatura. Beijo

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