domingo, 11 de outubro de 2015

Jornadas sentimentais:
Roteiros literários e cinematográficos

Nas pegadas de Hemingway, 
Paris fica ainda mais especial
(Quai d'Orleans, abril de 2006)
Tenho uma relação bastante ambígua com guias de viagem — e algumas prateleiras deles em casa. Gosto dos mapas, endereços e descrições objetivas, que ajudam a organizar a caminhada. Tomados ao pé da letra, porém, eles podem se converter numa angustiante lista de tarefas, transformando cada jornada numa interminável gincana. Na ansiedade de completar a lista de pontos turísticos, corre-se o risco de não ver a cidade.

O melhor guia de viagem, no final das contas, são as nossas referências. São elas que nos levam pela mão nas explorações mais prazerosas e marcantes. Que transformam um monte de pedras ou paredes descascadas em espaços mágicos. Mesmo os lugares mais arrebatadores precisam do encantamento que já trazemos conosco para ficarem realmente especiais. É por isso que livros, filmes e episódios históricos têm muito mais apelo pra mim, na hora de escolher um lugar para visitar, do que guias “oficiais” de viagem.

Fachada do restaurante La Coupole, no Boulevard Montparnasse, Paris
O restaurante La Coupole, no Boulevard Montparnasse, em Paris, foi cenário de muitos encontros da chamada "Geração Perdida"
Minha inspiração para escrever este post foi o delicioso livro E foram todos para Paris, do jornalista Sérgio Augusto, ótimo guia das pegadas dos escritores Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald e outros farristas ilustres que fizeram dos anos 20 na capital francesa uma das épocas mais cultuadas (Meia Noite em Paris, de Woody Allen, não fez tanto sucesso por acaso).

Devorando as 126 páginas do livro de Sérgio Augusto, adorei “rever” alguns dos meus cantinhos favoritos em Paris, além de descobrir um monte de outros lugares bacanas para explorar nas próximas visitas. Porque a verdade é que eu não resisto a essas “jornadas sentimentais”.

Fã da chamada Geração Perdida, Sérgio Augusto escreveu um guia para quem quer acompanhar os passos boêmios dos artistas — americanos, principalmente — que zanzaram pela capital francesa desde o fim da Primeira Guerra Mundial até o comecinho dos anos 30 do século passado em farras homéricas, muito debate sobre o sentido da vida e da arte e uma produção, sobretudo literária, que ajudou a desenhar o Século 20.

O Café de Flore, onde Hemingway rabiscou muitas de suas histórias, e a Shakespeare and Company, "ressurreição" da livraria que foi ponto de encontro da Geração Perdida
Mas é claro que Paris que tem mil outros roteiros literários e cinematográficos possíveis, basta lembrar de os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, Nossa Senhora de Paris e Os Miseráveis, ambos de Victor Hugo (cuja casa você pode visitar, na Place des Vosges), As Ligações Perigosas (que eu já reli umas quatro vezes), de Choderlos de Laclos... 

Sem esquecer, é claro, de Suave é a Noite (meu livro favorito quando eu tinha uns 18 anos), de Fitzgerald, e de O Sol também se levanta e Paris é uma Festa, de Hemingway, pra não deixar de citar a turma que inspirou este post.

Livros ambientados em Paris, num rápido apanhado na estante aqui de casa: os clássicos de Dumas e Hugo, A Idade da Razão, de Sartre, marco do Existencialismo, e o primeiro volume da série Os Reis Malditos, de Maurice Druon, um festival de intrigas, sexo, drogas e Rock'n'Roll à moda da Idade Média que narra as agruras da Dinastia dos Capetos, amaldiçoada pelo Grão-Mestre dos Templários. Segundo George R.R. Martin, ele se inspirou nessa saga para escrever Game of Thrones
Algumas das minhas jornadas sentimentais em Paris:
Até os Anos 90, Oak Room do Algonquin manteve  a coerência
Minha bíblia:
se você ainda não leu,
corra pra ler :)
Por falar em geração perdida, Nova York deve ter pelo menos cinco mil bares melhores que o do Hotel Algonquin. Em nenhum deles, porém, encontra-se a memória das tertúlias da escritora Dorothy Parker, da atriz Talullah Bankhead e todas as demais línguas ferinas da Round Table — grupo de intelectuais irreverentes que se reuniam lá, entre 1919 e 1929, para desafiar a Lei Seca e acabar convertendo o lugar numa espécie de sucursal americana da Paris evocada por Sérgio Augusto em seu guia.

(Pra vocês terem uma ideia de como era essa galera, ouçam só o conselho do escritor Nathanael West a sua amiga Dorothy Parker, depois de mais uma tentativa de suicídio dela: “Dorothy, essa mania de suicídio vai acabar fazendo mal à sua saúde”).

Visitei o bar do Algonquin pela última vez em 1995. Em Nova York, já estava ficando impossível encontrar um bar ou restaurante onde se pudesse fumar e eu, disciplinada, levantei do balcão com um cigarro e um isqueiro nas mãos, rumo à calçada, para umas tragadas. O barman me olhou como se eu fosse de marte e empurrou um cinzeiro na minha direção: “Fique à vontade. Aqui é o Algonquin”. Mais de 60 anos depois de abolida a Lei Seca, o lugar que fazia vista grossa às fartas doses de Bourbon consumidas pela turma de Miss Parker em xícaras de chá continuava o mesmo...

Dürnstein, no Danúbio (à esquerda) e Rouen, capital da Normandia: duas cidades lindinhas que descobri seguindo a trilha de Ricardo Coração de Leão
Já rodei um bocado em busca de memórias que aprendi a amar no cinema, na literatura e na história. Nem todos mantêm a coerência que encontrei no Algonquin há duas décadas, mas adoro minhas jornadas sentimentais. Não é à toa que este blog se chama A Fragata Surprise, homenagem à série  livros do escritor Patrick O'Brian narrando as aventuras de uma fragata britânica durante as guerras napoleônicas. 

Desci o Rio Danúbio de barco e enfrentei uma greve geral na Normandia, nos passos de Ricardo Coração de Leão. Saboreei cada esquina da Madri dos Austrias, para estar perto do Capitão Alatriste, o soldado espanhol do Século 17 criado pelo escritor Arturo Pérez-Reverte. Experimentei a mais perfeita felicidade percorrendo a Lübeck de Thomas Mann e dos Buddenbrook. E quase morri do coração, em Havana, quando “Papa” Ernest Hemingway atendeu meu pedido e “apareceu” no restaurante La Floridita, que ele colocou no mapa afetivo de todos os boêmios do planeta.

Os posts sobre essas jornadas:
De barco pelo Danúbio, na rota de Ricardo Coração de Leão
Rouen, a cidade onde repousa o coração do Leão
Havana: meu encontro com "Hemingway"
Madri: um passeio pelo Século de Ouro

A Plaza Mayor e a Igreja de San Ginés, dois cenários importantes do Século de Ouro espanhol e das aventuras do Capitão Alatriste
Às vezes, é inevitável esbarrar no pastiche. Odeio os fortões fantasiados de gladiadores na porta do Coliseu, as “baianas” chamando turistas de “meu rei” no Pelourinho e alabardeiros em meias de balé circulando por castelos medievais.

Tenho uma implicância especial com aquela multidão em fila, esperando a vez de meter a mão na Bocca della Veritá (a Boca da Verdade), uma velha máscara que fica no adro da Igreja de Santa Maria in Cosmedin, em Roma, mas adoro o filme que inspirou essa mania.


Hepburn e Peck testando a Boca da Verdade, no filme de 1953. À direita, a fila para repetir a cena, no adro da Igreja de Santa Maria in Cosmedin, em Roma
Roman Holiday (em português, A Princesa e o Plebeu, de 1953, direção de William Wyler) fez muito mais por Roma do que qualquer guia de viagem, ao mostrar o encontro de um repórter boêmio (Gregory Peck) e uma princesa europeia entediada com os compromissos da realeza (Audrey Hepburn) na capital italiana. As aventuras deles pela cidade até hoje me provocam suspiros e uma vontade enorme de estar em cada um daqueles lugares.

A cena mais famosa do filme é a visita dos dois à Boca da Verdade, quando Peck enfia a mão na boca da máscara explicando a Hepburn que o “monstro” morde os mentirosos. Meio século depois da estreia de Roman Holiday, as filas no adro de Santa Maria in Cosmedin continuam imensas. Pena que a maioria dos visitantes se contente com isso e deixe de entrar numa das igrejas mais bonitas de Roma — motivo principal para a minha implicância :)

O mascheronne e o belos afrescos de Santa Maria in Cosmedin
Quando você for, não se acanhe em fazer a foto com a mão na boca do mascheronne. Mas não deixe de conferir o belo interior da igreja. Confira o post:
Roma - a Boca da Verdade

Se é para repetir uma cena de cinema, prefiro mil vezes a coragem de um banho na Fontana di Trevi, como Marcelo Mastroianni e Anita Ekberg fizeram em La Dolce Vita, de Fellini — só não arrisquei, até hoje, porque costuma dar cadeia, rssss...

O cinema, na verdade, nunca está muito longe de mim nas caminhadas por aí. Às vezes, a evocação é óbvia, como na visita ao Teatro Massimo, em Palermo (Sicília), cenário do desfecho eletrizante de O Poderoso Chefão 3 (The Godfather - Part III, 1990), filme que fecha a magnífica trilogia de Francis Ford Coppola, ou nas minhas duas passagens por Salzburgo (Áustria), que pode até ser a terra de Mozart, mas pra mim é muito mais a cara da Noviça Rebelde (The Sound of Music, 1965, direção de Robert Wise).

O Teatro Massimo, cenário do gran finale da trilogia de Coppola, e o Nonnberg, em Salzburgo, convento onde a (nem tão) rebelde Maria Von Trapp foi noviça
Os posts sobre essas viagens estão aqui:
O Teatro Massimo, em Palermo
Salzburgo: a rota da Noviça e outras dicas

Os Cliffs of Moher, na Irlanda
A maior parte do tempo, porém, a referência cinematográfica é menos explícita, mas sempre poderosa. Foi impossível não lembrar da melancolia de A Filha de Ryan (Ryan's Daughter, 1970), meu filme favorito de David Lean, sentindo no rosto o vento que fustiga a paisagem estonteante dos Cliffs of Moher, sucessão de penhascos que parecem infinitos, na Costa Oeste da Irlanda, e que serviu de locação a esse drama sobre o ódio entre britânicos e irlandeses no início do Século 20.

Na Sicília, O Leopardo (Il Gattopardo, 1963, Luchino Visconti) me levou pela mão a cada deslocamento pela zona rural da ilha e pelos becos de Palermo. A lembrança do coro grego debochado que Woody Allen usou para pontuar as cenas de Poderosa Afrodite (Mighty Aphrodite, 1985) me fez ter um ataque de riso incontrolável diante do venerando palco do Teatro Grego de Taormina, um senhor com pelo menos 2.400 anos de idade.

A beleza sem maquiagem de palermo, Sicília
O Teatro Grego de Taormina:
o ataque de riso foi culpa de Woddy Allen
Os posts sobre essas viagens:

Jornadas sentimentais não são “roteiros temáticos”. Nesses, tudo é explícito, coreografado e sem sal — como aqueles “torneios medievais” encenados. O melhor verbo para essas caminhadas é evocar, não assistir.

Paris nem precisava ser personagem de tantos livros para ser inspiradora. Mas a cidade é uma das campeãs de citação no cinema e na literatura. Na imagem, as margens do Sena depois da chuva e as escadarias da Igreja e La Madeleine
Confira alguns livros e escritores que me conduziram por aí

E foram todos para Paris 

De Sérgio Augusto - Editora Casa da Palavra, 126 páginas, R$ 39,90. Indispensável para fãs de Hemingway, Scott Fitzgerald e toda a galera da pá virada que fez dos Anos 20 do século passado uma das épocas mais apaixonantes da história. 

Para percorrer a cidade na companhia de Isadora Duncan, Pablo Picasso, Gertrude Stein, Sylvia Beach...

As Aventuras do Capitão Alatriste
De Arturo Pérez-Reverte - É uma série de sete livros (até agora) narrando as peripécias e desventuras de Diego Alatriste, um soldado da então imbatível infantaria espanhola do Século 17, o chamado Século de Ouro do Império Espanhol. Alatriste — pobre, realista às raias do cinismo, leal e corajoso — sobrevive como pode do parco soldo do exército de Sua Majestade Felipe IV de Habsburgo (da "Dinastia dos Austrias", como dizem os espanhóis) e de uns frilas como espadachim de aluguel. Em sua aventuras pelo vasto império controlado por seu país, ele testemunha e participa de episódios decisivos da história da Espanha. Duro, mas sem jamais perder a ternura.

Madri dos Austrias, o cenário cotidiano de Alatriste.
Calle San Justo (à esquerda), as Cuevas de San Miguel (centro) e um dos arcos da Plaza Mayor
A série de livros foi adaptada para um filme com Viggo Mortensen no papel título (que eu gosto). Desde janeiro de 2015, a rede espanhola Telecinco está exibindo uma série, com 13 episódios previstos para a primeira temporada, recontando as aventuras de Alatriste — e confesso que ando virando a internet do avesso pra ver se consigo encontrar para assistir :)

A série do Capitão Alatriste
Quem curte a série de Pérez-Reverte ou tem curiosidade sobre essa época da História pode procurar o livro Viaje a los escenarios del Capitán Alatriste, de Juan Eslava Galán (Editora Aguilar - Espanha 2006, 220 páginas), um guia que faz pelas aventuras do soldado espanhol o mesmo que Sérgio Augusto fez com as andanças da Geração Perdida por Paris.

Quando comprei o livro de Galán (em 2012), estava esgotado no fornecedor e eu achei um exemplar usado, na Amazon.com. É uma deliciosa descrição dos lugares e da época em que viveu o personagem de Arturo Pérez-Reverte. Roteiros por Madri, Sevilha, Breda, Nápoles e Cádiz, essenciais para quem quer sonhar com o Século 17, o esplendor do Império Espanhol, as intrigas, os duelos e as aventuras de Alatriste.

Além do post que já citei sobre Madri, confira mais este, também sobre o Século de Ouro espanhol:

Sevilha, a "capital do Atlântico"


Lübeck, a cidade natal de Thomas Mann, com sua fachadas típicas e uma carinha de quem saiu de um conto de fadas
Os Buddenbrook
Primeiro romance de Thomas Mann, publicado em 1900, um relato da lenta a decadência de uma poderosa família de comerciantes de Lübeck. As contradições de Tonie Buddenbrook — tão apegada e tão sufocada pelas convenções de sua época e sua classe social — marcaram meus vinte e poucos anos.

Mas foi a ternura e a melancolia de Mann descrevendo sua cidade natal que despertaram meu amor incondicional por ele e por Lübeck. Acredite se quiser: não encontrei sequer uma edição em português disponível na internet...

Os posts sobre a cidade de Thomas Mann
Meu passeio por Lübeck
O restaurante "frequentado" pelos personagens de Mann

A velha Berlim não é fácil de encontrar, mas as torres de Nikolaikirche e da Igreja do Kaiser Guilherme ainda estão por lá. Uma, integralmente reconstruída, a outra propositalmente em ruínas, para lembrar as marcas da guerra
Três livros para inspirar passeios em Berlim

Berlim, de Joseph Roth (Companhia das Letras, 2006), Adeus a Berlim, de Christopher Isherwood (Brasiliense, 1985) e O último homem em Berlim, de Gaylord Dold (Best Seller, 2006)

De todas as cidades e épocas encantadas, eu escolheria para viver a capital prussiana, na virada dos Anos 20 para os Anos 30 do Século passado. Boemia, transgressão, fumaça e absinto... É uma cidade difícil de reconhecer na Berlim de hoje, tão ferida pela guerra e pelo muro (e tão bonita, na reconstrução pós-Reunificação), mas ainda é possível ouvir seu eco.

O livro de Isherwood (coleguinha de Hemingway e Fitzgerald nas farras parisienses) inspirou o filme Cabaret (1972). O de Dold é um romance policial ambientando no apagar das luzes da festa, decretado pela ascenção dos nazistas ao poder. O de Roth, jornalista badalado em sua época, é uma série de artigos sobre a cidade, a política e os costumes.

Outros passeios por Berlim


Mais passeios literários

The Globe Theater e a trilha de Shakespeare em Londres
A casa de Garcia Lorca, em Granada

A Ilíada


Jane Austen – Bath, Chawton e Winchester


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