quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Londres: um passeio a Greenwich

Adorável é pouco, viu? 💚
Se eu tivesse que escolher o lugar que mais curti em Londres, meu voto seria para Greenwich, bairro (na verdade um borrough, distrito) a Leste do centro tão fortemente associado às aventuras marítimas. Pense em um pedacinho de mundo simplesmente adorável: bairro super simpático, parque delicioso e uma vista espetacular para o skyline londrino.

Bastava isso, né? O que me levou a Greenwich, porém, foi seu fantástico complexo de museus que celebram a arte de navegar e as histórias do mar. Lá estão um dos mais importantes acervos navais do planeta (no National Maritime Museum), o observatório astronômico que estabeleceu a linha divisória entre o Oriente e o Ocidente (o Royal Observatory) e o bonitaço veleiro Cutty Sark, do Século 19, em exposição permanente.

Ao lado de Portsmouth, Greenwich é uma visita indispensável para quem curte histórias do mar e de navegações. Tipo gente que cria um blog chamado A Fragata Surprise 😊.


O Cutty Sark, célebre veleiro mercante que fazia a rota do comércio do chá, no Século 19. Hoje é um barco museu
Passar um dia de verão em Greenwich é uma delícia. Pra começar bem, é legal chegar de barco, navegando pelo Tâmisa, para já ir entrando no clima. Tem muita coisa pra ver, portanto tente chegar cedo para fazer as visitas com calma e poder aproveitar bastante o parque. É incrível como algumas frutas e um sanduíche viram um banquete, saboreados à sombra daquelas árvores — e tem aquela graminha fofinha convidando a gente a relaxar, pensar na vida e aproveitar a paisagem...

O Royal Naval College, o Museu Marítimo e a Queen's House têm entrada gratuita. Você só vai precisar pagar ingresso para visitar o Cutty Sark e o Observatório.

Entre uma visita e outra, o que não falta é lugar bacana
para um descansinho, como a colunata da Queen's House...

... ou a graminha fofinha do parque
Há vários registros de que os romanos, saxões, dinamarqueses (vikings) e normandos tenham ocupado ocasionalmente a região onde está Greenwich, certamente buscando a posição estratégica da colina (onde hoje se assenta o Royal Observatory) que domina uma curva acentuada do Tâmisa. 

Greenwich, porém, só entrou no mapa pra valer a partir do Século 15, com a construção de um palácio para o rei Henrique VII — a dinastia Tudor, celebrizada por Henrique VIII e Elizabeth I, pode ter sido uma família bem disfuncional, mas tinha um tremendo bom gosto para escolher as locações de suas estripulias :)

Queen's House, projeto de Inigo Jones...
... e o Royal Naval College, obra de Christopher Wren
Nos séculos seguintes, a corte inglesa consolidou o gosto pelo lugar e, por encomenda da realeza, dois grandes arquitetos deixaram sua marca em Greenwich. Inigo Jones (1573/1652), considerado o primeiro prodígio dessa arte na Inglaterra, assinou a elegância da Queen’s House, palácio que é um marco da arquitetura clássica no país. Da prancheta de Christopher Wren (1632/1723) saíram as linhas imponentes do Royal Hospital for Seamen (Hospital dos Marinheiros), posteriormente transformado no Royal Naval College.

Um dos pátios do Naval College
O que ver em Greenwich
É bacana começar a exploração desse complexo de edifícios e museus pelo centro de visitantes, instalado em uma das alas do Naval College, onde uma pequena exposição ajuda a compreender quase 600 anos de história, desde o primeiro palácio Tudor.

O sotaque barroco da Escola de Marinha

Escola Real de Marinha
Royal Naval College

O complexo do Royal Naval College foi construído no finalzinho do Século 17 para abrigar o Hospital dos Marinheiros – naquela época, hospital significava mais que casa de saúde. Referia-se à instituição que tratava doentes e feridos, mas também recebia pessoas necessitadas, como veteranos de guerra e marujos idosos. 

São dois edifícios gêmeos, cada um com seu vasto pátio interno, que brincam de espelhar um ao outro, cercados de jardins. Reformas mais recentes deram às construções um sotaque bem barroco. Preste atenção nos pátios e colunatas dos dois edifícios, que têm como encantos principais uma linda capela e o Painted Hall (“Salão das Pinturas”), que você não pode perder de jeito nenhum!

A Sala das Pinturas do Colégio Naval

Não se assuste se encontrar uma noiva no Colégio Naval. A Sala das Pinturas é bem cotada para cerimônias de casamento.
Dá pra ver o motivo?
O Painted Hall foi projetado por Cristopher Wren e as pinturas do teto e das paredes foram executadas por James Thornhill. Originalmente, era o refeitório do Hospital dos Marinheiros. Hoje é um lugar muito cotado para cerimônias de casamento.

Quando entrar na capela, não deixe de olhar para cima. as pinturas do forro são um escândalo

A capela do Royal Naval College
Só um parêntese: Em um dos salões do velho hospital foi velado o corpo do almirante Horatio Nelson, comandante da armada britânica na Batalha de Trafalgar, quando os ingleses derrotaram as forças combinadas da França e da Espanha, em 1805. O resultado desse confronto praticamente selou a superioridade dos ingleses no mar, durante as Guerras Napoleônica. 

Nelson ganhou a briga, mas foi ferido no convés de sua nau capitânia, o Victory (que eu visitei em Portsmouth) e morreu horas depois. Depois do velório em Greenwich, o corpo do almirante foi levado em procissão naval até Whitehall. (Na ficção, a cerimônia foi organizada por outro dos meus heróis do mar, o capitão Horatio Hornblower, criação do escritor C.S. Forester, no livro Hornblower and the Atropos, de1953). O uniforme usado por Nelson em Trafalgar está em exposição no Museu Naval, que funciona logo ao lado do Royal Naval College

Queen's House

A colunata que liga a Queen's House ao Royal Naval College


Originalmente, era um dos pavilhões do palácio real concluído em Greenwich após a restauração da monarquia, durante o reinado de Carlos II. A rainha, porém, convenceu o rei a ceder a sua ala para a instalação do Hospital dos Marinheiros e, como não era boba nem nada, manteve sua elegante metade palaciana.

Repare como poucas linhas retas traçadas por um gênio (Inigo jones, responsável pelo palácio original) podem resultar em tanta graça e leveza. Sabe aqueles prédios que parecem sorridentes?

O interior da Queen's House acompanha a graça da fachada. Hoje o pavilhão é usado para exposições itinerantes, além de abrigar uma coleção de pinturas do Século 17. Atualmente está fechado para reformas e tem reabertura anunciada para julho de 2016.

O Observatório Real
Royal Observatory


A Flamsteed House é o núcleo original do observatório e está sempre sitiada pela fila de visitantes que querem posar para fotos diante do monumento que assinala o ponto exato da passagem do Meridiano de Greenwich, na área externa do edifício

Meus pezinhos, um em cada hemisfério.
Não peguei a fila monstro para a foto com o monumento no Meridian Court: a linha do Meridiano de Greenwich segue para além da muvuca
A gente sabe que a escolha de Greenwich como marco do principal meridiano e ponto de partida para os fusos horários do planeta é principalmente uma convenção, mas quem resiste à ideia de colocar um pé do Hemisfério Ocidental e outro no Hemisfério Oriental? Eu é que não. Só não deixe que essa sensação de estar abarcando o planeta se converta no seu único prazer na visita ao Observatório Real.

Criada no Século 17, a instituição tem longos serviços prestados à astronomia e foi fundamental para tornar a navegação mais precisa (em um tempo em que não havia GPS nem satélites) e também para a compreensão que temos hoje do espaço ao nosso redor. No Observatório Real trabalharam cientistas como Edmond Halley, que estudou e batizou o célebre cometa.

A "hora de Greenwich", na entrada do Observatório, e um telescópio no jardim da Flamsteed House
A Sala Octogonal, com suas imensas janelas,
era usada como posto de observação
A Flamsteed House — assim batizada em homenagem a John Flamsteed, primeiro astrônomo real, nomeado no Século 17 — é o núcleo original do Observatório Real, inaugurada em 1675. A Sala Octogonal, com suas enormes janelas voltadas para todos os pontos cardeais, é testemunha do apuro com que Christopher Wren pensou o edifício, um marco do mecenato real à ciência.

A bola do tempo, à esquerda,
e os astrônomos reais Halley e Flamsteed
Duas exposições bem didáticas (“Tempo e Longitude” e “O Tempo de Greenwich”) dão uma ideia de como era o trabalho dos astrônomos dos séculos 17 e 18 e da importância de seu trabalho para essa atividade vital para os britânicos (fosse para o comércio, fosse para a guerra) que é a navegação.

O grande sucesso do Observatório é o Meridian Courtyard (“pátio do meridiano”), onde um monumento e uma linha marcada no chão assinalam o ponto exato da passagem do Meridiano de Greenwich. Um artefato interessante é a Bola do Tempo, que “dá a hora certa” todos os dias, às 13 horas, deslizando para cima em um mastro plantado em uma pequena torre da Flamsteed House. O Observatório também tem um planetário, que eu não visitei.


Museu Marítimo
Royal Maritime Museum

Coleção de figuras de proa do Museu Naval de Greenwich
Desde que me entendo por gente, eu torço para os índios em filmes de bangue-bangue e a primeira visita que fiz em Roma foi ao Cárcere Mamertino, no Fórum, última residência do gaulês Vercingetorix. É uma imensa contradição, portanto, que a Marinha Britânica, com tudo o que ela significa de colonialismo, tenha fornecido tantos integrantes ao meu panteão de heróis — só mesmo a paixão pelo mar explica...

O Museu Naval de Greenwich foi criado para exaltar os feitos militares e as conquistas inglesas nos mares, mas também é um tributo a “gente” que me acompanha pela vida, como Jack Aubrey, capitão da Fragata Surprise (dos livros de Patrick O’Brian, homenageada no nome deste blog), a Horatio Hornblower, Ismail e tantos outros. 

O uniforme usado por Nelson em Trafalgar e uma barcaça real expostos no Museu Marítimo
Fora meus heróis particulares — nem tão particulares assim, a julgar pelos livros e DVDs avidamente comprados na loja do museu — o almirante Horatio Nelson é a estrela da casa, com uma sala inteira dedicada a suas batalhas e vitórias (no Museu Naval de Portsmouth também).

O acervo do museu conta com peças históricas do tempo das grandes navegações, partes de embarcações — as coleções de figuras de proa são bárbaras —, documentos, mapas e instrumentos náuticos. Várias exposições interativas informam e divertem e a criançada, especialmente, se esbalda. Desconfio que ninguém precisa ser fanática por aventuras marítimas pra curtir a visita.

Cutty Sark



O Cutty Sark não chega a ser assim uma fragata (rsss), mas é um barato. Tadinho, ele nem poderia ser uma fragata, já que era uma embarcação mercante, enquanto as ágeis fragatas foram concebidas para escaramuças navais.

Mas imagine-se pisando o convés de um elegante veleiro da carreira do chá ("carreira" é como se chamava uma rota comercial) do final do Século 19, o último suspiro da propulsão a vela que logo seria levada pela nova onda dos barcos a vapor.

Plantado em terra firme a poucos passos do atracadouro de Greenwich (e da estação do DLR), o Cutty Sark oferece uma ideia de como seria o cotidiano a bordo. Uma rampa circula o casco do veleiro, levando o visitante ao convés principal e a uma viagem no tempo. Perfeito!

Dicas práticas
A entrada do Royal Naval College
Museus Reais de Greenwich 
Romney Road, Greenwich, Londres

Todas as atrações podem ser visitadas diariamente, das 10 às 17h. 

A entrada é gratuita no Museu Naval, na Queen's House e no Royal Naval College.

O acesso ao Cutty Sark custa £13.50. O bilhete para o Royal Observatory custa £9.50. Um tíquete combinado permite ver as duas atrações por £18.50. Para ver as apresentações no Planetário, você paga £7.50.

Queen's House está fechada para reformas até julho de 2016


A vizinhança dos museus é bem simpática
Como chegar 
Os museus e o parque ficam ao lado do atracadouro dos barcos que vem do centro. É possível chegar de trem ou com o DLR (Docks Light Railway), que aceitam o Oyster Card. 

Eu, em homenagem á tradição local, fui de barco. Peguei um Thame’s Clipper no terminal Embarkment, ao lado do Parlamento. Paguei £12 pelo bilhete de ida e volta. Os barcos fazem a rota entre Greenwich e o centro de Londres diariamente, das 6 da manhã às 23h.



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