domingo, 16 de agosto de 2015

Istambul: o surpreendente Museu de História da Ciência e Tecnologia no Islã

O museu funciona nos antigos estábulos do Palácio de Topkápi
Meu amigo Allan Patrick sempre traz dicas bem interessantes para a Fragata. É dele a série de guestposts sobre a road trip pela Escandinávia (se você não leu, corre lá,  porque é bem interessante). Desta vez, ele nos conta sobre uma atração que geralmente passa batida pelo radar de quem visita Istambul, mas que com certeza vale a visita. É o Museu de História da Ciência e Tecnologia no Islã. Confira o relato de Patrick:

O Parque Gülhane, antigo jardim do Palácio Topkápi,
morada dos sultões, é hoje uma área muito gostosa
 para um descansinho entre as visitas aos
bons museus do entorno.
Além do Museu de Ciência e Tecnlogia no Islã e Topkápi,
 o Museu de Arqueologia também fica nessa área 
"Numa cidade com tantos atrativos históricos e culturais, o Museu de História da Ciência e Tecnologia no Islã passa despercebido, mas é imperdível para quem gosta do assunto. Ele fica bem próximo ao Palácio Topkápi e pode ser visitado gratuitamente por quem tem o cartão de museus (Museum Pass - Istambul).

Durante a Idade Média, o conhecimento científico do período Clássico foi preservado e desenvolvido no mundo muçulmano, até ser “redescoberto” durante o Renascimento, a partir de traduções do árabe e outras línguas do mediterrâneo oriental. Aliás, um dos principais centros culturais e científicos desse período de ouro islâmico também já foi retratado aqui na Fragata: Córdoba, na Espanha.
Então, foi imerso nesse contexto que tive minha curiosidade guiada para visitar o museu. O início da visita é por uma parte um pouco chata, em que são apresentados famosos pensadores ocidentais (como Goethe) reconhecendo a importância desse período de ouro na preservação do conhecimento científico da humanidade.
A partir daí, sucedem-se salas temáticas e tudo fica mais interessante. Tem física, matemática, astronomia, medicina, mineralogia, engenharia, cartografia, ciências náuticas, ou seja, assuntos para quase todos os gostos de quem é interessado em ciência e tecnologia. Afinal, estamos na cidade onde foi construída a Hagya Sofia, uma obra de engenharia deslumbrante, construída em 532 e que, me arrisco a dizer, levou uns mil anos pra ter concorrentes à altura.
Na margem Ocidental do Bósforo, um olhar para o Oriente

É difícil destacar alguma das salas, mas a de medicina chama a atenção, porque foi ali onde os cientistas do mundo islâmico (muitos deles judeus) foram bem além de simplesmente preservar o conhecimento do mundo clássico e expandiram bastante os horizontes da ciência, deixando literatura sobre cirurgias de cataratas realizadas ainda no século X (há mais de mil anos, portanto) e experimentos com anestesia.

Mas o melhor de tudo não é isso. Os maiores destaques do museu - isso se percebe no destaque que ganha na loja de souvenirs - são dois mapas.
O mapa de Piri Reis, um dos tesouros do museu
 O primeiro é o mapa de Piri Reis, de 1511. É o único mapa que se conhece que teve entre suas fontes originais os mapas das Américas traçados por Colombo. Sua cartografia é tão boa para a época que foi elaborado que dá espaço a inúmeras teorias conspiratórias na internet (como extraterrestres e mapas de civilizações de dez mil anos atrás).
O segundo é o Mapa Javanês, que apresenta a cartografia da - surpresa! - costa do Brasil. Em realidade, o mapa original javanês foi perdido e o que existe é a sua cópia portuguesa, que foi descoberta na Torre do Tombo em 1884. O original desse mapa, já perdido, foi obtido pelos portugueses quando da tomada de Malaca (na atual Malásia) em 1511.
Cópia portuguesa do Mapa Javanês. À direita, a superposição do traçado sobre a Costa do Brasil
Há quem defenda que, tal como o mapa de Piri Reis, o Mapa Javanês este tenha sido fruto de ação de espionagem, tendo como originais os próprios levantamentos cartográficos realizados por portugueses e espanhóis. A carta de apresentação ao Rei D. Manuel, escrita pelo descobridor do mapa, o Almirante Afonso de Albuquerque, traz um tom de surpresa (“pareceme, senhor, que foy a milhor cousa que eu nunca vy”) pouco condizente com a mera descoberta de uma cópia estrangeira do que já era conhecido pelos próprios portugueses. O debate científico, como é próprio de assuntos históricos, ainda está em aberto.

Enfim, quem está em Istambul e tem mais do que uns poucos dias para passear pela cidade ou é interessado por história da ciência, não pode deixar de visitar este museu.

Informações práticas


Reparem a dica de Patrick, lá na caixinha de comentários:
é preciso caminhar por dentro do Parque Gülhane
para chegar ao museu
 O Museu de História da Ciência e Tecnologia no Islã funciona nos antigos estábulos do Palácio de Topkápi, em frente ao Parque Gülhane (o endereço é Gulhane Parki Hasahirlar Binasi Sirkeci), a 150 metros da parada Gülhane do bonde, na mesma linha que passa pela Praça de Sultanahmet.

Fecha às terças-feiras. Nos outros dias, funciona das 9h às 18:30h. Como Patrick já explicou, o museu é gratuito para quem tem o Museum Pass de Istambul. Se não for o seu caso, o ingresso vai custar 10 liras turcas.

Confira o índice com todos os posts sobre 
museus e sítios arqueológicos publicados aqui na Fragata

Viajar sozinha: Istambul sem neuras
O bazar das especiarias
Museu de Arqueologia de Istambul
Santa Sofia e a Cisterna
Os palácios de Topkápi e Dolmabahçe
Duas dicas de hospedagem

Troia
Uma visita inesquecível aos cenários da Ilíada


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3 comentários:

  1. Só tem um errinho na última imagem, Cyntia. O erro não é seu, mas do Google. Não dá pra chegar no museu pelo caminho que o google maps sugere, mas pelo lado da área verde, por dentro do Parque Gülhane.

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    1. Valeu, Patrick. Alias, caminhar pelo Parque Gülhane é uma delícia. Como ficava pertinho do meu hotel, eu sempre fazia uma horinha lá, pra fugir do calorão do início de setembro :)

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  2. E digo por experiência própria, segui o caminho sugerido e dei com a cara na muralha :)

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