domingo, 5 de julho de 2015

O que fazer em Taormina

O vulcão Etna, um dos grandes responsáveis pela
 beleza da paisagem de Taormina
Vou ser bem direta: o que mais tem pra fazer em Taormina é ficar com cara de boba diante da paisagem. Mas também tem um patrimônio histórico muito interessante para ver, com destaque para o famoso Teatro Grego, igrejas e edifícios medievais, renascentistas e barrocos, a tradição da Majolica, a cerâmica multicolorida local e, se você for nos meses quentes, umas praias bem badaladas. O traço de união de todas essas atrações é a beleza, que Taormina tem de sobra.

É que quando uma cidade nasce grega, não tem pra onde apelar. Os deuses determinam que ela será linda até dizer chega, não importa o que façam as gerações e conquistadores futuros. Ô, povo para ter o GPS calibrado para escolher locações, esses helenos...

O Duomo (catedral) de Taormina, do Século 13,
 e a fonte renascentista
Os gregos deram a partida, mas, para ser justa, é preciso lembrar que não foram os únicos responsáveis pelos encantos de Taormina. Um lugar daqueles jamais passaria em branco pela cobiça dos muitos povos que disputavam a hegemonia no Mediterrâneo, desde a Antiguidade — é verdade que os interesses dos conquistadores nunca privilegiam o estético e o lúdico, mas entre um baluarte e uma torre sempre sobra espaço para a beleza... :).

A atual cara da cidade é marcadamente medieval, ainda que as construções tenham feições mais recentes. Mas aquelas ruas estreitas, as escadarias e becos ainda mais acanhados e a onipresença do núcleo amuralhado (presença nem tanto física, pois muito da muralha já se foi, mas ainda dá pra saber onde ela estava) não deixam dúvidas de que estamos em um traçado urbano típico da Idade Média. Em Taormina, porém, essa contração do espaço sempre desemboca em espetaculares balcões sobre o mar...

Os jardins da Villa Comunale cobertos de neve,
na última manhã de 2014
O que nos leva de volta à primeira atividade imperdível em Taormina, que é perder o fôlego um dos infinitos mirantes espalhados pela cidade. É bem difícil caminhar mais de cinco minutos por lá sem encontrar um ponto espetacular para ver a paisagem, mas, pra facilitar a sua vida, vou recomendar três, todos de fácil acesso:

Giardini della Villa Comunale - Esse jardim fica do ladinho do hotel onde me hospedei, então, passeei um bocado por lá e garanto que você também vai curtir se perder por aquelas alamedas. De suas balaustradas, você terá vistas indescritíveis para o mar e para o Etna. Nos dias em que estive na cidade, a vegetação estava coberta pela neve que caiu na última madrugada de 2014, um encanto a mais. Fica na Via Bagnoli Croce, um pouco abaixo do Centro Histórico da cidade.

Giardini Naxos fotografada (com muito zoom)
 da Praça do Relógio
A torre do Relógio com decoração de Natal. À direita, um mosaico que adorna o arco da torre

Piazza IX Aprile (Praça do Relógio) – É a praça principal de Taormina, quase um salão onde desemboca o Corso Umberto, a rua mais movimentada de lá. Debruçada sobre o mar, a praça fica aconchegada entre a Torre do Relógio, as igrejas de San Giuseppe e Sant’Agostino, além de outras construções seculares.

Via Pirandello – Não é um mirante, mas uma sucessão de possibilidades de lugares para contemplar a paisagem. A rua é continuação da estrada que traz o visitante a Taormina e vem serpenteando montanha acima, da beira mar até o Centro Histórico. Não é um lugar para você passear: a subida é bem árdua e a presença da calçada é incerta — em muitos trechos, ela simplesmente some. Mas o lugar abriga muitos hotéis e restaurantes com vista e está cheio de pequenos belvederes onde se pode fazer uma pausa e admirar o mar. Experimente o trecho próximo à estação do teleférico, na parte alta (bem pertinho da Porta di Messina, no final do Corso Umberto), que dá vista para o lado Leste do litoral.

O palco do Teatro Antigo é usado até hoje para
 apresentações, especialmente no verão.
No dia da minha vista, ele estava coberto de neve
O Teatro Antigo
Por falar em mirantes, talvez o mais perfeito de toda Taormina seja o Teatro Grego, justamente a marca mais forte da antiga Tauromenion, a colônia grega que deu origem a essa beldade siciliana. De lá, o visitante descortina o Golfo de Naxos, o vulcão Etna e a pequena Castelmola, encarapitada em uma montanha ainda mais vertiginosa. Para pegar o melhor ângulo do sol e fazer as melhores fotos, prefira fazer sua visita pela manhã.

Uma caminhada pela área do teatro revela muitos vestígios
 da velha construção e uma paisagem encantadora


A gente chama de "Teatro Grego", mas a construção que vemos hoje é romana da gema, provavelmente datada da época do reinado de Augusto. Desde o Século 3 a.C., porém, os colonizadores gregos de Tauromenion já usavam aquele cume, de relevo tão propício a aconchegar um anfiteatro, para representações de tragédias e comédias. Só mesmo a força das obras de Ésquilo, Sófocles e companhia para manter a atenção dos espectadores. Concorrer com aquele espetáculo de paisagem não é para qualquer texto.


Teatro Antico di Taormina, Vial del Teatro Greco nº1. Diariamente, a partir das 9 horas. O encerramento da visitação varia de acordo com a época do ano: fecha às 16h, no inverno, e às 19:30, entre maio e agosto. A entrada custa €8.

Mosaicos romanos

O Naumachie
Vestígios gregos e romanos
Você vai andando pela cidade e vai encontrando plaquinhas (bem discretinhas, diga-se) que convidam o visitante a virar num bequinho estreito e ver restos de mosaicos romanos, arcos gregos e vestígios de antigos poços, paredes e escadarias. O mais famoso desses lugares é o Naumachie, um antigo ginásio romano.

Naumachia significa, literalmente,“batalha naval” e era um espaço construído para a simulação dessas batalhas, uma espécie de circo aquático. O Naumachie de Taormina não tem nada a ver com isso. Os arcos que hoje abrigam residências e restaurantes são vestígios de um Nymphaeum, um tipo de fonte ritual em homenagem às ninfas, divindades das águas.

Caminhando pelo Corso Umberto, você vai encontrar várias indicações para ver mosaicos e outros vestígios da Antiguidade.

Para encontrar o Naumachie, desça a Via Fratelli Bandiera, transversal do Corso Umberto. Uma quadra adiante, pegue a Via Naumachie.

Três igrejas lindinhas
Cavalinho da fonte, com o Duomo ao fundo.
À direita, detalhe da porta da catedral
Taormina tem tantas coisas lindas pra ver que talvez por isso a gente ouça falar tão pouco de suas belas igrejas. Não espere encontrar no Duomo (catedral), em San Giuseppe ou em Santa Caterina aquele esplendor de douramentos barrocos que a gente naturalmente associa à expressão igreja bonita. O charme dessas igrejinhas são suas dimensões quase íntimas, a decoração que convida o olhar para um passeio antes de mostrar seus encantos.

Fonte barroca na praça da catedral
A centaurinha da fonte 

o interior da catedral
O interior do Duomo. As colunas são em mármore de Taormina
 e acredita-se que tenham sido retiradas do Teatro Antigo
A aparência externa do Duomo, do Século 13, é o oposto do que a gente normalmente associa à palavra “catedral”. O edifício em pedra nua, meio atarracado, quase passa despercebido na pracinha singela, onde pontifica Le Quattro Fontane, um conjunto renascentista de quatro fontes, cada uma com um simpático cavalinho como vertedouro, encimado por uma centaurinha que parece desenho de criança. A igreja tem um aspecto quase militar. Neste ponto, lembra as catedrais portuguesas e espanholas do tempo da luta contra os mouros, a Reconquista, quando os templos cristãos exibiam a aparência de fortalezas.

Os altares laterais do Duomo, em mármore,
são o contraponto à austeridade das paredes nuas
O interior do Duomo, ao primeiro olhar, parece ainda mais austero, com suas paredes nuas salpicadas de altares. Só depois de descer o pequeno lance de degraus que dão acesso à nave é que a gente começa a atentar para os detalhes: riqueza do mármore rosa de suas colunas, a robustez das traves de madeira entalhada no teto e a riqueza dos mosaicos de mármores multicores que adornam seus altares.

Detalhe da fachada de San Giuseppe
San Giuseppe paira sobre a Praça do Relógio, do alto de suas escadarias, com uma fachada muito simples. Não se engane, porém: o interior desse templo, com decoração do Século 18, é encantador. As paredes são cobertas de relevos em estuque que parecem camafeus feitos para abrigar pequenos afrescos. No teto, o afresco da sagrada família tem um toque naïf comovente. Não deixe de prestar atenção ao portal entalhado em mármore de Taormina.


O belo interior da Igreja de San Giuseppe
Outra igreja surpreendente é Santa Caterina d’Alessandria, do Século 17. Seu exterior rústico, em pedra cor de caramelo, abriga um interior elegante, decorado com a clássica espiral das colunas salomônicas e belas telas sacras. Quando a visitei (na virada do ano), um detalhe a tornava ainda mais encantadora: as oferendas de frutas e grãos diante do altar, agradecimento pela colheita, ajudavam a lembrar que, por mais turística e cosmopolita que uma cidade siciliana se torne, a sua alma profunda sempre estará ligada à labuta com a terra.

A fachada austera de Santa Caterina...

...abriga um interior elegante
Duomo - Piazza Duomo, das 8:30 às 20horas. Entrada franca.
Igreja de San Giuseppe – Piazza IX Aprile, Centro Storico, diariamente, das 9h às 20 horas, visita gratuita.
Santa Caterina d’Alessandria - Corso Umberto, ao lado do Palazzo Corvaja. Diariamente, das 9h às 20 horas, entrada gratuita.

As famosas cabeças de mouro, peças típicas da cerâmica siciliana
Majolica, a arte de Taormina
O azul do Mar Jônico, o branco da neve do Etna, no inverno, e o tom de areia dourada das fachadas de pedra de Taormina já são completamente sedutores, mas há um toque multicor por toda a cidade que contribui um bocado para a beleza do lugar. São as famosas peças de Majolica (leia maiólica), a cerâmica que os sarracenos ensinaram aos sicilianos, a partir da invasões do Século 10, e que se transformou na marca mais fortes do artesanato local.

Peças de Majolica expostas no pequeno museu do Palazzo Corbaja
As vitrines oferecem opções para todos os bolsos
Os motivos podem variar, mas as pinhas, as cabeças de mouros e a Trinácria (a figura de três pernas que simboliza a forma triangular da Ilha) são os mais presentes nessa arte tipicamente siciliana. A cada dois passos que você der na cidade, vai encontrar uma loja de Majolica ou um ateliê, com peças mais exclusivas (e, naturalmente, muito mais caras). Mas essas peças são muito mais que uma produção para turistas. Olhe em volta e verá que as fachadas das casas sempre têm algum adorno do tipo: elas fazem parte da vida local.

As pinhas (em primeiro plano) aparecem em todos os tamanhos
 e cores e também são típicas da tradição local
Explorar as vitrines e lojas de Majolica em Taormina é muito mais que garimpar souvenir. É perceber a diferença dos padrões, desenhos e paleta de cores de milhares de artesãos da ilha que dedicam manter vivo esse ofício milenar — mesmo com minha obsessão por viajar leve, não resisti e comprei alguns exemplares. Minúsculos, naturalmente :).

Plantas e Majolica: um típico balcão de Taormina
Mais sobre a Sicília
Dicas gerais
Roteiro de sete dias pela ilha, com paradinhas em Nápoles e Roma
Como chegar e como circular na Sicília
Dicas de hospedagem em Taormina, Agrigento e Palermo
Delícias sem frescura: os sabores da Sicília

Atrações 
Uma vertigem chamada Taormina
Quatro igrejas em Palermo
Um passeio para descobrir a beleza de Palermo
O Teatro Massimo, em Palermo
Palácio Abatellis - Galeria de arte gótica e renascentista
O Vale dos Templos, em Agrigento
Castelmola, um mirante para o Etna


Detalhe em estuque e afresco no interior de San Giuseppe

A Itália na Fragata Surprise
Campânia: HerculanoNápoles e Pompeia
Costa Amalfitana: AmalfiRavello e Sorrento
Emília-Romanha: Bolonha e Ravena
Sicília: AgrigentoCastelmolaPalermo e Taormina
Toscana: FiésoleFlorençaLucaSan Gimignano e Siena
Vêneto: Burano e Veneza

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4 comentários:

  1. Oi, Cyntia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia – Natalie

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    1. Que bacana. Adoro qdo a Fragata sai no Linkódromo :)

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  2. Ah esse encontro entre gregos e romanos e sarracenos e mais uns tantos... as cabeças de mouro parecem carnaval brasileiro, não? Adorei o post, Cyntia!

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    1. Obrigada, Acco :) Também tive essa impressão: as cabeças de mouro me lembravam o tempo todo de Carmem Miranda :)

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