terça-feira, 14 de abril de 2015

Surpresa siciliana: Palermo é linda!


Dois ângulos de Palermo vistos da torre da Igreja do Santíssimo Salvador

Já disse isso antes e vou ter que repetir: que baita mundo generoso é esse nosso, que vive colocando lindas surpresas no caminho dos viajantes. O encanto da vez é Palermo, a capital da Sicília, uma cidade que, se não fosse pela minha teimosia (e pelas dicas de Patricia Kalil, do blog Descobrindo a Sicília), teria entrado no meu roteiro apenas como base para visitar seus arredores.

Pois eu fui e gostei tanto que acabei deixando a vizinhança para uma próxima vez. A capital da Sicília é bonita por natureza, tem um patrimônio histórico espetacular, opções gastronômicas tentadoríssimas e é muito mais tranquila do que nos faz supor seu passado conturbado

Palermo é uma opção e tanto como destino turístico. Tenho certeza que você vai amar descobrir essa cidade.


A Marina de palermo vista do arco da Igreja de Santa Maria della Catena, no Corso Vittorio. À direita, a Igreja daPietà
Palermo é uma cidade grande, para padrões europeus (a quinta maior da Itália, com quase 700 mil habitantes), com a memória recente marcada pela violência do crime organizado e desafios sociais e econômicos ainda a serem vencidos — como costuma ser no Mezzogiorno, o Sul pobre e discriminado da Itália.

Nada disso, porém, empalidece a beleza arrebatadora de seu horizonte alvoroçado por montanhas e campanários, de suas fachadas arrematadas por flores e roupas no varal e de seu patrimônio histórico à altura de qualquer uma das queridinhas muito citadas nos guias de viagem.

As muralhas da cidade foram ocupadas por residências. Margeando as antigas estruturas defensivas, corre o Corso Itálico, um calçadão


Meus três dias em Palermo (em janeiro deste ano, minha última etapa da viagem à Sicília) foram uma sucessão de surpresas, cada uma melhor que a outra. Fiquei deslumbrada pelo Teatro Massimo, uma das casas de ópera mais importantes da Itália, e pelo acervo da Galeria Regional do Palazzo Abatellis.  Fiz grandes farras gustativas na histórica Focacceria San Francesco e outros bons lugares para comer na cidade. Mas a capital da Sicília encanta mesmo é pelo conjunto da obra. 

Não espere um Centro Histórico asséptico, engomadinho e ordenado. Palermo é feita da mesma essência de Nápoles e de Salvador, cidades que torcem o nariz para a disciplina e despertam paixões viscerais sem bancar as patricinhas.

O que fica devendo em ordem, Palermo esbanja em vitalidade, uma beleza passional, quase áspera, densa como a gente imagina a alma siciliana.

Porta Felice, do Século 16: entrada para o Centro Histórico
Palermo se apresentou a mim em uma tarde radiante de domingo, com 16 graus de temperatura, em pleno inverno. Como fiquei hospedada no chamado Foro Itálico (oficialmente, Foro Umberto I), meus primeiros passos foram exatamente neste calçadão à beira mar que margeia as antigas muralhas da cidade, hoje convertidas em moradias, restaurantes e pousadas.

Achei linda demais a forma como as muralhas foram ocupadas (e preservadas), com janelinhas floridas e balcões. Do outro lado da pista, há uma concorrida área de lazer, com espaços para diversos esportes, diante do porto turístico da cidade.

Fachadas do Centro Histórico: morri de paixão

Do Foro Itálico ao coração do Centro Histórico é uma caminhada curta. É só “trocar de rei”, isto é, dobrar no Corso Vittorio Emanuele, transversal do Foro Umberto I.

O Corso Vittorio, antigo Cassaro (do árabe al Qasr, “fortificação”) foi traçado ainda na época dos fenícios e é o mapa da mina para as principais atrações da cidade, que ou estão às suas margens ou a poucos metros de distância. Desde o Século 16, sua entrada em frente ao porto é marcada pela Porta Felice, parte das fortificações de Palermo.

A Piazza Pretoria também é chamada de Piazza della Vergogna,
em alusão à nudez das estátuas que adornam sua magnífica fonte renascentista
A chegada à fonte por um bequinho amplia o impacto 
Com tanta história e importância, é natural que a gente espere encontrar no Corso Vittorio uma avenida larga e espetaculosa, mas que nada.

A rua estreita obriga o visitante a fazer malabarismos na tentativa de fotografar suas fachadas — e suas transversais, mais estreitas ainda, sequer recebem luz do sol suficiente para ajudar a secar a grande quantidade de roupa estendida nos balcões e janelas.

É a simplicidade à moda de Palermo: quando a gente começa a achar que está em um cenário super doméstico, é sacudida de repente por trombetas celestiais que anunciam alguma beleza de rasgar a roupa.

A Fontana Pretoria,
com a Igreja de San Giuseppe dei Teatini, ao fundo
Uma dessas belezas é a Fontana Pretoria, que aparece de mansinho em uma transversal do Corso Vittorio. Você vem andando pela calçada e, de repente, vê umas estátuas à sua esquerda. Sobe os 15 degraus de uma escada que leva à praça e quase cai de costas, pois acabou de aterrissar em um espetáculo renascentista. 

A fonte, do Século 16, foi construída em Florença e comprada pelos palermitanos pouco tempo após sua inauguração. O círculo da fonte tem cerca de 35 metros de diâmetro (como eu sei? Medi no GoogleEarth), uma profusão de belas estátuas (eu estava muito embasbacada para contar quantas) e fica ainda mais impressionante por conta dos palácios e igrejas que a cercam (escondem), aumentando o impacto do primeiro encontro.

O quadrilátero da praça é formado pelo Palazzo Pretorio, do Século 14, que abriga órgãos públicos, pelo Palazzo Bonocore e pela Igreja de Santa Caterina, ambos do Século 16, e pela Igreja de San Giuseppe dei Teatini, a caçula da praça, do Século 17.

A beleza das marcas do tempo
Pronto, Palermo tinha me fisgado de vez. E olha que eu nem tinha posto os pés na esquina mais bonita do planeta, os maravilhosos Quattro Canti, fachadas monumentais que formam um octógono e demarcam uma antiga praça (Piazza Vigliena), construída no Século 17 para expressar o poderio do Império Espanhol sobre a Ilha da Sicília.

O conjunto de fontes fica na confluência entre as vias Maqueda e Vittorio Emanuele. Não sei qual é a taxa de atropelamentos na área, mas todas as vezes que passei por lá acabei me juntando aos grupos de turistas que giram feito dervixes, no meio do cruzamento, contemplando a beleza da obra. Escapei com vida e completamente encantada.

Quattro Canti:
séria candidata ao título de esquina mais bonita do mundo
Os espanhóis que legaram Quattro Canti à cidade foram apenas um dos muitos povos que dominaram Palermo, desde sua fundação pelos fenícios. Mesmo em um Mediterrâneo onde as invasões e conquistas eram lugar comum, a capital da Sicília desponta como campeã disparada na troca de poderosos.

A disputada Conca D'Oro ("concha de ouro", alusão ao formato de anfiteatro dado ao sítio onde se assenta a cidade, acomodada nas fraldas dos montes Pellegrino e Alfano) já havia trocado de mãos entre autóctones cretenses e troianos quando os fenícios chegaram, no Século 7 a.C., para fundar Zyz, origem histórica de Palermo.

Quatro estações, quatro reis Habsburgos
Os gregos até tentaram, mas jamais conseguiram conquistar a cobiçada localização (mas forjaram seu nome, ao chamá-la de Panormos, ou "grande porto). Quem conseguiu foram os romanos, que chegaram no Século 3 a.C. e ficaram por lá até a queda de seu império.

A sequência é quase uma enciclopédia de povos: vândalos, ostrogodos, bizantinos, mouros, normandos, suábios, franceses, aragoneses, espanhóis... Todos deixaram suas marcas na cidade. Quattro Canti representa as quatro estações do ano, mas também os quatro reis espanhóis da Casa de Habsburgo (ou os Áustrias) que haviam reinado até sua construção: Carlos V e os Felipes II, III e IV.


Esse revezamento frenético de conquistadores (que deve ter sido cruel para os palermitanos) deixou um legado arquitetônico impressionante à cidade. Igrejas (vou falar delas no próximo post), palácios, mosteiros... Por tudo isso, achei poucos os três dias que passei na cidade, especialmente considerando que, no inverno, a luz acaba mais cedo e as atrações também têm horários mais curtos.

Também é importante destacar que a cidade me pareceu segura, mesmo à noite. Caminhei bastante entre o Centro Histórico e o Foro Itálico, sem jamais me sentir em risco. Talvez eu seja mais destemida, mas achei Palermo tão tranquila quanto Nápoles e Roma. Creio que os cuidados básicos que se toma em qualquer lugar já serão suficientes. Se alguém tiver informações diferentes, please, use a caixinha de comentários 😊

 Ainda vou falar um bocado sobre Palermo, aqui na Fragata. Continue navegando comigo por essa cidade apaixonante. Até o próximo post.


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2 comentários:

  1. Oi Cyntia!

    Sorri de orelha a orelha ao ler a comparação de Palermo com Salvador. Um dos meus primeiros textos lá no blog foi justamente uma visão geral de Catânia, onde eu a comparava a Salvador, mas especificamente à Cidade Baixa (na primeira vez que fui à Catânia achei que estava no Comércio!).
    Obrigada por ajudar a mostrar aos viajantes brasileiros que Palermo é linda!
    Eu arriscaria a dizer que Palermo seja até mais tranquila do que Roma ou Nápoles. E pensar que em 2015 ainda tem gente que acha que a Sicília seja uma espécie de Chicago nos anos 30, com gângsters vestidos com paletós de risca de giz e metralhando pessoas nas ruas da cidade. :)

    Beijos,

    Patricia

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    1. Patricia, é impossível a gente não reconhecer um toque da alma baiana no Mezzogiorno. Nápoles, Palermo... Duas cidades lindíssimas, passionais, ricas em patrimônio e cultura. Sou doida por elas e quero voltar sempre. Obrigada por todas as dicas para essa viagem. Bjo

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