sexta-feira, 17 de abril de 2015

Quatro igrejas em Palermo

Santa Maria della Catena e o mar,
uma visão irresistível
Palermo tem pelo menos 50 igrejas recomendadas como atração turística pelos diversos guias editados sobre a cidade. As mais famosas são a Capela Palatina, no interior do Palácio dos Normandos e a Martorana (Santa Maria dell'Ammiraglio). Mas eu quero lhe recomendar muito que amplie seu roteiro para outros templos menos badalados, mas simplesmente lindos.

Escolhi quatro delas para este post, porque ficam a distâncias confortáveis umas das outras e dá para montar um roteiro a pé pra fazer em uma manhã (ou tarde). Tem a fofa Santa Maria della Catena, em estilo gótico-catalão, a imponente Catedral e o esplendor barroco de Santa Maria della Pietà e do Santissimo Salvatore  esta última oferece uma visão celestial da cidade, do alto de sua cúpula.

Três delas esrão no Corso Vittorio Emanuele, com exceção de La Pietà, que fica a duas quadras de distância, na Via Torremuzza (veja o mapinha no final do post). Bora passear?


Santa Maria della Catena
Piazzetta delle Dogane, esquina com o Corso Vittorio Emanuele. De segunda a sábado, das 10h às 18h. Domingos, das 14h às 18h. Entrada € 2,50

A fachada em estilo Gótico Catalão
Se você leu Game of Thrones, deve ter vibrado com o engenho de Tyrion Lannister, que fechou o porto de King’s Landing com uma corrente, aprisionando a frota de Stannis Baratheon em uma armadilha. O recurso era comum na Idade Média — geralmente para deixar os inimigos do lado de fora do porto. Um exemplo é a igreja de Santa Maria della Catena (Santa Maria da Corrente), em Palermo, Sicília, atração pouco badalada, mas que super merece a visita.

Da parede lateral da Igreja de Santa Maria pendia uma das pontas da corrente que vedava o acesso de estranhos à Calla, o antigo porto de Palermo, hoje convertido em uma marina lotada de iates e escunas.

O interior austero da igreja contrasta com a riqueza de detalhes dos altares laterais (abaixo)

A tática de Tyrion, porém, não foi o que me atraiu para uma visita a Santa Maria della Catena, até porque eu não fazia a mínima ideia sobre a história desse templo do Século 16.

Foi o belo quadro que vi, por acaso, do alto do passeio que cerca o Palazzo Chiaramonte: os arcos da peculiar fachada de Santa Maria, em estilo Gótico Catalão, pareciam uma imensa janela para o azul da marina e do céu palermitano, uma visão irresistível.


Nossa igrejinha com "janelas para o mar", foi inaugurada no comecinho do Século 16, quando a cidade estava sob domínio aragonês — a construção foi iniciada no reinado de Fernando de Aragão, futuro rei da Espanha como Fernando, o Católico.

Seu interior parece tremendamente austero, à primeira vista, sem adornos na nave principal que concorram com a elegância de seus arcos ogivais em pedra e suas esguias colunas de mármore. Só depois é que a gente repara na riqueza de suas capelas laterais. Não espere o esfuziante do Barroco, porém. Os altares tem um tom discreto, quase monocromático, mas são belíssimos.

Santa Maria della Pietà 
Via Torremuzza. De segunda a sábado, das 8h às 13h e das 16h às 19h. Visita gratuita


Um espetáculo barroco
Depois da sobriedade de Santa Maria della Catena, o impacto da  magnífica decoração barroca no interior de Santa Maria della Pietà é imediato — eu até fiquei tonta de tanto olhar para cima e girar para admirar seu teto e paredes totalmente recobertos por afrescos e estuque.

O coro della Pietà, em delicado rendilhado  em metal, retrata o sol nascente (esq) 
O edifício é do Século 17 e fazia parte do convento instalado no Palazzo Abatellis, hoje um senhor museu de arte gótica e renascentista, alás, outra visita imperdível em Palermo.

La Pietà foi projetada pelo arquiteto palermitano Giacomo Amato, uma estrela palermitana em seu tempo.


A decoração do templo foi concluída no Século 18, com as contribuições das famílias abastadas cujas filhas tomavam o hábito de freiras no Monastério della Pietà, o que explica a opulência dos douramentos e infinidade de detalhes, com cada patrono tentando superar o outro.

Santissimo Salvatore 
Corso Vittorio Emanuele nº 395. Diariamente, das 10h às 18h. Entrada € 2,50 (para súbir à cúpla, + € 2). 


A igreja hoje é usada como sala de concertos
A Igreja do Santíssimo Salvador tem uma fachada muito simples, em uma pedra escurecida pela fuligem dos automóveis que sobem e descem o Corso Vittorio Emanuele.

Sem qualquer adorno que a distinga — ainda mais naquela rua estreita, que exige contorcionismos de quem queira observar as fachadas de seus edifícios — ela correria o risco de passar despercebida, não fosse o modesto cavalete colocado na calçada, com fotos desbotadas e o anúncio que promete "vistas panorâmicas" de Palermo do alto de sua cúpula.

Os trechos sem pintura na decoração são reconstituições.
 A igreja foi muito danificada durante a II Guerra
Lá fui eu conferir a promessa, mas muito antes de começar a subir os incontáveis degraus que levam ao campanário (tantos que ajudaram a desencadear a crise de asma que quase acaba com a minha viagem), eu já estava feliz da vida por ter decidido entrar naquela igreja linda.

O interior do templo é o oposto de sua fachada, com uma feérica decoração barroca em mármores de todas as cores, relevos em estuque e afrescos.


O edifício original é do Século 12, da época da ocupação normanda, mas passou por uma reforma radical no Século 17 e, no século seguinte, teve completada sua magnífica decoração.

Assim como o Palazzo Abatellis, foi praticamente destruída pelo bombardeio aliado de 1943, durante a Segunda Guerra Mundial. Seus restauradores reconstituíram os adornos internos, optando por deixar em gesso, sem pinturas, os trechos reconstruídos. Os trechos originais, porém, dão uma ideia do esplendor que tinha no Século 18.

A vista do alto da cúpula de Santíssimo Salvador
Dá um aperto no coração imaginar aquela beleza feita em caquinhos por uma bomba (peça aos recepcionistas para ver algumas fotos xerocadas do estrago, exibidas ao lado da mesinha que serve de bilheteria). Embora ainda funcione como igreja, Santíssimo Salvador é mais usada como auditório para concertos. Pena que não havia nenhum programado para os dias que passei na cidade.

Sobre a subida à cúpula, com asma e tudo, preciso lhe contar que foi o momento mais arrebatador que vivi em Palermo. A luz dourada do inverno mediterrâneo caindo sobre a cidade, o mar e as montanhas, a profusão de campanários... Uma imagem linda, inesquecível, mais uma para a rubrica "vale a pena estar viva".


O acesso à cúpula só é permitido em visitas guiadas, realizadas diariamente. Atenção aos horários, pois são apenas seis por dia, às 10h, 11h, 12h, 15h, 16h e 17h.

No inverno (1º de novembro a 20 de março), as visitas à cúpula só são realizadas nos sábados, domingos e feriados, às 10h, 12h, 15h e 17h. Custam outros € 2,50 - e valem demais a pena. Não perca a chance de ver Palermo do alto!



Catedral de Palermo
Piano della Cattedrale, Corso Vittorio Emanuele. Diariamente, das 9h às 17:30h. Entrada gratuita.


A Catedral é impressionante. Uma espécie de resumo arquitetônico dos  diversos povos que dominaram Palermo. Ela foi construída pelos normandos, no Século 12, sobre os restos de uma basílica bizantina que os sarracenos usaram como mesquita.

Desde sua construção até o Século 19, a catedral veio recebendo incontáveis adendos em alas e decoração. Ela tem elementos góticos, mouriscos, barrocos... O resultado, longe de resultar em cacofonia, é bem bonito, especialmente no exterior, que tem uma senhora imponência.



O pórtico renascentista da Catedral estava passando por obras de restauro, coberto por telas e andaimes, e eu morri de pena de não poder vê-lo direitinho. Comparado com a fachada, o interior da Catedral até parece monótono, excessivamente monocromático e em rigorosa simetria. Mas a igreja guarda uma série de objetos de grande valor artístico e histórico, como o mosaico de uma madonna, do Século 13.




Informações práticas





Santa Maria della Pietà
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