terça-feira, 10 de março de 2015

Excursão a Angra dos Reis: eu fui e não gostei

Excursão com passeio de escuna: locações fantásticas.
Pena que roteiro, direção e trilha sonora 
não estejam à altura 
Essa pequena aventura vai entrar para aquela lista de "Coisas que eu só faço pela Fragata". Na minha passagem mais recente pelo Rio de Janeiro (para ver o show de Ringo, no dia 27/02), resolvi testar o passeio a Angra dos Reis e à Ilha Grande que é oferecido por um monte de agências de turismo cariocas. O esquema é bem similar: o turista é apanhado no hotel, viaja de ônibus ou micro-ônibus até Angra, onde embarca em uma escuna que faz algumas paradas em praias da região.

Além do interesse jornalístico, claro que eu queria curtir um lindo dia no mar e rever as paisagens maravilhosas daquele pedaço mágico do litoral brasileiro. Os leitores da Fragata sabem que sou bem alérgica a excursões, mas essa opção parecia o jeito mais prático e relaxado de fazer o passeio, sem a preocupação de alugar um carro e a incerteza de encontrar uma embarcação disponível – nós não planejamos com antecedência.

O resultado da experiência, porém, só serviu para reforçar a minha convicção de que o tal "segmento do turismo de massas", no Brasil, ainda tem alguns milênios de caminhada até se tornar minimamente atraente.
Freguesia de Santana, na Ilha Grande
E quando falo em "turismo de massas", não estou falando de um turismo barato, afinal pagar R$ 170 por um dia de passeio não chega a ser uma pechincha. Contratamos o passeio pela internet, com uma agência chamada Rio Máximo. É preciso depositar 50% do valor da viagem para confirmar a reserva e, se o restante também for pago em dinheiro, há um desconto de R$ 20 no preço final.

A partida do grupo é bem cedinho, às 7 da manhã já é preciso estar a postos. A empresa foi pontual e na hora combinada já estávamos acomodadas (eu, minha irmã, Simone, e minha amiga Monica) no micro-ônibus que nos levou a Angra. E é exatamente aí que começam os problemas, já que o veículo expressa muito mais o prefixo (micro) que o substantivo (ônibus), obrigando os passageiros a viajarem duas horas com os cotovelos bem coladinhos às costelas.

O porto turístico de Angra dos Reis
Depois de uma hora de percurso, o grupo tem uma parada na altura de Muriqui, distrito de Mangaratiba, para um café, toalete e uma esticadinha nas pernas. A essa altura da viagem, já estamos margeando a estonteante paisagem da Baía de Ilha Grande pela Rodovia Rio-Santos, trecho da BR-101 que considero a nossa Costiera Amalfitana. Apesar do aperto no micro-ônibus, eu ainda estava bem entusiasmada com a perspectiva do passeio de escuna e das paradinhas estratégicas para alguns mergulhos.


Cerca de uma hora depois da passagem por Muriqui, chegamos ao Cais Estação Santa Luzia, em Angra dos Reis, para o embarque na escuna e as nossas esperanças de um relaxado dia al mare começam a desmoronar. A embarcação é compartilhada com vários outros grupos — no nosso caso, segundo a organização do passeio, éramos 174 pessoas, entre passageiros e tripulantes, em uma escuna com alegada capacidade para 180. Sem dúvida, havia coletes salva-vidas suficientes. O que não tinha era espaço pra todo mundo sentar.


Não entendam mal: como usuária frequente do transporte coletivo, estou super acostumada a viajar de pé (se bem que a rota de ônibus que faço diariamente em Brasília, a caminho do trabalho, dificilmente me obriga a isso). Mas quando me proponho a um passeio de quase sete horas, eu faço questão de poder levantar de vez em quando, sem medo de perder o lugar, e de ter outra acomodação para a bolsa que não sejam os meus joelhos.

O desconforto espacial, porém, era nada, perto da tortura sonora a que são submetidos os passageiros: em vez do pio das gaivotas e do barulho do mar, o que a gente ouve é uma música dos infernos (não faltou nem a “sofrência” de Pablo), tocada em um volume que só pode ter sido programado para traumatizar a fauna marinha da região ao ponto da extinção eutanásica.

Freguesia de Santana: só meia hora nessa prainha gostosa


Depois de umas quatro horas de derretimento cerebral compulsório, pedimos para reduzir um pouquinho dos decibéis e a resposta de um dos organizadores do passeio foi que “as pessoas pagaram para ouvir música”. Tentei identificar entre os passageiros alguém que estivesse com cara de estar curtindo o barulho e juro que não consegui. Estava todo mundo ocupadíssimo berrando no ouvido de alguém, na tentativa de estabelecer uma conversa...

O passeio tinha três paradas previstas, a primeira na Ilha de Cataguases (de 30 a 40 minutos), a segunda na Lagoa Azul, já na Ilha Grande (30 a 40 minutos) e, por fim, a pausa para o almoço na Praia de Japariz, também na Ilha Grande, onde deveríamos ficar uma hora. Fora essas duas horinhas de refresco, o resto da viagem é passada no aperto barulhento da escuna.


Como bateu o vento Sudoeste, a programação foi alterada e acabamos parando apenas na entrada da Lagoa Azul (não vimos nem a cara do famoso point de mergulho) e na Freguesia de Santana, uma prainha simpática. A última parada em Japariz foi cancelada devido ao toró bíblico que desabou e levou a assembleia de passageiros a pedir pra voltar para Angra.

Fila para reembarcar, depois do almoço
O almoço, incluído no passeio, foi servido em um bar na praia, na Freguesia de Santana. Eu não esperava muito, mas, mesmo assim, consegui me irritar com a refeição, que consistia em feijão, arroz e pirão de peixe (a única opção efetivamente comestível) acompanhando frango e peixe empanados.

A bordo da escuna são servidas bebidas, basicamente cerveja (R$ 10) e refrigerantes (R$5) em lata. Cada passageiro recebe uma comanda, onde é anotado seu consumo. Já no ônibus, a caminho de Angra, somos alertados de que a perda do papel implica o pagamento de R$ 200 (!!!). As opções de tira-gosto são salgadinhos de pacote (R$ 5). Também é possível alugar snorkel (R$10).


Lá pelas 16 horas, quando o temporal desabou, foi com um tremendo alívio que a unanimidade dos passageiros votou pelo retorno a Angra. Ao contrário da maioria das escunas que passavam por nós, a  nossa (chamada Ilha Grande) não dispunha de proteção lateral (plásticos transparentes) contra a chuva, o que tornou a jornada de volta ao cais um banho coletivo inapelável.

Moral da história: não recomendo de jeito nenhum que você faça essa passeio e lamento que as opções de turismo organizado no Brasil ainda estejam tão fortemente divididas entre o "exclusivo" (absurdamente caro) e o "acessível", frequentemente desdenhoso com o consumidor. A parte boa é que cada vez mais a gente aprende a viajar de maneira independente, cuidando de nossas reservas, planejamento e tudo mais. Acredite, viajar por conta própria pode parecer mais caro e trabalhoso, mas é a forma que oferece a melhor relação custo-benefício para o turista.


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10 comentários:

  1. Vc é corajosa! Se embrenhar numa excursão dessas é um ato de coragem a ser louvado!
    Eu aprendi há tempos que viajar em excursão é furada e dentro do Brasil, furada e meia! Nosso país, infelizmente, não está preparado para o turismo. Uma pena. Com tantas belezas por aqui, seria ótimo que esse turismo de massa funcionasse, que esses day-trips dessem certo aqui como dão em tantos outros lugares do mundo, mas faltam profissionais capacitados e principalmente falta preocupação com o bem-estar do turista. Só se visa o lucro e isso é muito triste!
    Obrigada por compartilhar conosco sua experiência, Cynthia!
    beijos

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    1. Karla, as duas day-trips que tinha feito na vida, aqui no Brasil, tinham funcionado direitinho. Fui a Cânion de Xingó e a Mangue Seco e não tive queixas (eu tinha acabado de sofrer uma tentativa de assalto e decidi que não queria mais me arriscar sozinha, ao volante, naquela viagem).
      Mas é como você falou: em geral, os viajantes são amontoados, já que quanto maior o número de passageiros, maior o lucro da excursão. Uma falta de respeito inacreditável.
      Pra minha sorte, eu estava com duas ótimas companheiras de viagem e nós morremos de rir, apesar do perrengue :)

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  2. Oi Cyntia,

    O mesmo ocorre em minha cidade. Fiz um passeio de escuna com meus pais e foi ótimo, outra pessoa fez em outro dia e foi horrível.
    Como citado acima, se houvesse organização, todos ganhariam. É lamentável que no Brasil se pense apenas no lucro imediato.
    Parabéns pelo texto!

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    1. Obrigada, Vaneza :) Acho que a mania do lucro imediato nem é monopólio nosso, mas é muito chata a falta de respeito com o consumidor.

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    2. Obrigada, Vaneza :) Acho que a mania do lucro imediato nem é monopólio nosso, mas é muito chata a falta de respeito com o consumidor.

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  3. Cyntia,
    Lamento que você tenha tido uma experiência tão desagradável neste passeio à Angra dos Reis. Como você sabe, sou guia no Rio de Janeiro e este passeio é um dos que às vezes faço. Na verdade, só fiz duas vezes, até agora. A primeira com um grupo de 20 médicos húngaros e a segunda com um grupo de estudantes do Rio Grande do Sul. As duas experiências foram boas, pois informamos aos passageiros como o tour é operado, frisando a questão do coletivo. E isso você sabe, passeios coletivos são sempre diferentes de passeios privados. Digo isso, porque faço muito tour privativo com pequenos grupos. E aí tudo muda, mas claro, isso tem um preço. Porém, essa é uma situação que ocorre mundo afora. Estive na Turquia em setembro/2014 e fiz um cruzeiro pelo Bósforo num barco com mais de 200 pessoas e fiquei numa cadeira disputada a tapas...
    Por fim, espero que as empresas repensem a operação de determinados tours. Vou mostrar seu post para meus colegas guias, principalmente, àqueles que fazem este tour. Abraço

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    1. Jorge, a questão não é compartilhar a escuna com outros grupos. A questão é a superlotação e o desconforto. Quando se leva pessoas para passar sete horas ou mais embarcadas, está claro que a escuna não é um mero transporte, mas o passeio em si.
      Eu fui de Nápoles a Pompeia e Herculano em um trem de cercanias não lotado que quase não tinha lugar para eu pisar. Só que esse não era o passeio, era o transporte que eu escolhi para chegar, de forma rápida e barata, às atrações que ia visitar. Se eu tivesse que passar sete horas em um vagão, pagando caro e tentando ver as atrações pela janelinha, ia odiar, né?

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    2. "trem de cercanias TÃO lotado"

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  4. Cyntia, já acompanhava seu blog "de longe" e hoje resolvi dar uma aprofundada melhor, o que me permitiu descobrir preciosidades aqui. Parabéns pelo capricho em cada post. Sua escrita é deliciosa e seria capaz de ficar o dia todo lendo seus escritos.

    Sobre o "turismo de massa", eu concordo plenamente. Não sei de onde surgiu esse conceito de que muita gente, som alto, desrespeito à natureza e às realidades locais pode ser vendido como produto. Sempre defendi a ideia de que o viajante precisa se adequar a realidade que ele está e sou contra esse turismo que obriga a comunidade visitada a ter que se adequar pra receber o turista. O turismo como consumo (e não como experiência) me incomoda deveras.

    Mais uma vez, parabéns pelo blog!

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    1. Oi, Ana, obrigada!!
      Também sou bem grilada com a ideia de turismo de consumo, mas acho que nem sempre a gente consegue escapar...
      Bjo

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