domingo, 15 de fevereiro de 2015

A rua mais bonita de Roma

Detalhe de uma fachada da Via Giulia. Ao fundo, a Igreja do Espírito Santo dos Napolitanos 
Roma é a cidade dos césares e de grandes monumentos da Antiguidade, mas também é a cidade dos papas e das poderosas famílias que dominavam a cidade, elegiam pontífices e controlavam grandes territórios da Península Itálica durante a Renascença. E em poucos lugares a cidade permanece tão renascentista quanto na Via Giulia, encomendada pelo papa Júlio II como parte de um ambicioso projeto de modernização urbana da cidade eterna, nos primeiros anos do Século 16.

Passear pela Via Giulia é um programa delicioso em Roma, um mergulho profundo e sossegado na Renascença, com muita coisa bonita pra ver, uma profusão de detalhes encantadores que, se a gente não tiver disciplina, não vai conseguir parar de fotografar. É só um quilômetro de rua, mas é atividade para várias horas.

Via Giulia é uma sucessão de belos palácios renascentistas
O papa Júlio II, idealizador da rua, era ninguém menos que Giuliano dela Rovere, o inimigo número 1 e sucessor do papa Borgia, Alexandre VI. Para desenhar a nova via ele convidou Donato D'Agnolo, arquiteto que entrou para a história conhecido como Bramante e a quem Michelangelo chamou de “mestre”.

A ideia era devolver a Roma, sede do papado, o esplendor condizente com uma urbe que se proclamava centro do planeta e que, no mínimo, por sua importância política, podia se apresentar como uma das capitais do mundo ocidental.
Uma das graças do passeio
 é bisbilhotar os pátios dos palácios
A nova rua foi traçada com a objetividade dos novos tempos, sem volteios medievais — uma das primeiras expressões da concepção urbanística do Renascimento, que ainda engatinhava. 

Via Giulia é uma linha quase reta que parte da altura da Ponte Sisto e segue até a beira do rio, diante do Castelo de Sant’Angelo, principal assento do papado nessa época — não por muito tempo, pois, também fruto da prancheta de Bramante, já começava a se delinear o símbolo mais forte dessa modernização renascentista da cidade eterna, a Basílica de São Pedro, outra encomenda de Júlio II.

A Fontana del Mascherone, logo no começo da rua
Dois momentos da Arcada Farnese: sem adereços, no inverno de 2015, e coberta de trepadeiras, no outono de 2007. O projeto original de Michelangelo previa que esta passarela atravessasse o Tevere até a vila de verão da poderosa família
A nova artéria romana também expressava o estreitamento de uma relação muito renascentista — e persistente —, já que seu trajeto vai exatamente da região onde as antigas casas bancárias mantinham suas sedes até as portas do trono papal. 

Via Giulia rapidamente se tornou um endereço cobiçado pelos muito ricos da época, como atestam os belos palácios que margeiam a via estreita. A mais grandiosa dessas construções, logo no começo da rua, pertenceu à poderosa família Farnese. O edifício, hoje sede da Embaixada da França, tem uma ala voltada para a Via Giulia, embora sua fachada mais lembrada (e fotografada) seja a que adorna a Piazza Farnese, no quarteirão de trás.


O Palácio Farnese
A maioria das famílias com algum poder na Itália trataram de providenciar uma residência na Via Giulia ou nas suas transversais. Além disso, as comunidades estrangeiras trataram de instalar aí suas igrejas, como Santa Maria do Montserrat dos Espanhóis, Santa Catarina de Siena, Espírito Santo dos Napolitanos, São Biagio dos Armenos e São João dos Florentinos.

Num passeio pela Via Giulia, o visitante é recebido de cara pela Fontana del Mascherone, do Século 17. Logo a seguir, a Arcada Farnese faz as vezes de pórtico para os encantos da rua. Essa arcada, uma passarela suspensa, foi projetada por Michelangelo para ligar o Palazzo Farnese à Villa Farnesina, uma residência de verão mantida pela família do outro lado do Tibre, mas a construção ficou pela metade.

Quando caminhar pela Via Giulia, preste atenção aos bequinhos transversais...
... e aos detalhes das fachadas
Perdi a conta de quantas igrejas existem nas transversais da Via Giulia
Os antigos palácios da Via Giulia hoje abrigam embaixadas, repartições públicas, antiquários e algumas pousadas de luxo. Uma das grandes diversões da caminhada é bisbilhotar pátios encantadores através dos portões dos edifícios imponentes para ver os belos pátios em seus interiores. É importante, também, ficar de olho nas ruazinhas transversais, que guardam tesouros arquitetônicos e detalhes encantadores.

A rua tem pouco mais de um quilômetro, mas reserve pelo menos um turno para explorá-la, pois tem muita coisa para ver.
O Palácio Ricci é famoso pelos afrescos que decoravam sua fachada, uma tremenda ostentação de riqueza no Século 16. Hoje, o trabalho está bem desbotado pelo tempo
Embora aberta ao tráfego de automóveis Via Giulia é uma das áreas mais amigáveis a pedestres em Roma (claro, os motorinos - vespas - vêm e vão, mas aqui eles não tentam brincar de boliche com os caminhantes. Talvez a atmosfera do lugar acalme os pilotos mais psicopatas).

Se você percorrer a rua até o final, vai terminar o passeio bem pertinho de Castel Sant'Angelo e do Vaticano, do outro lado do rio. Mas eu sugiro que você arremate a visita a com uma passada na bela Piazza Farnese (acesso pela transversal Via Farnese) e encerre com uma taça de vinho em uma mesa de rua em um bar do Campo dei Fiori.

"Beco do Mal Passo": o que será que andaram aprontando por ali?
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