sábado, 7 de fevereiro de 2015

Herculano
A "irmã" menos famosa de Pompeia

Herculano ficou 1.600 anos coberta por 20 metros de cinza, lama  e lava. Sobre ela, floresceu a nova cidade de Resina, hoje Ercolano. As escavações começaram no
Século 18 e hoje revelam apenas 25% da cidade romana
A diferença já se percebe no trem da Circumvesuviana que vem de Nápoles: quase ninguém desce na Estação de Ercolano Scavi, acesso ao sítio arqueológico de Herculano. As ruínas do próspero centro pesqueiro e comercial, sepultado pela célebre erupção do Vesúvio, no ano 79 d.C., atraem muito menos visitantes que Pompeia, sua colega de infortúnio mais famosa. Uma pena, porque Herculano é tão instigante quanto e, sob muitos aspectos, muito mais agradável de visitar.

Na chegada às ruínas (completamente cercadas pela moderna cidade de Ercolano), a fila da bilheteria é ínfima (aproveite para comprar o bilhete combinado, que também dá acesso a Pompeia, e se livrar da fila para entrar no sítio mais badalado). Em menos de 10 minutos eu já estava percorrendo a longa passarela que circunda a área das escavações, dividindo a visão impressionante da cidade com grupos pequenos e esparsos de visitantes. A cidade antiga está cerca de 20 metros abaixo e contemplá-la do alto dá uma ideia precisa de seu traçado urbano e conjunto de edifícios.

Os arcos na parte de baixo da foto ficavam diante do mar e os arqueólogos acreditam que serviam para guardar embarcações. A erupção afetou o traçado da costa e o mar hoje está quase 500 metros adiante. Na madrugada da erupção, cerca de 340 pessoas se refugiaram nas arcadas. Seus esqueletos foram encontrados por pesquisadores nos anos 80 e 90

Pórtico e afresco nas Termas de Herculano

Apenas 25% da antiga Herculano foram escavados. Completamente soterrada pelos depósitos resultantes da erupção, ela ficou 1.600 anos esquecida e, sobre ela, floresceu a cidade de Resina (rebatizada de Ercolano, nos Anos 60), que ainda está lá, com suas roupas secando nas sacadas e peitoris de janelas, o vai e vem dos automóveis e o movimento do comércio. Não é fácil trazer à tona a cidade romana sem afetar a vida da povoação lá no alto.

Átrio da Casa do Relevo de Telefo, assim chamada...
... em referência a esse belo alto-relevo
Vinte metros abaixo, porém, é como voltar no tempo. O que torna Pompeia e Herculano tão especiais é que esses sítios arqueológicos não resultam de povoações que entraram em declínio e foram sendo paulatinamente abandonadas por seus moradores. Ao contrário. A violência da erupção estancou a vida dessas cidades em pleno movimento cotidiano, conservando uma espécie de instantâneo da realidade. Em Herculano, o sossego conspira para aumentar a sensação de mergulho em um passado que parece vivo

A devastação causada pelo vulcão em Herculano deixou também um paradoxo: foi tão intensa e rápida que contribuiu para a preservação impressionante da cidade. Ao selar a área com a avassaladora avalanche de lama incandescente, o vulcão expulsou a umidade e o oxigênio da cidade soterrada, favorecendo sua preservação. Muitos edifícios, vários deles com dois andares, estão quase inteiros, exibindo o esplendor de seus ricos afrescos nas paredes internas.

O Ninfeu era uma espécie de fonte/santuário construído em casas ou palácios romanos. Este pertence à chamada Casa do Esqueleto, escavada no Século 19 e assim denominada por ter sido o local da descoberta do primeiro esqueleto humano nas ruínas de Herculano
Eu tinha imaginado que a minha passagem por Herculano seria apenas um prólogo para a visita a Pompeia, mas mudei de ideia logo na chegada. Tem muita coisa para ver por lá e é imprescindível carregar um mapa, para ter uma compreensão melhor do que se está vendo. Nem todas as áreas estão abertas à visitação, já que as escavações e estudos estão a pleno vapor  — alguns espaços famosos, como a Casa de Netuno e Anfitrite, por exemplo, estava fechada. Mesmo assim, achei pouco tempo as duas horas que passei em lá. 

Afresco no interior da Casa do Esqueleto

Um altar na grande área sacra que ficava diante do mar
O altar de Nonio Balbo, monumento funerário dedicado a um senador e procônsul responsável pela construção de vários edifícios públicos da cidade
(Procônsul era o funcionário nomeado para governar uma província. Uma espécie de governador biônico da antiga Roma.)
Conta a lenda que Herculano teria sido fundada por Hércules, que disputa com Ulisses o título de urbanista da mitologia, a julgar pela quantidade de cidades que o reivindicam como fundador (uma delas é a esplêndida Cádis, na Andaluzia. Já Ulisses seria responsável pelo nascimento de Nápoles e Lisboa, entre outras). Sabe-se que foi uma cidade grega (Heraklion), antes de ser conquistada pelos samnitas e, posteriormente, pelos romanos, que fizeram dela um próspero porto pesqueiro e centro comercial. 

Embora Pompeia tenha entrado para a história como o elegante balneário frequentado pelos patrícios (a elite romana), tudo indica que Herculano era ainda mais rica e mais exclusiva como retiro de férias. No momento da erupção, tinha cerca de quatro mil moradores e boa parte deles teria fugido da cidade assim que as primeiras cinzas do Vesúvio começaram a cair. Mas o achado de 340 esqueletos nas arcadas que se supõe fossem casas de barcos mostra que uma parte significativa dos moradores pereceu no desastre, esperando a salvação em embarcações que zarparam de várias localidades do Golfo de Nápoles para tentar resgatar as vítimas da erupção.

Uma rua de Herculano

O principal relato sobre o que ocorreu em Herculano e Pompeia é obra de Plínio, o Moço, historiador que assistiu à erupção de uma vila em Miseno (perto da atual Pozuoli), do outro lado do golfo  Se o assunto lhe interessa, há um documentário ótimo da BBC sobre a erupção, chamado Pompeii, the last day, (está disponível no Netflix e é claro que eu assisti de novo, antes de viajar). Foi lá que eu aprendi que o latim sequer tinha uma palavra para descrever vulcão, um fenômeno desconhecido para os romanos da época, e que o Vesúvio tinha ficado quietinho por quase 1.500 anos, antes de explodir, naquele 24 de agosto de 79. 

Um pouquinho de pesquisa prévia é fundamental para enriquecer a visita a Herculano (e a Pompeia também, claro). Pra mim, foi um dos pontos altos nessa última passagem pela Itália e, se você também curte história, aposto que vai vibrar com esse passeio. As ruínas ficam do ladinho (8 km) de Nápoles, uma viagem de apenas 18 minutos no trem da Circumvesuviana. Para ver todas as dicas práticas, consulte este post:
Como chegar a Herculano e Pompeia a partir de Nápoles

E prepare- se para a visita a Pompeia lendo este post:
O que ver em Pompeia

No mais, divirta-se e emocione-se com esse mergulho no tempo. 

A Itália na Fragata Surprise
Campânia: HerculanoNápoles e Pompeia
Costa Amalfitana: AmalfiRavello e Sorrento
Emília-Romanha: Bolonha e Ravena
Sicília: AgrigentoCastelmolaPalermo e Taormina
Toscana: FiésoleFlorençaLucaSan Gimignano e Siena
Vêneto: Burano e Veneza

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