terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Giant's Causeway e Carrick-a-Rede:
um bate e volta à Irlanda do Norte

Giant's Cawseway ("a Calçada do Gigante"): não é à toa que essa "ponte" de sedimentos vulcânicos é a atração mais visitada da Ilha da Irlanda — e, sim, você já viu essa imagem em uma capa do Led Zeppelin
Há 60 milhões de anos, os humores de um vulcão explodiram em um pedaço do planeta que um dia seria a costa Norte da Ilha Irlanda, plantando à beira-mar 40 mil colunas de rocha basáltica hexagonais, tão certinhas que parecem ter sido plantadas pela mão do homem. Foi o resfriamento súbito da lava que levou o material a se fracionar, formando as famosas colunas.

Essa é a história do Giant’s Cawseway (“Calçada do Gigante”), a atração que, com muita razão, é a mais visitada da ilha e fica no território da Irlanda do Norte. Visitei a célebre calçada em um bate e volta a partir de Dublin, um programa que começa bem cedinho (partida às 6 da manhã) e só retorna à cidade depois das 20 horas.


Gant's Causeway: São 40 mil colunas, tão certinhas que parecem assentadas pela mão do homem
O esforçado vulcão que me perdoe, mas um lugar tão bonito como o Giant's Causeway não merecia mesmo ser explicado como reles resultado de uma disjunção prismática, o nome oficial do tal fenômeno geológico. O povo da região prefere acreditar que a calçada é fruto do paciente trabalho de um gigante — cujo humor, registre-se, não devia ser muito melhor que o do tal vulcão cuspidor de lava.
Um castelo, uma muralha, uma ponte... O cenário cru do Giant's Causeway brinca um bocado com a nossa imaginação

Diz a lenda que esse gigante se cansou de apenas gritar insultos e resolveu ir às vias de fato com um oponente (também gigante, claro) que vivia do outro lado do mar, na longa ponta de terra escocesa que avança para a Irlanda — esse cabo escocês é o Mull of Kintyre, acidente geográfico que tem a honra de ter sido "muso" de Paul McCartney, dono de uma fazenda na região (eu adoro essa canção, que tem tudo a ver com o clima do lugar).


Não importa qual das origens furiosas você adote como explicação — a erupção ou a vontade de sair no braço —, o que vale é o resultado. A paisagem crua do Giant's Causeway é de uma beleza perturbadora, um daqueles cenários que parecem um instantâneo do dia da criação, quando ainda não houve tempo para o vento aparar as arestas e a aspereza é sinônimo de frescor.

Mesmerizada pela paisagem, pela bruma meio mágica que está por toda parte na Ilha Esmeralda e com os acordes da canção de Macca roçando os ouvidos, a única coisa que resta a dizer, é Well done indeed, seu Gigante!


A "ponte" que o gigante deixou inconclusa e as colunas de basalto
Como viajei
Fazer um bate e volta de Dublin até essas duas atrações da Irlanda do Norte não é impossível, mas é uma viagem cheia de conexões. Por isso, adorei quando o Viator, um site agregador que vende passeios e excursões no mundo inteiro, me convidou para testar um de seus produtos e apresentou, entre as opções, esse roteiro que eu estava tão a fim de fazer.


Depois de subir e descer por aqui, você vai entender por que as moças estavam engatinhando na capa do Houses of the Holy
Os leitores da Fragata já sabem que não curto a programação rígidas de passeios em grupo, mas no caso, acabou sendo bem mais prático que realizar a viagem por conta própria, de transporte público (alugar carro na Irlanda, nem pensar: não acho que eu conseguiria aproveitar a paisagem dirigindo na mão inglesa).

A parte mais difícil do roteiro é estar com pelo menos dois neurônios alertas às seis da manhã, que é a hora marcada para a partida do grupo. O encontro é em Suffolk Street, no centro de Dublin, em frente à famosa estátua de Molly Malone.

Na chegada vimos logo os responsáveis pelas agências (saem vários tours de lá, nesse horário) circulam pela área, com coletes bem chamativos, apontando os ônibus, vans e micro-ônibus de cada grupo.


Como é o roteiro
Dublin até quase Belfast, onde pegamos uma estrada à beira mar, a deslumbrante Causeway Coastal Route, que foi direto para a minha lista de mais bonitas do mundo, junto com a Rio-Santos e a Costiera Amalfitana.

Os penhascos de Carrick-a-Rede. Você já viu essa paisagem em Game of Thrones
A primeira parada é em Carrick-a-Rede, onde o grupo tem cerca de uma hora para descer a trilha que margeia o penhasco, até a famosa ponte de cordas. É uma caminhada simplesmente hipnótica (não vou nem falar muito, porque as fotos estão aí). Quem curte Game of Thrones (eu, por exemplo!) vai reconhecer o cenário de algumas passagens da série.

Carrick-a-Rede é uma sucessão de penhascos à beira mar, famosa pela velha ponte de cordas construída pelos pescadores de salmão ligando uma ponta pronunciada de terra à ilhota de Carrick.

Atenção ao piso, que tem trechos bem escorregadios. E não saia da trilha demarcada

O caminho até à ponte de cordas
Muito mais que um ponto de passagem, a ponte era usada como plataforma para a pescaria, já que os peixes pareciam ter especial predileção por nadar nas águas convulsas que se espremem entre as duas porções de terra, 20 metros abaixo.

A travessia da ponte é cercada de cuidados, controlada por funcionários do parque, para que apenas sete pessoas de cada vez estejam sobre ela. Não é permitido parar para tirar fotos (neca de selfies nas alturas). Mesmo com o vento aparentemente camarada, a bichinha balança que é uma beleza, mas me senti segura.

Nada de selfies nas alturas: é proibido parar para fotografar durante a travessia
Quando a gente já está zonza com a beleza de Carrick-a-Rede, é hora de levar a segunda chacoalhada de beleza, no Giant's Causeway, que fica a 25 quilômetros da primeira atração. O caminho até lá também é feito pela estrada costeira.

Dicas práticas
O clima da Irlanda consegue exibir duas estações do ano ao mesmo tempo, como durante nossa visita a Carrick-a-Rede
Chuva na Irlanda não é uma questão de se, mas de quando
Mesmo no verão, você vai precisar se agasalhar bem para fazer esse passeio. A Irlanda já não prima pelas altas temperaturas. Na beira do mar, ainda por cima no topo de penhascos, prepare-se para receber o vento gelado do Atlântico Norte direto nas costelas. 

Use calçado confortável, com solado antiderrapante, próprio para terrenos irregulares. Depois de caminhar sobre as colunas do Giant's Causeway você vai entender por que aquelas mocinhas peladas estavam engatinhando na capa do Houses of the Holy (LP do Led Zeppelin de 1973).


Há lanchonetes e restaurantes nas duas atrações, mas leve um farnelzinho básico, para ter a alternativa de fugir das filas. E um suprimento de água também não é má ideia. 

Como integrante do Reino Unido, a moeda da Irlanda do Norte é a libra, mas vi que por odo o caminho o euro, adotado na República da Irlanda, era aceito sem maiores problemas.

Como chegar
As famosas colunas de basalto: obra do vulcão e crédito para o gigante
Se você se garante “dirigindo na contramão” (rsss), à moda britânica, pode ser uma ótima ideia visitar a região de carro, explorando a belíssima Causeway Coastal Route, a partir de Belfast, que está a 130 km do Giant’s Causeway. 

Essa estradinha margeia paisagens simplesmente inacreditáveis. Como ela é muito estreita, nem sempre dá para parar para fotos, mas, a bordo do ônibus, deu para ver que há vários mirantes de onde se pode contemplar penhascos, praias pedregosas, campos pintalgados de ovelhinhas fofinhas e ruínas de velhas cabanas de pedra e castelos. Um sonho! Pesquisando a internet, encontrei este mapa com dicas para explorar a região.

Pra quem tem mais tempo na região, vale fazer o passeio de trem com uma maria fumaça histórica que liga o Giant's Cawseway à pequena vila de Bushmills 
De transporte público
De Belfast, há trens que levam a Coleraine (a 20k do Giant’s Causeway) ou a Portrush (13km), que ficam bem próximas ao Giant’s Causeway. Os horários podem ser conferidos no site da Northern Ireland Railways

Também há diversas empresas de ônibus que fazem o trajeto de Belfast até essas localidades. 

A partir de Coleraine ou Portrush, é preciso seguir de ônibus.


Se você vem de Dublin, vai ter que passar por Belfast. A viagem de trem entre as duas capitais dura cerca de 2h30min.

A localidade mais próxima de Carrick-a-Rede é Ballintoy, a cerca de 2 quilômetros, acessível de ônibus a partir de Belfast. Também há um ônibus que conecta Ballintoy ao Giant's Causeway.

Preços, horários e planejamento
Uma trilha com cerca de um quilômetro liga o alto da falésia à Calçada do Gigante
Giant’s Cawseway
A Calçada do Gigante pode ser visitada todos os dias do ano e a entrada é gratuita. Não há um horário de "abertura" ou de "fechamento" da atração.

Há um centro de visitantes, onde é exibido um audiovisual sobre a formação da calçada (que eu não vi) e onde funcionam um restaurante, uma loja de souvenir e toaletes. Esse centro funciona a partir das 9h e fecha de acordo com a estação do ano: às 16h, no inverno, e às 19h, no verão. Para ver os horários certinhos, consulte o site do National Trust.


Do estacionamento, na entrada do parque, parte uma trilha para o alto de um penhasco, de onde você pode ter uma vista certamente escandalosa da famosa calçada. Quem vem de excursão, tem que escolher entre fazer a subida ou ir direto para a área onde estão as "colunas" de basalto, pois o tempo de parada não permite fazer as duas coisas.

Descer a trilha a pé é tranquilo

Na hora de subir a falésia, melhor recorrer ao ônibus (canto esquerdo)
Nós escolhemos descer para o Giant's Causeway "em pessoa" (vê-lo do alto deve ser fantástico, mas para olhar de longe sempre há os documentários na TV, né?), uma caminhada de cerca de 1 km, que levamos cerca de 40 minutos para percorrer, fazendo muitas paradas para ficar de queixo caído e olhar embasbacado diante da beleza do lugar (e algumas fotos, porque eu faço tudo por esta Fragata).

Na volta, poupamos o fôlego pegando o ônibus que faz o trajeto entre o estacionamento e a parte baixa da Calçada do Gigante. A passagem custa £1.

Carrick-a-Rede

Essa porção de terra que você vê no horizonte é Rathlin Island no horizonte. Mais ao longe, meio envolto na bruma, está o Mull of Kintyre, cantado por Paul McCartney
A ponte de cordas de Carrick-a-Rede também pode ser visitada o ano todo (fecha só no Natal, nos dias 25 e 26/12). Para atravessá-la, os visitantes pagam £5. Os horários da travessia variam de acordo com a estação do ano, das 10h às 19, no verão e das 10:30h às 15:30h no inverno (confira os horários certinhos aqui).

Mas vá com o espírito preparado, pois a travessia pode ser suspensa a qualquer momento, dependendo das condições do tempo, especialmente se estiver ventando muito forte — em se tratando de Irlanda, chuva e mau tempo devem ser colocados no capítulo quando e não no capítulo se :).

Esta sou eu, desafiando o abismo. Vocês não imaginam o tanto que venta nesta ponte...
Mesmo num dia lindo como o da nossa visita, é preciso ter um tremendo sangue frio para atravessar aquela ponte balançante. Se você for do tipo medroso, leve bem em conta de que serão sempre duas travessias: a de ida e a de volta. Não dá pra amarelar e ficar morando lá na ilhota. Mas respire fundo e vá, porque a emoção é fantástica :)


Em Carrick-a-Rede, a caminhada entre o estacionamento e a ponte de cordas é longa, com subidas e descidas e muitas vezes sobre terreno escorregadio, com pedras soltas. Não saia da trilha demarcada. O visual ao longo do caminho é um dos mais deslumbrantes que já encontrei na vida. Vá com calma, portanto, parando muitas vezes para ficar boquiaberta (e aproveitando para recobrar o fôlego).

Minha avaliação sobre o tour
Este bate e volta de Dublin à Irlanda do Norte, em excursão de ônibus, foi uma cortesia da Viator à Fragata Surprise. As opiniões e informações expostas no post expressam as minhas opiniões. 
O Castelo de Dunluce, a cerca de 7 km do Giant's Causeway, é uma das maiores fortificações medievais ainda existentes na Irlanda do Norte. As ruínas estão abertas à visitação
O tour que fizemos custa €65 por pessoa. Sai de Dublin às 6 horas e regressa por volta das 20 horas. Viajamos em um micro-ônibus que achei muito acanhado. Como passamos muito tempo a bordo, a falta de espaço vai se tornando incômoda.

É o motorista que faz a vezes de guia e, ao longo do percurso, vai passando informações sobre o que vamos vendo no caminho e sobre as atrações que vamos visitar. Em geral, gostei da qualidade das informações, bem mais ricas que a mera recitação de dados turísticos, com a preocupação de fornecer aos viajantes um pouco do contexto histórico e político da Irlanda e da cultura local.

O guia não acompanha o grupo em Carrick-a-Rede ou no Giant's Causeway, mas não achei que isso fosse mesmo necessário.

Depois da visita às duas atrações, o tour faz uma parada de cerca de uma hora em Belfast, capital da Irlanda no Norte
A melhor parte de fazer o tour é não ter a preocupação de ficar trocando de transporte, indo de Dublin a Belfast, depois a uma das cidades próximas das atrações e de lá até às atrações propriamente ditas. Também é legal o percurso feito pela Causeway Coastal Route, estrada que entrou para minha lista de mais espetaculares da vida, ao lado da Rio-Santos e da Costiera Amalfitana.

Apesar do aperto no micro-ônibus, no cômputo geral gostei e recomendo a experiência. Embora tenha viajado a convite, creio que teria pago o valor (€65) do tour sem reclamar. Não há refeições incluídas nesse valor.


Mais sobre esta viagem
Liverpool
Dublin

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2 comentários:

  1. Eu sou suspeita pra falar, sou apaixonada por esse país! O melhor jeito de viajar pela Irlanda é de fato alugar um carro, mas muita gente tem medo de dirigir desse lado, por isso os tours acabam se tornando uma melhor opção.
    No dia em que fui pros Giant's tava meio nublado e havia chovido, então tava perigoso andar por ali! Pelas fotos os "degraus" pareciam bem maiores, mas mesmo assim, é inesquecível ver esse lugar com os próprios olhos!

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    Respostas
    1. Faz anos que não uso automóvel, porque as cidades estão ficando impossíveis, mas ainda adoro dirigir na estrada. Uma hora dessas eu vou experimentar a mão inglesa, com tempo :)
      Dei a maior sorte no Giant's e no dia seguinte, nos Cliffs of Moher: sol lindo, céu límpido... Parece que São Pedro é mesmo meu brother :)

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