domingo, 25 de janeiro de 2015

10 razões para amar Nápoles

Piazza Plebiscito, no Centro Histórico. 
No alto, o Castel Sant'Elmo,  no bairro do Vomero, tremendo mirante para a cidade
Fiz uma pausa na redação deste post sobre algumas atrações de Nápoles e fui fuçar a internet. Por coincidência, em um grupo que frequento no Facebook, li vários comentários bem ruins sobre a cidade, que seria "feia", "suja" e "perigosa". Pra mim, soou pior do que chamarem a minha mãe de careca e o meu pai de cabeludo, como se dizia antigamente. Sou passional em relação a Nápoles: amo, deliro e recomendo com a mais firme das convicções. E aviso sempre: vitupérios à cidade serão levados para o lado pessoal :)

Quando voltei da minha primeira visita à cidade, em 2007, escrevi um post afirmando que não conhecer Nápoles é desperdiçar a vida. Pois esse reencontro, no finalzinho do ano, só reforçou minha certeza. Nápoles é arrebatadora. Tem paisagens estonteantes, um acervo arquitetônico impressionante, uma história que forneceria enredo para abarrotar as prateleiras de maior biblioteca do planeta, sabores inesquecíveis e, ah, aquela sonoridade hipnótica da língua napolitana...

Meu melhor desagravo a Nápoles é contar as razões de tanta paixão. Para o post não ficar enorme, separei só 10 motivos para você ir correndo para lá. Veja só que coisas bacanas você vai experimentar:
A cidade vista do Vomero, com o Vesúvio ao fundo
(A foto é de 2007. Nesta última visita, claro que voltei lá, só que à noite.
Também é lindo, mas eu precisaria de um tripé para as fotos ficarem legais)
Encontrar uma cidade bela, viva e pulsante

Nápoles tem beleza de sobra. O que ela não tem é vocação para cidade cenográfica. Não é certinha, arrumadinha, pintadinha nas cores do arco-íris, nem enfeitadinha para as câmeras que passam no segundo andar dos ônibus de excursão. Os vicos (becos) estreitíssimos do Centro Storico, as ladeiras e escadarias dos Quartieri Spagnoli, as piazettas misteriosas, perdidas entre fachadas seculares (e que a gente nunca mais encontra, quando tenta voltar) estão lá de cara lavada. Por toda parte a gente vê as marcas do tempo, da fuligem dos escapamentos e do uso cotidiano. Não estão no formol, fazem parte da vida da cidade.

Fachadas do Centro Storico
Se você conseguir enxergar além da pintura descascada, da eventual pilha de lixo deixada pela última greve do serviço de limpeza e do trânsito infernal, vai ganhar uma paixão de cidade para toda a vida. Comece deixando para alugar carro, se for o caso, na hora de ir emboraQuanto à segurança, só posso dizer que sempre fui a Nápoles sozinha, andei a pé por toda parte (inclusive tarde da noite) e jamais me senti ameaçada ou desconfortável.

Deixar a alma voar diante da Baía e do Vesúvio
Da ladeira que desce do Posillipo a gente descortina a cidade inteira. No alto, à esquerda, o bairro do Vomero. Na parte baixa, 
a Riviera de Chiaia. Ao centro, a região de Partenope, 
com o Castel dell'Ovo no canto direito
Acho que nunca vou esquecer a emoção de ver o Vesúvio pela primeira vez, na descida da longa ladeira que leva ao Monte Posillipo. A imponência do vulcão e o azul profundo da Baía de Nápoles compõem uma cena extasiante e só mesmo a cidade que a lenda garante ter sido fundada por Ulisses, o herói da Odisseia, poderia entrar nesse quadro sem destoar.

Castel Sant'Elmo
Nápoles, vista do alto, faz a alma da gente flutuar.  Outro ponto de observação espetacular é o bairro do Vomero, especialmente no mirante que fica em frente às muralhas do Castel Sant'Elmo. 

Como chegar
Além de oferecerem vistas magníficas para a cidade, o Posillipo e o Vomero, áreas residenciais elegantes, e rendem passeios bacanas.

Há um ônibus (o 140), que vai da Via Santa Lucia até o Posillipo e que eu usei bastante, na minha primeira estada na cidade.

Para chegar ao Vomero, o jeito mais fácil é usar o funicular, meio de transporte bem popular e útil em Nápoles, a partir do Centro Storico. Giulia, dona do hostel onde me hospedei, me falou do ônibus C31, que liga o Vomero ao Posillipo, mas eu não experimentei o serviço. (Funicular parece um bondinho puxado a cabo, para o transporte em encostas, que é chamado de plano inclinado no Brasil.)

Castel Sant'Elmo - Via Tito Angelini nº 22. É bem fácil de chegar, basta seguir as placas indicativas que marcam o caminho, a partir das duas estações de funicular do Vomero. Abre diariamente, das 8:30h às 19:30h e a entrada custa  €5. No local funciona o Museo del Novecento, dedicado à arte napolitana no Século 20.


Comer divinamente
Vitrine hipnótica da confeitaria Anna Bellavista,  
na Galeria Umberto I


Babà, esse gostoso
Ragù, babà, pizza... Essas palavrinhas de dua sílabas representam a essência da cozinha napolitana: o celestial não precisa ser rebuscado. E é assim que a gente, sem perceber, acaba enredada em uma teia de sabores magníficos, com consequências catastróficas para a cintura, mas uma sublime experiência para a alma.

Ter uma cidade aos pés de um vulcão não serve só para acrescentar pitadas de drama ao dia a dia. A terra fértil dos arredores do Vesúvio provê a mesas napolitana de frutas e hortaliças suculentas.

Mal deixei a bagagem no hostel, já saí voando para comer babà, doce que pra mim é a cara da cidade.

Não vou cometer a heresia de dizer que é um bolinho, mas a massa é similar. Só que ele vem completamente embebido em calda de açúcar, especiarias e rum, com resultados absolutamente sedutores.

No capítulo doce, outra tentação irresistível é a sfogliatella, delicado capricho de mil folhas finíssimas, recheadas de creme à base de amêndoas.

Espaguete ao vôngole
A melhor parte salgada da festa, pra mim, é o ragù, molho para massa espesso, feito de carne e tomate, com uma cara muito caseira (as receitas variam de acordo com algumas sobrinhas disponíveis, como cenouras, embutidos e legumes). Sabe quando um molho à bolonhesa (que, na verdade, não existe) está divino? Pois então não é bolonhesa, é ragù.

Outras delícias napolitanas são o espaguete ao vôngole e as berinjelas, geralmente servidas empanadas, com molho de tomate e queijo.

Tomar um chocolate no Caffè Gambrinus
Caffè Gambrinus, a cara da outra Nápoles
Por falar em comer, nenhuma visita a Nápoles é completa sem uma passada no Caffè Gambrinus, um patrimônio da cidade. Ele destoa completamente do clichê napolitano da roupa secando na sacada. Fica no coração da Nápoles elegante, a dois passos do Palácio Real e do Teatro San Carlo, onde o corso de carruagens que descia a Via de Toledo costumava desaguar. O café está lá desde 1860 e se orgulha de ter sido fornecedor da família real e ponto de encontro de artistas, escritores e intelectuais.
Detalhes do salão de chá do Gambrinus
A casa tem uma exuberante decoração Belle Époque, salões requintados, porcelana delicada e faz questão de manter um certo narizinho empinado de quem testemunhou o vai e vem da elite napolitana no Século 19, às vezes acompanhada por reis e pela nobreza. Apesar da pose, o Gambrinus foi um notório local de reuniões de antifascistas, nos Anos 30, e quase foi fechado pela polícia de Mussolini.

Sentar em uma de suas mesas para provar o chocolate espesso e cheiroso servido lá é o jeito perfeito de terminar uma tarde na cidade. O serviço é que está um pouquinho desatento, mas a gente perdoa, pelo charme do lugar.

O serviço no balcão é concorridíssimo e mais barato, 
mas eu gosto de tomar meu chocolate sentadinha e bem relaxada
Caffè Gambrinus - Piazza Trieste e Trento (no final da Via Toledo, em frente ao Teatro San Carlo). Diariamente, das 7h à 1h da madrugada. Como é costume na Itália, os produtos têm preços diferentes, se servidos no balcão ou à mesa. Não tenha dúvidas: sente, relaxe e curta o belo ambiente. Na mesa, a xícara de chocolate custa €5 e o babà custa €4. Você vai ver que é uma graninha muito da bem gasta :)

Jantar no berço da pizza margherita
O legendário forno do Brandi em ação 
Outra instituição napolitana que você não pode deixar de conhecer é a Pizzeria Brandi, cujo forno a lenha está em ação desde 1780. A casa é famosa por ter criado, no final do Século 19, a pizza margherita, assim batizada em homenagem a Margarida de Saboia, mulher do Rei Umberto I.

Conta a lenda que o casal dono da pizzaria foi convocado ao palácio de Capodimonte para preparar algumas redondas para o casal real e resolveu inovar. Seja lá como for, mereciam o Nobel da Culinária por criarem algo tão delicioso com ingredientes tão simples. Dizem que a rainha adorou.

Eu sei, com certeza, que é a minha pizza favorita. Embora eu prefira a massa mais fininha, gostei demais da pizza do Brandi.

Minha entrada de mariscos fritos e a Dona Margherita
Pizzeria Brandi - Salita Santa Anna di Palazzo nº 1 (travessa da Via Chiaia, que começa na Piazza Trieste e Trento). Diariamente, das 12:30h às 15:30h e das 19:30h às 23:30h. Até deu para ir sem reserva, mas tive que ter paciência, pois esperei 40 minutos por uma mesa.

O melhor é passar por lá logo cedo, reservar uma mesa e ir passear nas redondezas (o Plácio Real, o Teatro San Carlo, a Piazza Plebiscito e o Basílica de San Francesco di Paola ficam bem pertinho). Ou então ligue e marque a hora. O número é (39) 081 416928. A pizza margherita (individual) custa €7

Visitar o último trabalho de Caravaggio...
O Martírio de Santa Úrsula, de Caravaggio, 
a obra que me deixou boba
Sou tão caravaggiomaníaca que já me despenquei de Paris para Amsterdã só para ver uma exposição desse gênio do barroco (era uma mostra comparada dos trabalhos de Caravaggio com os de Rembrandt, uma festa para os olhos). O quadro O martírio de Santa Úrsula, de 1610, é apontado como a última obra do pintor e está exposto no Palazzo Zevallos-Stigliano, que integra uma rede de galerias de arte.

A tela, magnífica, fica em uma sala exclusiva, com um estratégico banquinho para a gente sentar bem quietinha e admirá-la em silêncio, na penumbra... Uma experiência inesquecível.

Caravaggio viveu um período em Nápoles e deixou obras importantes na cidade.

Uma dica preciosa de Magê, que escreve o ótimo blog Milão nas Mãos é ir ver as Sete obras da caridade, outra tela famosíssima do pintor, exposta no Pio Monte della Misericordia (Via dei Tribunali nº 253, a dois passos do Duomo). Já está anotado para a minha próxima visita a Nápoles.

Se você curte Caravaggio, também vai amar ver as telas O Chamado de São Mateus, São Mateus e o Anjo e O Martírio de São Mateus, na igreja de San Luigi dei Francesi, em Roma

... e descobrir outros artistas maravilhosos 
Os ambientes ricamente decorados do Palazzo Zevallos...
Só o palácio Zevallos-Stigliano, construído no Século 17, já valeria a visita. Ele é um dos impressionantes edifícios erguidos pela nobreza espanhola na rua que expressava seu poderio sobre a cidade. Foi a poderosa família Colonna quem deu ao palácio as feições que tem hoje, com interiores ricamente decorados. Mecenas aplicados, os Colonna promoviam saraus legendários em casa, chegando a empregar compositores como Scarlatti e Pergolese.

 ... abrigam obras do Século 16 ao início do Século 20. No centro, a sala dedicada ao napolitano Gemito
Hoje a galeria expõe artistas importantes, como Luca Giordano. Mais fascinante é descobrir uma infinidade de representantes das escolas napolitanas, muitos deles discípulos ou influenciados por Caravaggio. Logo no térreo, babei com a mostra dedicada ao pintor Tanzio da Varallo, contemporâneo do gênio. Entre os artistas mais recentes, não perca a sala dedicada às esculturas e desenhos do napolitano Vincenzo Gemito, da virada dos séculos 19/20.

Decoração interna do Palazzo Zevallos-Stigliano
Galleria Palazzo Zevallos-Stigliano - Via Toledo 185 (Metrô Toledo). De terça a sexta, das 10h às 18h. Sábados e domingos, das 10h às 20h. Ingresso €5.

Confira o índice com todos os posts sobre 
museus e sítios arqueológicos publicados aqui na Fragata

Visitar o Duomo e a Capela de San Gennaro
A catedral,  centro da vida espiritual napolitana,
 guarda as relíquias de San Gennaro, 
O Duomo (catedral) de Nápoles é um imponente edifício do Século 14, uma das marcas deixadas pelo domínio francês na cidade. Guarda as relíquias do padroeiro da cidade, San Gennaro. Na Capela Real repousam a cabeça do santo e um pouco do seu sangue coagulado. Conta a lenda que esse sangue se liquefaz três vezes por ano, prenunciando bom tempo para a cidade. Quando isso não acontece, a crença é que Nápoles será assolada por catástrofes.

Uma visita à Catedral é um pequeno mergulho na alma napolitana. É comovente ver a devoção do povo da cidade ao seu padroeiro. A primeira vez que fui lá, era domingo e a igreja estava muito cheia. Era impressionante ver as preces dilaceradas dedicadas ao santo. Uma tremenda experiência antropológica para uma baiana, acostumada com a relação lúdica, de proximidade e camaradagem do povo da minha terra ao Senhor do Bonfim...

Duomo di Napoli - Via Duomo nº 149 (Metrô Cavour). De segunda a sábado, das 8:30h às 13:30h e das 14:30h às 19:30h. Aos domingos e feriados, das 8h às 13h e das 16:30h às 19:30h. Entrada gratuita.

Ver o Cristo Velato, na Capela de Sansevero


O Cristo de Giuseppe Sanmartino


Bastaria a contemplação da escultura do Cristo Velato, realizada por Giuseppe Sanmartino no Século 18, pra justificar a viagem a Nápoles. É uma obra soberba, a imagem do Cristo morto, coberto por um véu diáfano (esculpido no mesmo bloco de mármore!!), com a dor do suplício ainda impressa no rosto.
Piazza San Domenico Maggiore
A perfeição é tanta que deu origem a uma lenda, segundo a qual um príncipe alquimista teria ensinado ao escultor a arte de “petrificar tecidos” para a execução magistral do véu que cobre a imagem.

A Capela de Sansevero, do Século 16, é pequeninha e foi construída para abrigar os túmulos de uma família nobre, os príncipes de Sangro di Sansevero. Um deles é o alquimista da lenda, autor, ainda, da bizarra mumificação de dois corpos, expostos no subsolo da capela, que exibem todo o sistema circulatório do corpo humano. O príncipe acabou excomungado por suas experiências.

Tem mais informações sobre a Capela de Sansevero aqui na Fragata. Siga o link.

Museo Cappela Sansevero - Via Francesco De Sanctis nº 19 (Metrô Dante). A ruazinha é meio escondida, mas tome como referência a Igreja de San Domenico Maggiore, na praça com o mesmo nome (procure a coluna da foto ao lado, com a imagem do santo no topo), que é onde ela começa.

A Capela pode ser visitada diariamente. De segunda a sábado, das 9:30h às 18:30h. Aos domingos e feriados, fecha às 14 horas. A entrada custa €7 (€5, para quem tem de 10 a 25 anos. Menores de 10 anos não pagam).

Passear na Galleria Umberto I
A bela galeria impressiona pela rica decoração. 
É a irmã caçula da famosa Vittorio Emanuele de Milão
Outra testemunha da Nápoles elegante que floresceu sob o reinado da Casa de Saboia na Itália, a Galleria Umberto I é uma das irmãs caçulas das grandes passagens cobertas erguidas nas cidades europeias no Século 19, precursoras dos shopping centers de hoje. Inaugurada em 1891, ela é a cara da Belle Époque, com seu teto envidraçado sustentado por intrincada estrutura de ferro, e a rebuscada decoração das paredes. O que me encanta mais, porém, é seu piso, luxuosamente recoberto de mosaicos em mármore.

Uma rosa dos ventos no piso da Galeria Umberto I
Ela tem quatro entradas (uma delas na Via Toledo) e é um ótimo lugar para escapar do frio (ou do calor, no verão), fazendo uma pausa para um café ou olhando as vitrines. Atualmente, está passando por obras de restauro, mas os tapumes e andaimes não estragam o prazer da visita.

Galleria Umberto I - Acesso pela Via Toledo (na altura do nº 256), Via Santa Brigida (altura do nº 57), Via giuseppe Verdi e pela Via San Carlo, na altura do Teatro.

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2 comentários:

  1. Genial, Cyntia!
    Seus posts são maravilhoso, com fotos, informações e dicas preciosas!!
    Vc acredita que não conhecia o Cristo de Giuseppe Sanmartino?
    Visito sempre que posso!!
    Beijão,
    Acco

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    Respostas
    1. Valeu, Acco!!
      Esse Cristo Velato é daquelas obras que valem a viagem. Mas o melhor é que ele fica em Nápoles, meu xodó :)

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