domingo, 2 de novembro de 2014

Surpresa:
Tem muita coisa bacana pra ver em Bruxelas!

A cidade vista de uma das esferas do Atomium
Falta de imaginação estraga qualquer dimensão da vida. Tratando de viagens, então, é um perigo a ser evitado a todo custo. Pegue o exemplo da capital belga: como é que pode uma cidade tão bonita, interessante e alto astral entrar para o almanaque do senso comum apenas como a terra de um menino de dois palmos de altura fazendo xixi?

Basta digitar "Bruxelas" no Google para a tela de seu computador ser inundada por imagens da estátua do Manneken Pis (“Manequinho mijão”), figura central de uma fonte do início do Século 17 — na verdade, uma cópia, pois a original foi roubada e destruída, no Século 19.

Convenhamos, o clichê é muito pouco para estimular alguém a fazer uma parada na cidade, no trajeto de trem entre Paris e Amsterdã, né? Várias vezes atravessei a Bélgica me contentando em olhar a paisagem pela janelinha, deixando que o relevo quase que “passado a ferro” reforçasse a impressão de monotonia que eu intuía no país.

Até que um dia eu parei pra ouvir direito uma canção. Era o belga Jacques Brel (que você certamente conhece pela famosíssima Ne me quittes pas) cantando seu Plat Pays (literalmente: "país plano", uma alusão ao relevo dos Países Baixos) de um jeito tão carinhoso que tive que me render à curiosidade. Sem saber, eu estava ganhando um senhor presente!
Duas obras de Victor Horta: o Memorial a Charles Buls,
prefeito de Bruxelas que salvou a Grand Place de uma "renovação" e o piso em mosaico do Armazém Waucquez,
hoje Museu da História em Quadrinhos
O primeiro motivo para eu cair de amores por Bruxelas está bem na cara da cidade, a rara e feliz harmonia que resulta dos contrastes estéticos de várias escolas de arquitetura. Em geral, a gente tende a gostar de conjuntos uniformes (o georgiano de Bath, o barroco de Ouro Preto, o gótico de Lübeck, o modernismo de Brasília...), mas a capital belga é uma aula, não só sobre preciosos períodos arquitetônicos, mas, principalmente, sobre o encanto que resulta do encontro desses estilos.

A Casa do Rei, na Grand Place, jamais foi moradia de soberanos e abriga o Museu da Cidade. O edifício atual é do Século 19, assentado no local onde o Duque de Brabante mantinha um palácio, no Século 16 
Experimente percorrer as ruas estreitas que tecem o caminho até a Grand Place: esses corredores de fachadas góticas quase rústicas, em pedra ou tijolo nu, são o prólogo exato para a entrada na “praça mais bonita da Europa”, que reluz em esplendor barroco — impossível não imaginar trombetas...

A Grand Place: linda debaixo de chuva...
...ou com céu azul. E pensar que ela foi quase  "varrida" pela Belle Époque
E pensar que a Grand Place escapou por pouco da fúria modernizante que o dinheiro e o progresso industrial fizeram brotar, na segunda metade do Século 19. Na esteira de reformas urbanas como as de Paris e Viena, a Bélgica só não botou abaixo seu maior patrimônio de pedra e cal por conta da oposição obstinada do prefeito Charles Buls, ex-artesão (ourives) que governou a cidade por 18 anos e sustentou uma longa queda de braço com ninguém menos que o Rei Leopoldo II para impedir o sacrilégio.

O esforço de Buls foi reconhecido até por Victor Horta, o genial arquiteto da Belle Époquecandidato natural a projetar os novos edifícios no lugar dos que seriam demolidos. Horta ficou sem esses contratos e a obra que ele assina na Grand Place é exatamente uma homenagem ao prefeito que salvou o patrimônio barroco. O memorial, em puro estilo Art Nouveau, está em uma das esquinas da Grand Place.

A fachada das Galerias Reais de Saint-Hubert e seu belo interior 

Pelo menos na arquitetura, Bruxelas parece ter aprendido mais com Horta do que com seu rei colonialista (Leopoldo é mais conhecido pela dominação e espoliação do Congo) e o visitante rapidamente aprende a transitar pelo entrelaçamento de épocas que caracteriza a cidade, atravessando a encantadora Galeria Saint-Hubert (uma espécie de shopping center do Século 19) para encontrar o sotaque francamente medieval da Rue du Marché aux Herbes (Grasmarkt), um corredor estreito onde hoje os restaurantes para turistas disputam espaço com os tabuleiros de frutas e hortaliças de antanho.

Grafite, cerveja e bate papo: a vibe de Bruxelas é assim
A convivência harmônica de estilos do passado abraça de um jeito muito tranquilo expressões mais contemporâneas, como os quadrinhos e o grafite, que estão muito bem representados na paisagem urbana, em mais de 50 murais.

Os "tempos arquitetônicos" de Bruxelas passeiam lado a lado, para encanto dos visitantes




O contraste sem atritos vai muito além das feições da cidade. Quem circula pelo centro histórico de Bruxelas e outras áreas turísticas no verão é capaz de pensar que caiu em uma imensa Oktoberfest, só que muito mais cool e sem aquelas bandinhas de música aflitivas: a quantidade de gente do mundo inteiro bebendo cerveja desde o início da manhã é de deixar qualquer um de ressaca, só de olhar.


Fachadas góticas e a Catedral de São Miguel e Santa Gudula, padroeiros de Bruxelas, cujo jardim exibe obras de arte moderna
Mais Victor Horta: o Museus dos Instrumentos Musicais, no Kunstberg) e a Estação Central foram projetados pelo papa da art-nouveau
Essa Babel etílica quase faz a gente esquecer que a poucos quilômetros da farra pulsa um dos principais centros financeiros do continente. E também fervilha outra Babel muito menos lúdica: além de sediar uma série de organismos da União Europeia (o que leva muita gente a chamar Bruxelas de "capital da Europa), a cidade também abriga importantes órgãos internacionais.

 Se você quer encontrar gente de todos os cantos do planeta, não pode perder uma happy hour nos arredores do Parque Cinquentenário (pertinho dos imensos edifícios de aço e vidro que abrigam essas instituições).

Solo de trompete nas alturas? Equilibrismo? 
Não precisa ser tão radical para curtir o Atomium

Também não dá pra perder uma vista ao Atomium. Confesso que fui ver esse símbolo máximo de Bruxelas (sorry, Manneken Piss) com uma tremenda desconfiança, pois não sou muito fã dessas coisas que já são construídas para virar atração turística.

Mas, tirando a fila, o programa é bem legal. Construído no ousado formato de um cristal de ferro, para a Exposição Universal de 1958, o Atomium abriga uma exposição sobre o evento e o contexto histórico em que foi realizado (quando a Europa Ocidental deixava para trás as memórias da Segunda Guerra, exaltava o "progresso" proporcionado pelo capitalismo em meio à Guerra Fria e começava a mergulhar nas profundas transformações que fariam ferver os Anos 60).

Atomium: uma estética bem "Jetsons", como eu adoro
O Atomium é a cara de um tempo em que o futuro era "o último grito da moda", para usar uma expressão da época — de uma certa maneira, não deixa de ter um entusiasmo similar à Belle Époque —, com um astral que lembra os Jetsons, um dos meus desenhos animados preferidos. Adoro aquela estética futurista dos Anos 50, ingênua e otimista. Além da visita muito divertida, a vista lá de cima é bárbara. Recomendo.

A fonte e o Carrilhão do Mont des Arts (Kunstberg)
Já falei de três museus maravilhosos que visitei em Bruxelas, mas ainda não tinha comentado sobre o famoso Mont des Arts (Kuntsberg), uma colina que reúne museus importantes (como o de Belas Artes e o Museu Matisse), a Cinemateca e a Biblioteca Nacional.

O lugar tem uma história bem controversa, já que para a sua construção um bairro inteiro precisou ser desalojado e demolido, em mais um dos projetos modernizantes do Rei Leopoldo II. Os planos para a área levaram mais de meio século para se completarem, entre o despejo e a inauguração dos principais edifícios, no finalzinho dos Anos 50.

Hoje, além dos museus, do Palácio Real e de uma arquitetura que lembra a estética monumental fascista (ou, ainda, o realismo socialista soviético), o Mont des Arts tem uma bela vista para o Centro antigo de Bruxelas, especialmente da escadaria ajardinada que o liga à “cidade baixa”.

Só pra ser chata, uma breve galeria de esculturas encontradas nas ruas de Bruxelas que são mais interessantes que o Manequinho Mijão :)

Mas, pra não ser acusada de implicante, taí a foto do Manneken Pis - repare a muvuca pra ver o garoto
Informações práticas

Atomium 
O melhor jeito de chegar é de Metrô (Estação Heysel/Heizel, linha 6) e caminhar cerca de 10 minutos até lá. A atração pode ser visitada diariamente, as 10h às 18h. A entrada custa €11.


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Bruges: um bate e volta

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3 comentários:

  1. Oi, Cynthia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Boia – Natalie

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  2. O Manneken Pis não foi destruido, está num mmuseu na Grand Place...

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    Respostas
    1. Depois de restaurado, né? Porque teve um maluco que roubou e detonou o Manequinho :)

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