domingo, 20 de julho de 2014

Muito além da Mesquita:
6 motivos para amar Córdoba


Este cenário derrete até coração de pedra
Depois de ver Sevilha, Cádiz, Ronda e Granada, o que uma cidade pode mostrar para seduzir um olhar mimado por tantas maravilhas? Enquanto meu trem vencia os 150 km que separam Granada de Córdoba, pouco mais de duas semanas após o inicio da minha jornada andaluza, eu já ia me preparando para perdoar a cidade, caso ela falhasse na tarefa de me encantar. Mas essas velhas cidades não se cansam de mostrar o quanto eu sou boba: a primeira visão de Córdoba é de derreter até coração de pedra.

Ela me conquistou de cara! Desafio qualquer um a resistir aos encantos de Córdoba ao caminhar pela beira do Guadalquivir, numa tarde ensolarada de inverno, vendo o sol cair sobre a Ponte Romana (Século 2 a.C.) e sobre as velhas construções mouras e mudéjares. Esse amor à primeira vista só cresceu, nos quatros dias que fiquei por lá.

A Mesquita vista da Ponte Romana, 
em uma tarde de inverno quase tropical
Há cidades que cativam por sua história ou por seus grandes monumentos. Por um traço peculiar que a torna única, ou por um conjunto arquitetônico que expressa toda uma era. Ou, simplesmente, por um tremendo alto astral. Córdoba tem tudo isso.

Na História, ela ostenta cinco séculos como centro do domínio mouro na Península Ibérica, sede do Califado de Córdoba, coração político e administrativo de um poderio que se estendia além de Gibraltar, para o Norte da África.

As muralhas do Alcázar de los Reyes Cristianos
No quesito monumentos, é dona de uma das construções árabes mais espetaculares do Ocidente, a famosa Mesquita, hoje convertida em Catedral. Se buscarmos uma marca singular, vamos nos perder de encanto pelos pátios cordobeses — celebrados, inclusive, em um festival anual, que elege os mais bonitos. E o que dizer das estreitas ruas tortuosas da Judería, prontas a nos sussurrar histórias épicas ou prosaicas?
Torres, muralhas e laranjeiras: 
um passeio pelo Alcázar de los Reyes Cristianos
Neste post eu listei seis motivos para você ir a Córdoba. Poderiam ser muito mais. Mas acho que você vai adorar descobrir os encantos cordobeses pessoalmente. Ah, e a Mesquita não está nesta lista, porque ganhou um post só para ela.

Seis razões para se apaixonar por Córdoba


Fonte no Jardim Alto do Alcázar 
1. Os Mosaicos romanos, as muralhas e os jardins do Alcázar de los Reyes Cristianos
Os Reis Católicos (Isabel de Castela e Fernando de Aragão) viveram cerca de oito anos nesse palácio mudéjar fortificado e cercado de lindos jardins, transformando-o em um de seus quartéis generais durante a Reconquista Cristã da Andaluzia, no final do Século 15.

Erguido às margens do Guadalquivir, o Alcázar ocupa o mesmo espaço de uma antiga instalação militar visigoda, que os mouros transformaram em residência dos Califas de Córdoba. Suas feições atuais, porém, foram delineadas nos séculos 13 e 14, já sob domínio cristão.

Mosaicos romanos na capela do Alcázar
Além do interessante passeio por suas muralhas, torres, pátios e jardins, o Alcázar oferece uma senhora surpresa aos visitantes, que é a bela coleção de mosaicos romanos expostos na antiga capela. Todas as noites, um espetáculo de som e luz nos jardins do palácio conta a história do lugar.

Polifemo e Galatea, personagens de um dos
 mosaicos romanos expostos no Alcázar
2.  O requinte dos pátios do Palácio de Viana...


O pátio de entrada do Palácio de Viana
Tem coisa mais andaluza que um pátio? Essa tradição está presente em todo o Mediterrâneo, herdada dos árabes e dos romanos, espaço de sossego e convivência, abrigado do burburinho e do calor das ruas. Em Córdoba, o pátio foi alçado à condição de obra de arte, com suas fontes, samambaias, laranjeiras e muita luz.

O Palácio de Viana reúne 12 dessas preciosidades, um painel que cobre cinco séculos desse requinte andaluz. Os chamados Patios de Viana variam entre o luxo (o Patio Del Recibo), a exuberância de um frondoso jardim (Patio de los Naranjos) ou a singeleza e o climinha doméstico do Patio del Archivo.

 Palácio de Viana: mosaico de cinco séculos da arte cordobesa de construir pátios encantadores 
O Patio de Recibo (Século 16) e o Patio del Archivo (Século 18), 
no Palácio de Viana
Antiga morada dos Marqueses de Viana, o palácio tem origem no Século 14. Ao longo de 500 anos, foi ganhando acréscimos e incorporando edifícios vizinhos. A visita guiada percorre algumas das suas dezenas de aposentos com rico mobiliário e muitas obras de arte, traçando um panorama do modo de viver das famílias da alta aristocracia andaluza.

Depois do roteiro guiado ao interior do palácio, os visitantes podem circular à vontade pelos 12 pátios do palácio, mergulhando na beleza e no silêncio desses espaços.



3.  ... e o encanto dos pátios das residências 
Em Córdoba, a bisbilhotice não é falta de educação, 
é parte do prazer de descobrir a cidade
Em Córdoba, porém, a arte dos pátios não é privilégio dos palácios. A maioria das casas dos bairros históricos ainda mantém os seus espaços de descanso e convivência. Bem cuidados, verdejantes e lindos, cada um com sua cara. Talvez o melhor jeito de descobrir a cidade seja a bisbilhotice: andar na rua sempre espichando o olho para dentro das casas que, muito sedutoras, sempre deixam a porta da rua aberta.

Pátios de residências na região da Catedral 
Mas essa contemplação não precisa ser sempre assim, furtiva. Todos os anos, na primeira quinzena de maio, os pátios residenciais são abertos à visitação. É o jeito de Córdoba homenagear sua arte e manter viva a tradição dos moradores que, desde sempre, celebraram a chegada da primavera visitando os vizinhos, para ver a exuberância de seus jardins de suas plantas.


O Festival de los Patios Cordobeses é uma oportunidade para os turistas irem além das miradas roubadas, tendo contato com espaços vivos, usados no cotidiano, nas casas de gente comum. As visitas são liberadas em horários predeterminados (precisam ser agendadas), às sextas, sábados e domingos, e são gratuitas. Ao final do festival, um concurso elege os pátios mais bonitos. Para maiores informações, acesse o site do evento.

4.  A beleza do Barroco Cordobes no Museo de Bellas Artes
Virgen de los Plateros (à esquerda), de Valdés Leal, uma das obras mais celebradas do Museu de Belas Artes de Córdoba
Quase não entrei no Museu de Belas Artes, pois eu já tinha fartado o olhar com as maravilhas de seu "irmão", o Museu de Bellas Artes de Sevilha, que é muito mais famoso e espetacular. Mas fui seduzida pela bela Plaza del Pozo e (adivinhe...) pelo pátio do antigo Hospital de la Caridad, que abriga essa pinacoteca, centrada no Barroco Cordobes, e o Museu Julio Romero, com acervo composto por obras mais recentes. 

O pátio do antigo Hospital de la Caridad, que abriga
 os museus de Belas Artes e Julio Romero
O Museu de Belas Artes de Córdoba foi fundado em 1862 e sua história não difere muito da de outras pinacotecas andaluzas, que reuniram significativo acervo a partir do fechamento de conventos e mosteiros da região.

Uma das obras mais impressionantes da coleção é o Cristo atado à coluna, de Alejo Fernández (também autor da famosa Virgen de los Mareantes que adorna os salões da Casa de Contratación, no Alcázar de Sevilha). Outra tela maravilhosa é a Virgen de los Plateros, do Século 17, pintada por Valdés Leal para um altar de rua encomendado pela Corporação dos Ourives.


5.  Esquecer do mundo nas águas de um Hammam
O Hammam: para esquecer da vida
Pense bem: final de viagem, quase 20 dias de muita bateção de pernas, inverno... Imagine, então, como caiu bem o meu momento relax no Hammam Al Andalus, um banho árabe que faz de tudo para preservar a tradição.

O lugar é muito bonito, reproduzindo em arcos e colunas as marcas da arquitetura mourisca. A iluminação mínima, com muitas velas, a música baixinha, os aromas de rosa, lavanda, âmbar e azahar (flor de laranjeira) que escapam dos vidrinhos de óleo de massagem e a absoluta ausência de conversas já seriam suficientes. Depois de duas horas alternando as piscinas (quente, tépida e fria) e recebendo uma massagem bem relaxante, eu fiquei novinha.

6. A poesia do traçado urbano e das fachadas caiadas da Judería

Tem lugares que são tão bonitos que nem precisariam ter história para contar. A Judería tem tudo que eu mais  adoro: ruas estreitas e tortuosas, margeadas por lindas fachadas caiadas e salpicadas por vasinhos de flores (que resistem bem ao inverno ameno da cidade, com temperaturas de até 17 graus). O bairro judeu de Córdoba tem uma longa história, ocupado pela comunidade desde o Seculo 10. Um de sus filhos mais ilustres, o filósofo Maimônides, é homenageado com uma estátua, na praça que leva seu nome.

A Judería de Córdoba é um lugar para a gente se perder em caminhadas sem pressa. Simplesmente encantadora!

Qualquer caminhada pela Judería desemboca em cantinhos
 que parecer saídos de um livro de histórias.

À direita, o Zoco Municipal, mercado de artesanato
A estátua do filósofo Maimonides e uma rua típica da Judería
Informações Práticas

Alcázar de los Reyes Cristianos 
Calle de las Caballerizas Reales, s/n. Aberto diariamente, das 8:30h às 20 horas. Entrada € 4,50 ou € 7 (combinada com o show de som e luz, sempre às 20 horas).

Jardim do Alcázar
Palácio de Viana
Plaza de Don Gome nº 2. Os pátios podem ser vistos no ritmo que o visitante ditar, mas o interior do palácio, só em visitas guiadas, de hora em hora. Aberto de de terça a sexta, das 10h às 19. Aos sábados e domingos, das 10h às 15h. Em julho e agosto, funciona nos mesmos horários do final de semana. Entrada € 8.
Pátio do Palácio de Viana

Museu de Belas Artes de Córdoba
Plaza del Potro nº 1. Terças, das 14:30h às 20:30h. De quarta a sábado, das 9h às 20:30. Domingos, das 9h às 14:30h. Entrada  € 1,5.

A Plaza del potro, citada até por Cervantes
Hammam Al Andalus
Calle Corregidor Luís de la Cerda nº 51, fone 957-484-767. Funciona diariamente, das 10h às 24 horas. Os preços variam de acordo com o tratamento escolhido.

O mais simples é o banho (com acesso às três piscinas, quente, morna e fria e mais a sauna) com 15 minutos de massagem relaxante, que custa €36. O mais caro é o banho Ritual, com direito a kessa (exfoliação) e massagem (€ 67). Se quiser só os banhos, o preço é de € 24.

Um passeio pela Judería 
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4 comentários:

  1. Eu só acrescentaria que à noite é possível disfrutar de música flamenca de ótima qualidade nas casas de espetáculos da cidade.

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    1. É verdade, Mauro. Faz um tempinho que estou batucando um post sobre as apresentações de flamenco nas cidades que visitei pela Andaluzia e Córdoba, com certeza, tem ótimas opções :)

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  2. Olá! Ótimo o teu blog! Parabéns! Inicio de maio ou final de abril seria uma boa época para visitar a Andaluzia? Planejo ir a Sevilha(4 dias completos ), Córdoba(2dias) e Granada (3dias). E fazer de trem o percursso entre elas.Obrigada.

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    1. Oi, Lucia, obrigada :)
      Olha, a Andaluzia é bem quente no verão, mas creio que nesse período que vc vai esteja agradável. Eu peguei 17 graus em Córdoba em pleno janeiro, pra vc ter uma ideia...

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